Era uma vez, numa república localizada algures no comité central, um reino chamado Maçaróquia. Um lugar mágico onde a verdade era considerada uma arma de destruição massiva e os jornalistas eram tratados como dragões que precisavam ser abatidos antes de cuspirem fogo.
Na semana passada, o Conselho Supremo dos Feiticeiros da Maçaroca reuniu-se numa caverna secreta iluminada por velas importadas do século XIII. ” Agenda ” Temos um problema! gritou o Grão-Mago. Mata e Reza e Nyu-Nyu.. O jornalista está a descobrir coisas! O salão mergulhou em pânico. Uma velha bruxa do regime deixou cair a dentadura. Aquela tia do Punk. Um camarada medieval desmaiou, neste caso aquele tio que anda na cadeira de rodas com descartáveis mais conhecido por primeiro tiro. Outro tentou fugir, achou que já não tinha disciplina militar. Descobrir coisas? Isso é gravíssimo!
Imediatamente convocaram o Juiz da Ordem das Trevas, conhecido entre os aldeões como “Sua Excelência Dom Matsinhe e tia Lulu”.
Os senhores apareceram usando uma toga feita de cortinas de hotel e carregando um martelo que mais parecia uma marreta usada para partir consciências.Tragam-me o mandado! E o mandado veio.nNão para prender ladrões. Não para prender traficantes. Não para prender corruptos. Não. Era para capturar o objecto mais perigoso do reino: Um laptop. Uma pen-drive. Um telemóvel. Um disco externo.
Equipamentos considerados mais perigosos que um batalhão inteiro de mercenários. Foi então que entrou em cena o SERNIC. Vestidos como se fossem personagens rejeitados de Prison Break, misturados com guardas medievais e figurantes de La Casa de Papel, executaram a missão. Operação: CAÇA AO USB. Operação: SILÊNCIO DIGITAL.
Operação: NÃO DEIXEM O POVO SABER. Invadiram. Recolheram. Embalaram. Etiquetaram. Confiscaram.
Pareciam arqueólogos procurando ossos de dinossauro. Mas esqueceram um detalhe. O jornalista não era jornalista. Era Jason Bourne. Era Raymond Reddington. Era Professor da Casa de Papel.
Era VM7. Enquanto os agentes carregavam computadores para dentro das viaturas, VM7 observava calmamente de um local desconhecido.
Porque os verdadeiros ficheiros já não estavam ali. Os documentos já tinham viajado. As cópias já tinham partido. Os backups já tinham emigrado. As informações já estavam espalhadas por mais continentes do que os discursos da propaganda. Confiscaram a máquina. Mas esqueceram-se da memória. Confiscaram os cabos.
Mas esqueceram-se da internet. Confiscaram os teclados.
Mas esqueceram-se das nuvens.
E quando um regime começa a perseguir discos rígidos com mais energia do que persegue problemas reais, o exorcismo torna-se inevitável. Naquela noite, os espíritos da verdade apareceram.
Primeiro surgiu o Fantasma da Transparência. Depois o Demónio da Informação. Por fim apareceu Satanás em pessoa. Olhou para os camaradas e disse: Eu sou o príncipe das trevas, mas vocês exageram. Os demónios abandonaram a sala em protesto. Os fantasmas pediram asilo político. Até os morcegos ficaram escandalizados. Porque na República da Maçaróquia existe uma crença ancestral: Se destruirmos os papéis, a história desaparece.
Se confiscarmos os computadores, a verdade morre. Se recolhermos os telemóveis, ninguém saberá de nada. É a mesma lógica de um homem da Idade da Pedra que tenta apagar o Sol soprando sobre ele.
No final da história, o reino celebrou. Os feiticeiros brindaram. O Juiz recebeu aplausos. O SERNIC regressou triunfante. E todos acreditaram ter vencido. Mas algures, num servidor distante, numa nuvem invisível, num ficheiro protegido por mais segredos do que a receita da Coca-Cola, a verdade continuou viva. Pacientemente.
Silenciosamente. À espera do dia em que os arqueólogos do futuro encontrem os fósseis desta época e escrevam: “Aqui viveu um povo que tinha medo de jornalistas, mas não tinha medo da verdade que eles procuravam.”
” mas chapo você, alma da avó “
Crónicas De Moçambique

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