Sociedade

Do Ciclone Chido à Luz de Volta: A Corrida da EDM para Reconstruir a Rede e Devolver a Energia a Cabo Delgado

Por Quinton Nicuete | Moz24h

Durante algumas horas, em Dezembro de 2024, Cabo Delgado deixou de ser apenas uma província habituada a conviver com os efeitos de fenómenos climáticos extremos e passou a enfrentar uma destruição que atingiu simultaneamente casas, estradas, serviços públicos, meios de subsistência e uma das infraestruturas essenciais para o funcionamento das comunidades: a rede eléctrica. O ciclone Chido atingiu a província com chuvas torrenciais e ventos fortes, derrubando postes, rompendo condutores, danificando transformadores e comprometendo centenas de quilómetros de redes de média e baixa tensão, deixando dezenas de milhares de consumidores sem energia e obrigando a Electricidade de Moçambique (EDM) a montar uma operação de recuperação que se prolongou para além das primeiras semanas de emergência.Os danos não foram apenas uma sucessão de avarias registadas em relatórios técnicos. Para as famílias que perderam o fornecimento de energia, a passagem do ciclone significou também a interrupção de actividades domésticas e económicas que dependiam da electricidade. Para os comerciantes, significou dificuldades para conservar produtos, utilizar equipamentos e manter os negócios em funcionamento; para as famílias, significou reorganizar a vida quotidiana; e para comunidades inteiras, significou esperar pela reconstrução de uma rede cuja dimensão e complexidade nem sempre são visíveis para quem simplesmente acciona um interruptor e espera que a lâmpada acenda.

É nessa distância entre os números da destruição e as histórias das pessoas que esta reportagem acompanha a corrida da EDM para reconstruir a rede eléctrica nos distritos de Mecúfi, Metuge, Ancuabe e Chiúre, bem como na cidade de Pemba, procurando perceber não apenas quanto foi destruído e quanto foi recuperado, mas também o que significou devolver progressivamente a electricidade a consumidores que permaneceram durante semanas ou meses à espera da normalização do serviço.

MECÚFI: ONDE A DESTRUIÇÃO FOI MAIS SEVERA

Em Mecúfi, um dos distritos mais afectados pelo ciclone, a destruição da rede eléctrica ocorreu num momento em que as comunidades ainda procuravam recuperar de outros danos provocados pela tempestade. O fenómeno atingiu casas, infraestruturas e meios de subsistência, deixando famílias obrigadas a procurar abrigo e a reorganizar a vida depois de perderem parte do que tinham construído, enquanto a interrupção do fornecimento de energia acrescentava uma dificuldade adicional a uma situação já marcada pela emergência.A EDM estima que, em Cabo Delgado, cerca de 80 mil clientes tenham sido afectados pela interrupção do fornecimento, dos quais aproximadamente 76 mil já tinham sido religados durante a fase de recuperação reportada pela empresa. Os danos incluíram linhas de média tensão, redes de baixa tensão, postos de transformação e outros componentes necessários para que a electricidade percorresse novamente o caminho entre as subestações e os consumidores.

A dimensão dos prejuízos ajuda a compreender a dificuldade da operação. Cerca de 400 quilómetros de linhas de média tensão foram danificados, enquanto aproximadamente 350 quilómetros de rede de baixa tensão ficaram comprometidos e 29 transformadores foram destruídos, segundo os dados apresentados pela EDM. A empresa estimou ainda prejuízos na ordem dos 300 milhões de meticais provocados pelo ciclone em Cabo Delgado.

Para consumidores como Sifa Mateus, Helena Mapasso, Januário Mano e Nuro Januário, entrevistados em Mecúfi, a interrupção não podia ser traduzida apenas por quilómetros de cabos destruídos ou pelo número de transformadores danificados. A ausência de energia interferiu directamente na rotina das famílias e, no caso dos consumidores que dependem de actividades comerciais, transformou-se também num problema económico, porque equipamentos que necessitam de electricidade deixaram de funcionar e determinadas actividades tiveram de ser reduzidas ou interrompidas.

Nuro Januário, comerciante, representa precisamente essa dimensão da crise. Para alguém cuja actividade depende do funcionamento regular de equipamentos eléctricos, a falta de energia não significa apenas uma casa às escuras, mas uma redução da capacidade de trabalhar e gerar rendimento. Quando a electricidade regressa, portanto, a recuperação da rede representa também a possibilidade de reconstruir uma parte da actividade económica perdida durante a interrupção.

