Axis Advisory
Há ciclos da economia mundial em que a geologia volta a ser política. Estamos num desses momentos. O reordenamento das cadeias globais em torno de terras raras e minerais críticos não é um fenómeno tecnológico. É uma reconfiguração das condições materiais de poder que estruturarão a próxima geração de indústrias estratégicas. Moçambique posiciona-se neste tabuleiro com uma combinação rara: geologia favorável, posição costeira, projectos em curso e uma janela política aberta, tudo em simultâneo. A questão não é saber se o País tem recursos. A questão é saber se conseguirá, nos próximos sete a dez anos, transformá-los em capacidade industrial antes que essa janela se feche.
I. O tabuleiro global: da química à coerção
A categoria “terras raras” reúne 17 elementos químicos que são os 15 lantanídeos, mais o escândio e o ítrio. A designação é, em rigor, enganadora: estes elementos não são particularmente raros em termos de abundância na crosta terrestre. O que é raro é encontrá-los em concentrações economicamente exploráveis e, sobretudo, ter infra-estrutura industrial capaz de os separar, refinar e converter em produtos finais utilizáveis. É nesta segunda dimensão, da química industrial, que se concentra hoje o verdadeiro poder do sector. E é aqui que a China não tem rival.
Os dados são inequívocos e devem ser pronunciados sem rodeios. A China detém aproximadamente 60% da extracção mundial de terras raras e mais de 90% da capacidade global de refinação. Quando se alarga o conceito para a categoria mais vasta de minerais críticos, a Agência Internacional de Energia documenta que a China é o refinador dominante em 19 dos 20 minerais que analisa, com uma quota média de mercado de cerca de 70%. Para componentes específicos como ímanes permanentes de neodímio-ferro-boro (NdFeB), ácido fosfórico purificado para baterias de fosfato de ferro-lítio (LFP) ou o sulfato de manganês de elevada pureza, a concentração ultrapassa os 90%. Não se trata de um monopólio circunstancial. É o resultado de quatro décadas de política industrial deliberada, executada com um horizonte temporal que nenhuma democracia ocidental conseguiu, até hoje, igualar.
O ano de 2025 inaugurou uma fase qualitativamente nova nesta arquitectura. Em Abril, Pequim impôs licenciamento obrigatório sobre as exportações de sete terras raras e seus derivados. Em Outubro, através do Aviso n.º 61 do Ministério do Comércio, a malha apertou-se e foram acrescentados cinco novos elementos (hólmio, érbio, túlio, európio e itérbio), introduzindo-se um princípio de extraterritorialidade. O controlo passou a alcançar produtos fabricados fora da China que contenham material ou tecnologia chinesa em proporção igual ou superior a 0,1%. Este último elemento, frequentemente subanalisado nos comentários públicos, é o mais relevante. Significa que o sistema de controlo deixou de ser uma medida fronteiriça e passou a ser uma arquitectura de jurisdição global sobre cadeias de valor inteiras.
A 7 de Novembro de 2025, no quadro do encontro Xi-Trump, em Busan, a China suspendeu temporariamente (por 12 meses, até Novembro de 2026) a aplicação destes controlos adicionais, em contrapartida pela suspensão equivalente da chamada Affiliates Rule norte-americana. Não confundamos esta suspensão com um regresso ao status quo. As restrições de Abril de 2025 mantêm-se, o sistema de licenciamento permanece e, a 31 de Março de 2026, o Conselho de Estado chinês promulgou a Ordem n.º 834 para as Disposições sobre a Segurança das Cadeias Industriais e de Abastecimento, integrando num quadro unificado o controlo de exportações, a segurança de dados, o escrutínio de investimento e obrigações de conformidade aplicáveis à totalidade das empresas que operam sob jurisdição chinesa. O que estamos a observar não é um conflito comercial. É a consolidação de um regime de governação industrial de alcance extraterritorial.
“Quando se fala de terras raras e minerais críticos, o público tende a associá-los a veículos eléctricos e baterias. Esta associação é correcta, mas insuficiente”
A resposta ocidental tem sido coerente nos seus objectivos e fragmentada nos seus instrumentos. Em Janeiro de 2026, uma reunião ministerial do G7, em Washington, colocou explicitamente as terras raras no topo da agenda, discutindo mecanismos de preço mínimo e incentivos coordenados para reduzir a dependência. Em Março de 2026, a U.S. International Development Finance Corporation (DFC) anunciou a conversão de parte da sua dívida da Syrah Resources, que opera a mina de grafite de Balama, em Cabo Delgado, em participação accionista, complementada por um instrumento de dívida convertível. Trata-se de uma operação inédita: é a primeira vez que a DFC adquire um convertible loan note de uma empresa cotada. Nos Estados Unidos, o Pentágono consolidou, em 2025, a posição de principal investidor institucional na MP Materials, o único produtor verticalmente integrado de ímanes de terras raras em solo americano. A U.S. Trade and Development Agency (USTDA) confirmou, em Março de 2026, o apoio formal ao projecto de Monte Muambe, em Tete. Em paralelo, Pequim formalizou, em Abril de 2026, durante a visita de Estado do Presidente Daniel Chapo à China, um acordo abrangente que inclui o mapeamento geológico das províncias do Norte de Moçambique, cooperação em segurança e investimento em infra-estrutura de processamento.
