Uma reflexão sobre solidariedade, participação cívica, protecção dos denunciantes e o papel da sociedade civil na consolidação democrática de Moçambique.
O que aconteceu em Moçambique nos dias que se seguiram à condenação de Adriano Nuvunga merece atenção não apenas jurídica ou política, mas também sociológica e sob a perspectiva dos direitos humanos.
Em poucos dias, mais de 23 mil cidadãos mobilizaram-se espontaneamente para arrecadar 1.075.000,00 meticais destinados a cobrir a indemnização de um milhão de meticais imposta ao Director Executivo do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD).
Os números são impressionantes. Mas o que torna este episódio verdadeiramente extraordinário é a sua natureza.
Não houve campanhas publicitárias de grande dimensão. Não houve financiamento institucional. Não houve grandes doadores a determinar o resultado. O movimento nasceu de forma espontânea, difundiu-se através das redes sociais, grupos comunitários e contactos pessoais, mobilizando milhares de cidadãos anónimos em diferentes pontos do país e da diáspora.
Há momentos em que uma sociedade revela aquilo que realmente pensa. Não através de sondagens, discursos oficiais ou comunicados institucionais, mas através das suas acções. A mobilização em torno de Adriano Nuvunga constitui um desses momentos. Pela sua natureza espontânea, pela rapidez com que se organizou e pela dimensão que alcançou, o fenómeno não encontra precedentes conhecidos na história recente de Moçambique.
O mais notável talvez não seja o montante arrecadado, mas a sua composição. Os mais de um milhão de meticais não vieram de um punhado de empresários, políticos ou financiadores. Vieram de milhares de moçambicanos anónimos. São meticais de vendedores informais, estudantes, funcionários públicos, moto-taxistas, pequenos comerciantes, jovens desempregados e cidadãos comuns. É precisamente essa pulverização do apoio que transforma a campanha num fenómeno político e social de grande significado.
Seria um erro interpretar esta mobilização apenas como uma reacção emocional a uma sentença judicial. O que está em causa é algo mais profundo. Durante mais de duas décadas, Adriano Nuvunga ocupou uma posição singular na vida pública moçambicana. Poucas figuras da sociedade civil exerceram um escrutínio tão persistente e sistemático sobre o exercício do poder político durante os governos de Armando Guebuza e Filipe Nyusi.
Através do Centro de Integridade Pública (CIP), primeiro, e posteriormente através do Centro para Democracia e Direitos Humanos (CDD), Nuvunga tornou-se uma das vozes mais consistentes na denúncia da corrupção, da má governação, das violações dos direitos humanos, dos défices de transparência e dos problemas de integridade eleitoral.
Importa recordar que a origem deste caso está ligada a uma denúncia recebida por Nuvunga segundo a qual Albino Forquilha teria alegadamente recebido 219 milhões de meticais para influenciar aquilo que ficou conhecido como a “verdade eleitoral” das eleições de 2024. Perante a informação recebida, Nuvunga optou por submetê-la às autoridades competentes para investigação.
Ao longo do processo, recusou revelar a identidade da fonte que lhe forneceu a informação. Fê-lo invocando um princípio fundamental para qualquer sociedade democrática: a protecção das fontes e dos denunciantes de irregularidades. Em contextos marcados por medo, intimidação e riscos de represálias, a protecção dos denunciantes constitui um elemento essencial para o combate à corrupção, para a responsabilização pública e para a defesa do interesse colectivo.
Do ponto de vista dos direitos humanos, a questão ultrapassa largamente a figura de Adriano Nuvunga. Ela toca em princípios fundamentais relacionados com a liberdade de expressão, o direito à informação, a protecção dos denunciantes e o papel da sociedade civil na promoção da transparência e da prestação de contas.
Mas a história não termina aqui.
À medida que a campanha crescia, tornou-se evidente que o valor arrecadado ultrapassaria a meta inicialmente definida. Perante esta realidade, e considerando que o recurso da sentença suspende a execução da decisão judicial, foi decidido canalizar parte dos valores excedentários para famílias que simbolizam algumas das mais dolorosas feridas da crise política moçambicana recente.

Entre os beneficiários encontram-se a viúva de Elvino Dias, advogado e assessor jurídico de Venâncio Mondlane, assassinado a tiro em Maputo a 19 de Outubro de 2024, num dos episódios mais marcantes da violência política pós-eleitoral. O apoio estendeu-se igualmente à filha de Paulo Guambe, dirigente político morto no mesmo atentado que vitimou Elvino Dias.
Uma parte dos fundos foi também destinada à viúva de Mano Shottas, uma das figuras mais conhecidas das manifestações pós-eleitorais, cuja morte se tornou símbolo dos custos humanos da crise política vivida pelo país.
Outra parcela foi entregue à esposa de Jota Pachoneia, activista social actualmente detido na Cadeia Provincial de Nampula, num gesto de solidariedade para com uma família afectada pelas consequências da participação cívica e política.
Este desdobramento da campanha revela uma dimensão ainda mais profunda do fenómeno. O movimento deixou de ser apenas uma resposta a uma condenação judicial para se transformar numa corrente de solidariedade entre cidadãos afectados, directa ou indirectamente, pela violência política, pela repressão e pelas limitações ao exercício da cidadania.
O fenómeno revela igualmente algo mais profundo sobre a evolução da cidadania moçambicana. Num país frequentemente descrito pela apatia, pelo medo ou pelo afastamento dos assuntos públicos, a mobilização demonstrou exactamente o contrário: existe uma reserva significativa de confiança social que pode ser activada quando os cidadãos identificam uma causa que consideram justa.
Ao contribuírem com pequenas quantias, milhares de cidadãos não estavam apenas a ajudar a pagar uma eventual indemnização. Estavam a afirmar a importância da liberdade de expressão, da participação cívica, do escrutínio do poder, da protecção dos denunciantes e da defesa do interesse público.
Independentemente do desfecho do recurso que será apreciado pelas instâncias superiores, um facto já entrou para a história deste caso. O tribunal condenou um cidadão. A sociedade respondeu com 23.706 actos de solidariedade. E, ao fazê-lo, transformou uma condenação individual numa das mais expressivas manifestações de cidadania activa, confiança pública, defesa dos direitos humanos e solidariedade democrática que Moçambique conheceu desde a independência.
Talvez seja ainda cedo para medir todas as implicações deste episódio. Mas uma coisa parece já clara: o Caso Nuvunga deixou de ser apenas um processo judicial. Tornou-se um marco na história da sociedade civil moçambicana e uma demonstração de que, quando os cidadãos acreditam numa causa, a solidariedade pode tornar-se uma poderosa força de participação democrática.

Leave feedback about this