Foi nesse cenário que as equipas da EDM começaram a trabalhar em diferentes frentes, procurando recuperar primeiro os pontos estruturantes da rede e, posteriormente, restabelecer as ligações aos consumidores. A operação exigia identificar os danos, avaliar quais componentes poderiam ser recuperados, substituir os que tinham sido destruídos, reparar linhas, recuperar postos de transformação e testar as instalações antes de voltar a energizar cada troço.

UMA REDE DESTRUÍDA EM CENTENAS DE QUILÓMETROS

Os relatórios técnicos conseguem descrever a destruição através de números precisos, mas esses números representam uma cadeia muito maior de trabalho. Um poste derrubado pelo vento pode significar uma comunidade inteira sem energia; um transformador destruído pode interromper o fornecimento a centenas de consumidores; e uma ruptura numa linha de média tensão pode impedir que a electricidade chegue a zonas que, aparentemente, se encontram próximas de uma área já electrificada.

O relatório e contas da EDM regista entre os danos provocados pelo ciclone a queda de postes de madeira, a ruptura de condutores devido ao esforço mecânico, avarias em cabos subterrâneos, caixas de junção, terminais e transformadores de distribuição. A dimensão dos danos obrigou a empresa a organizar diferentes equipas e frentes de trabalho, uma vez que a recuperação de uma zona não significava necessariamente que toda a rede daquele distrito estivesse novamente funcional.

Em Cabo Delgado, a operação assumiu uma dimensão particularmente complexa porque Mecúfi, Metuge, Ancuabe, Chiúre e Pemba não apresentavam exactamente os mesmos problemas. Enquanto algumas áreas precisavam da reconstrução de linhas de média tensão, noutras era necessário substituir transformadores ou concluir as chamadas baixadas, isto é, as ligações finais que permitem levar a energia da rede de distribuição até ao consumidor.

Foi por isso que a recuperação aconteceu de forma gradual, troço por troço, posto de transformação por posto de transformação e consumidor por consumidor.

“O NOSSO TRABALHO CONCRETO”: A CORRIDA TROÇO A TROÇO

Na fase mais intensa da recuperação, o director da EDM em Pemba, Hermínio Assamo, explicou que o trabalho ainda estava concentrado em vários pontos da rede e que alcançar uma recuperação elevada não significava que todos os consumidores tivessem recuperado imediatamente o fornecimento.

“O nosso trabalho no primeiro momento era a reposição da média tensão. Refiro-me ao troço Muepane-Impire, em Metuge, onde também temos alguns Postos de Transformação (PT) que ainda precisava de repor. Eram seis PT por repor na zona da penitenciária, conseguimos alimentar essa zona, assim como a sede do posto  de Mieze”, explicou.

A declaração mostra que a reconstrução não consistia numa única intervenção. Enquanto uma equipa trabalhava numa linha de média tensão, outras equipas podiam estar concentradas na recuperação de postos de transformação ou nas ligações finais aos consumidores, criando uma operação em cadeia na qual a conclusão de uma etapa permitia avançar para a seguinte.Hermínio Assamo descreveu também a evolução de outras frentes de trabalho, incluindo Morripa, onde uma parte da rede tinha sido reenergizada e as equipas avançavam para a recuperação de outro posto de transformação. Em Tutuque, segundo a mesma fonte, a reposição da rede tinha sido concluída numa fase anterior, mas ainda permaneciam ligações finais por recuperar.

“Em Inutupue conseguimos fazer a reposição no final de semana passado. Estamos agora a repor as baixadas, faltando cerca de 28. Acreditamos que nos próximos dias conseguiremos concluir essa frente de trabalho”, disse.

Naquele momento, 76 mil dos 80 mil clientes afectados já tinham voltado a beneficiar de energia eléctrica, enquanto a EDM estimava ter recuperado cerca de 95% das infraestruturas danificadas. Permaneciam, contudo, cerca de 40 quilómetros de rede de média tensão por concluir, sobretudo nos troços Muepane–Impire, em Metuge, e Nipataco, em Ancuabe.Os números revelavam uma recuperação avançada, mas também mostravam por que razão os últimos cinco por cento podiam representar uma tarefa desproporcionalmente difícil. A parte restante da rede não era simplesmente aquilo que sobrava de uma obra. Eram troços e equipamentos cuja recuperação era necessária para alcançar consumidores que continuavam sem energia.

METUGE: OS ÚLTIMOS QUILÓMETROS

Em Metuge, o troço Muepane–Impire tornou-se uma das frentes relevantes da recuperação. A reposição da média tensão era necessária para permitir que a energia voltasse a alcançar determinadas zonas e, consequentemente, que outros componentes da rede pudessem ser reactivados.