Há, portanto, uma corrida em curso. E Moçambique encontra-se simultaneamente em três tabuleiros: como fornecedor potencial das cadeias ocidentais de diversificação, como nó da rede industrial chinesa e como jurisdição soberana que ainda não consolidou a sua doutrina face a este duplo cortejo.
II. Os minerais como infra-estrutura invisível da economia do século XXI
Importa desfazer uma noção equivocada. Quando se fala de terras raras e minerais críticos, o público tende a associá-los predominantemente a veículos eléctricos e baterias. Esta associação é correcta, mas insuficiente. A verdadeira centralidade destes materiais está em que constituem a infra-estrutura física indispensável de praticamente todas as fronteiras tecnológicas que definirão a próxima fase da economia global. Os ímanes permanentes de neodímio-ferro-boro, ‘dopados’ com disprósio e térbio, são o componente que torna possíveis os motores eléctricos de alta densidade energética. Estão em cada veículo eléctrico, em cada turbina eólica offshore, em cada drone militar, em cada míssil guiado e em cada sistema de orientação por satélite. Um único caça F-35 contém aproximadamente 417 kg de terras raras e seus derivados, segundo o Congressional Research Service. Uma turbina eólica offshore de 3 MW, na configuração direct-drive com gerador de ímanes permanentes, pode requerer cerca de 600 kg de neodímio. Não existe, hoje, alternativa industrialmente escalável a estes ímanes, e essa ausência de substituto é, por si só, a fonte da alavancagem geopolítica de Pequim.
No domínio da electrificação, a grafite natural ocupa uma posição estrutural ainda subestimada. É o material dominante para os ânodos das baterias de iões de lítio, representando entre 95% e 98% da massa do ânodo em quase todas as químicas comerciais. A grafite sintética, derivada de coque de petróleo, oferece performance superior, mas a um custo energético e ambiental três vezes superior ao da grafite natural. A China refina cerca de 90% da grafite natural transformada em material activo de ânodo (AAM). É neste contexto que a propriedade da mina de Balama por uma operadora australiana com financiamento norte-americano se transforma num activo estratégico de primeira ordem, não pela escala absoluta, mas pela sua localização fora da arquitectura chinesa. O lítio, o cobalto, o níquel e o manganês completam o quarteto que define a química das baterias. Mas o jogo está a diferenciar-se. As baterias LFP já representam cerca de metade do mercado de veículos eléctricos, e a sua expansão concentra a dependência em fósforo purificado e manganês de elevada pureza que são dois inputs em que a China detém, respectivamente, 75% e 95% da capacidade global. As químicas emergentes de sódio-ião deslocam a geografia da dependência, mas não a eliminam. O tabuleiro químico continua, em qualquer cenário, dominado por um único interveniente.
Há, finalmente, a dimensão de defesa e semicondutores, frequentemente excluída do debate público mas decisiva nas agendas estratégicas dos Estados. O gálio e o germânio, que formalmente não são classificados como terras raras, mas que são frequentemente agregados a este universo, são indispensáveis em semicondutores compostos, lasers, sistemas de visão nocturna e radar avançado. O tântalo, do qual Moçambique possui o que pode ser a maior reserva mundial, é um condensador essencial em microelectrónica de alta performance. O titânio, com reservas significativas no País pelo depósito de Moma, é estrutural para o sector aeroespacial e implantes médicos.
Estes não são minerais. São os ingredientes invisíveis sem os quais não existem aviões, telefones, redes 5G, satélites, sistemas de mísseis, nem praticamente nenhum equipamento médico ou industrial avançado.
A escala do crescimento da procura projectada é, ela própria, geopoliticamente assimétrica. A Agência Internacional de Energia estima que a procura global de minerais críticos terá de triplicar até 2030 e quadruplicar até 2040 para que sejam cumpridos os compromissos climáticos anunciados. O lítio crescerá cinco vezes até 2040 no cenário Stated Policies. A grafite e o níquel duplicarão. O cobalto e as terras raras crescerão 50% a 60%. Mesmo nos cenários mais conservadores, a curva da procura é estrutural, não cíclica. Mas eis o ponto crítico frequentemente subestimado: as descontinuidades de oferta são profundamente assimétricas. Excluindo o maior fornecedor (geralmente a China), a oferta restante cobriria apenas 35% a 40% da procura projectada para grafite e terras raras em 2035. É esta assimetria que torna a diversificação uma necessidade industrial existencial para o Ocidente. E é nesta assimetria que reside a oportunidade para jurisdições como Moçambique.
[Continua na próxima edição]



Leave feedback about this