Para consumidores como Daniel Nsepa, Cassamo Munez e Ferreira António, a questão era muito mais simples do que a complexidade técnica enfrentada pelas equipas: a energia tinha de voltar. A espera era acompanhada a partir do lado do consumidor, enquanto os técnicos enfrentavam uma realidade diferente, na qual cada intervenção exigia deslocação, avaliação, materiais, mão-de-obra e testes antes da reenergização.

Uma linha eléctrica pode ter dezenas de quilómetros, mas para uma família a distância resume-se a uma pergunta concreta: quando voltará a energia? A resposta depende, contudo, de uma cadeia de operações que começa muitas vezes longe da casa do consumidor e termina apenas quando a rede consegue ser novamente energizada com condições de segurança.

É nesse percurso que um quilómetro de linha deixa de ser apenas uma unidade de medida e passa a representar a distância física que as equipas tiveram de percorrer, os materiais que tiveram de transportar e os obstáculos que tiveram de superar para aproximar novamente o serviço do consumidor.

O TRABALHO INVISÍVEL DOS TÉCNICOS

Há uma tendência para medir grandes operações de reconstrução através de indicadores: quilómetros de linhas recuperados, transformadores substituídos, postes instalados e clientes religados. Esses indicadores são importantes para avaliar o desempenho da intervenção, mas não mostram integralmente o trabalho realizado no terreno.Em Cabo Delgado, as equipas da EDM tiveram de transformar uma rede parcialmente destruída numa infraestrutura novamente funcional, num processo que envolveu a localização dos danos, a avaliação técnica dos equipamentos, a mobilização de materiais, a instalação de novos componentes, a reparação de linhas, a verificação das condições de segurança e, só depois, a reenergização.

A dificuldade aumenta quando a recuperação ocorre numa área geograficamente extensa, onde uma intervenção concluída não significa necessariamente que todos os consumidores próximos possam ser religados. Um posto de transformação pode estar reparado, mas uma linha de baixa tensão pode continuar danificada; uma linha de média tensão pode estar operacional, mas uma ligação final pode ainda precisar de intervenção.

É neste trabalho progressivo que a presença dos técnicos se torna central para compreender como a electricidade regressou às comunidades. A recuperação não aconteceu num único momento, mas através de sucessivas intervenções que permitiram restabelecer gradualmente a continuidade da rede.

ANCUABE: PARA ALÉM DOS GRANDES CENTROS

Em Ancuabe, consumidores como Dionísio Pius e Alves Fernandes ajudam a compreender uma questão essencial para a qualidade do serviço: recuperar a rede não significa apenas restabelecer a energia nas sedes distritais ou nos pontos de maior concentração populacional, mas também chegar às comunidades que se encontram mais afastadas.

Nipataco figurava entre as frentes que ainda necessitavam de intervenção na fase em que a EDM reportava uma recuperação de 95% das infraestruturas afectadas. A existência desses pontos pendentes mostrava que uma elevada percentagem de recuperação podia coexistir com consumidores que continuavam à espera.

A diferença entre uma rede parcialmente recuperada e uma rede plenamente funcional pode parecer pequena numa percentagem, mas pode ser significativa para as famílias que se encontram precisamente na parte ainda não recuperada. Para essas comunidades, a meta não é 95% nem 99%; é ter energia.

Essa perspectiva ajuda a colocar o consumidor no centro da discussão sobre a qualidade do serviço. A recuperação de uma rede só se completa quando a infraestrutura reconstruída consegue efectivamente voltar a prestar o serviço para o qual foi concebida.

CHIÚRE: A ELECTRICIDADE COMO PARTE DA RECUPERAÇÃO

Em Chiúre, Tiago Mpiteu e David Frade acrescentam outras experiências ao mapa humano da recuperação da rede. Depois de uma tempestade de grande intensidade, a reconstrução de uma comunidade não se limita às casas ou às estradas, porque serviços e actividades económicas também dependem de infraestruturas que muitas vezes passam despercebidas até ao momento em que deixam de funcionar.

A electricidade é uma dessas infraestruturas. A sua interrupção pode afectar actividades comerciais, conservação de produtos, comunicação, iluminação e utilização de equipamentos, enquanto o seu restabelecimento cria condições para que parte dessas actividades volte gradualmente à normalidade.

É por isso que a reposição da energia deve ser entendida também como parte do processo de recuperação das comunidades afectadas pelo ciclone. Os cabos e transformadores são a parte visível da reconstrução técnica, mas o resultado final mede-se igualmente pelas actividades que os consumidores conseguem voltar a realizar.

QUANDO A TECNOLOGIA APROXIMA O CLIENTE DA EDM

A experiência do Chido levanta outra questão central para o tema deste concurso: de que forma a tecnologia pode melhorar o serviço ao cliente num sector em que a infraestrutura física continua indispensável?

A resposta começa na comunicação. Uma avaria pode ocorrer num ponto da rede que a empresa precisa de identificar rapidamente; um consumidor pode comunicar uma interrupção; uma equipa técnica pode necessitar de informação para decidir onde intervir primeiro; e a empresa precisa de acompanhar o estado das ocorrências até à reposição do serviço.

A digitalização cria ferramentas para aproximar esses diferentes momentos. O Portal do Cliente da EDM permite realizar procedimentos relacionados com novas ligações, alterações de potência, actualização de dados e mudança de titularidade, enquanto os canais digitais e electrónicos de pagamento permitem aos consumidores adquirir Credelec através de diferentes plataformas. O piquete 24 horas, associado ao número 1455, constitui igualmente um canal através do qual o consumidor pode comunicar ocorrências e solicitar assistência.

Mas o Chido mostrou também os limites de uma visão exclusivamente digital da inovação. Um consumidor pode comunicar uma avaria através do telefone ou de uma plataforma digital, mas, se o ciclone derrubar um poste, romper uma linha ou destruir um transformador, a solução continuará a depender da capacidade de uma equipa técnica chegar ao local, reparar a infraestrutura e restabelecer o fornecimento.

A inovação, neste contexto, não significa substituir o trabalho humano pela tecnologia. Significa utilizar a tecnologia para melhorar a circulação da informação, reduzir o tempo de resposta, organizar ocorrências, aproximar o consumidor da empresa e permitir que as equipas técnicas disponham de informação mais adequada para executar o trabalho no terreno.

A verdadeira prova da digitalização está, portanto, no que acontece depois de o cliente comunicar o problema: quanto tempo demora a resposta, como a ocorrência é encaminhada, como a equipa é mobilizada e em que momento a energia volta efectivamente ao consumidor.

O CLIENTE COMO PARTE DO SISTEMA

A experiência dos consumidores durante o Chido também revela uma transformação importante na relação entre a empresa e os seus clientes. Durante uma interrupção prolongada, o consumidor deixa de ser apenas alguém que paga pelo serviço e passa a ser também uma fonte de informação sobre o estado da rede.

Quando um cliente comunica que determinado bairro está sem energia, essa informação pode contribuir para identificar a extensão de uma avaria. Quando vários consumidores reportam ocorrências semelhantes, os dados podem ajudar a perceber que existe um problema mais amplo. Quando uma equipa técnica actualiza o estado de uma intervenção, essa informação pode melhorar a comunicação com os consumidores afectados.

Esta relação entre consumidor, informação e resposta técnica constitui uma das dimensões mais relevantes da digitalização do sector eléctrico. A tecnologia pode reduzir a distância entre aquilo que acontece na rede e aquilo que a empresa sabe sobre o que está a acontecer.

No entanto, essa aproximação só produz resultados se estiver ligada a uma capacidade efectiva de resposta. Uma plataforma eficiente não substitui uma rede resistente, da mesma forma que uma aplicação não consegue reparar sozinha um transformador destruído.

A inovação funciona melhor quando a informação digital e a capacidade técnica trabalham em conjunto.

DO SOFRIMENTO À RECUPERAÇÃO

Para os consumidores que permaneceram sem energia, a recuperação da rede não foi uma questão abstracta de desempenho institucional. Foi uma espera concreta, vivida dentro de casas e estabelecimentos comerciais que precisavam de voltar a funcionar.Durante a interrupção, a ausência de electricidade obrigou famílias e comerciantes a adaptar rotinas, procurar alternativas e esperar pela reparação da infraestrutura. Depois da reposição, actividades anteriormente interrompidas puderam ser retomadas, equipamentos voltaram a funcionar e a electricidade recuperou o lugar habitual na vida quotidiana.

Essa transformação ajuda a explicar por que razão os indicadores de clientes religados têm importância, mas não são suficientes para contar toda a história. Os números mostram a dimensão da operação; as experiências dos consumidores mostram o seu significado.

Para a EDM, a recuperação pode ser medida através de quilómetros de rede e percentagens de infraestrutura reparada. Para uma família, pode ser medida pelo momento em que a luz volta a acender. Para um comerciante, pode ser o momento em que consegue novamente utilizar os equipamentos necessários para trabalhar.

As duas perspectivas não são contraditórias. Pelo contrário, complementam-se.

UMA REDE PREPARADA PARA O PRÓXIMO CICLONE

A reconstrução depois do Chido resolveu uma emergência, mas deixou uma pergunta para o futuro: como tornar a rede eléctrica mais resistente perante fenómenos climáticos que podem voltar a atingir a província?

A questão ganhou importância num contexto em que eventos climáticos extremos colocam pressão crescente sobre infraestruturas essenciais. A experiência de Cabo Delgado demonstrou que a resiliência de uma rede não depende apenas da capacidade de reparar rapidamente depois de uma tempestade, mas também da qualidade da infraestrutura, do planeamento, da manutenção, da disponibilidade de equipamentos, da preparação das equipas e da capacidade de comunicação com os consumidores.

É nesse ponto que a digitalização pode voltar a desempenhar um papel estratégico. Sistemas capazes de recolher e organizar informação sobre ocorrências, ferramentas de comunicação com consumidores, monitorização da rede e mecanismos mais rápidos de encaminhamento de problemas podem contribuir para reduzir o intervalo entre uma avaria e a resposta.

Mas a experiência do Chido deixa igualmente uma lição mais simples: nenhuma inovação digital será suficiente se a infraestrutura física não for capaz de resistir ou recuperar rapidamente.

Uma rede moderna precisa de ser simultaneamente tecnológica e resiliente.

A LUZ DEPOIS DA TEMPESTADE

O ciclone Chido precisou de poucas horas para provocar danos em Cabo Delgado. A reconstrução, pelo contrário, exigiu meses de trabalho e uma sucessão de intervenções que envolveram linhas de média tensão, redes de baixa tensão, postos de transformação, condutores, postes e ligações aos consumidores.

Durante esse período, milhares de famílias acompanharam a recuperação a partir do outro lado da rede, esperando que a electricidade voltasse. Para os técnicos, cada intervenção significava mais uma etapa de uma operação que não terminaria enquanto existissem consumidores sem fornecimento. Agora vencido e a rede eléctrica já acende.Hermínio Assamo descreveu essa operação através de troços, postos de transformação e baixadas. Os consumidores entrevistados descreveram-na através da espera e do regresso à normalidade. Entre essas duas perspectivas existe toda a história da recuperação.

Os 80 mil clientes inicialmente afectados não representam apenas uma estatística. Representam milhares de famílias, comerciantes e instituições cuja rotina foi alterada pela interrupção do serviço. Os quilómetros de rede danificados também não representam apenas números técnicos: cada quilómetro corresponde a uma parte da infraestrutura que precisou de ser reconstruída para que a energia pudesse avançar novamente.

Foi por isso que a operação da EDM teve de ser feita de forma progressiva, com equipas a trabalhar em diferentes frentes e a resolver problemas distintos até que a rede pudesse ser novamente energizada.

No fim dessa corrida, a questão fundamental não era saber apenas quantos postes tinham sido substituídos ou quantos quilómetros de linha tinham sido recuperados. A questão era saber quantos consumidores tinham conseguido voltar a utilizar normalmente a electricidade.

É aí que a tecnologia, a infraestrutura e o trabalho humano se encontram.

A digitalização pode ajudar o cliente a comunicar, a comprar Credelec qye antigamente era pós-pago, a empresa a receber informação e as equipas a responder. A infraestrutura física permite que essa resposta chegue efectivamente às comunidades. E os técnicos transformam essa combinação de informação, equipamentos e conhecimento numa rede novamente funcional.

O ciclone Chido deixou Cabo Delgado com uma rede eléctrica severamente danificada, mas a recuperação mostrou que devolver a energia é mais do que substituir cabos e postes. É reconstruir uma ligação essencial entre a infraestrutura e as pessoas que dela dependem.

Depois da tempestade, a luz voltou gradualmente às comunidades de Mecúfi, Metuge, Ancuabe, Chiúre e Pemba. Por trás de cada consumidor religado ficaram quilómetros de rede reconstruídos, equipamentos substituídos, decisões técnicas e muitas horas de trabalho no terreno.

E, por trás de cada lâmpada que voltou a acender, ficou uma história que começou com a destruição de uma tempestade e terminou com a reconstrução de uma parte da vida quotidiana. (Moz24h)

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