Politica

Nova Era ou a continuação da “política da barriga”?

Durante a 11.ª Conferência Nacional de Quadros da Frelimo, realizada recentemente na cidade de Chimoio, província de Manica, o Presidente da República e do partido, Daniel Chapo, deixou uma mensagem que rapidamente ganhou destaque: a Frelimo não seria um “santuário de criminosos” e seria necessário “abanar a árvore até cair o fruto podre”.

As declarações foram apresentadas como um sinal de uma nova era, marcada pelo combate à corrupção, pelo reforço da integridade e pela necessidade de restaurar a confiança dos cidadãos nas instituições públicas.

Mas, segundo uma análise publicada pelo Mozambique Insights, por detrás das palavras fortes permanece uma questão fundamental: quando será estabelecido um verdadeiro compromisso para acabar com aquilo que é descrito como a “política da barriga”?

A expressão é utilizada para caracterizar uma lógica em que cada novo ciclo político representa, para determinados grupos ligados ao poder, uma nova oportunidade de acumulação económica e benefício privado, muitas vezes através do acesso privilegiado aos recursos e às oportunidades do Estado.

O poder político e os interesses empresariais

Segundo o Mozambique Insights, a chamada “política da barriga” tornou-se num padrão recorrente ao longo dos diferentes ciclos presidenciais em Moçambique.

Cada nova liderança chega ao poder prometendo mudanças, mas, com o passar do tempo, surgem preocupações relacionadas com redes empresariais, interesses privados e possíveis conflitos entre o exercício de cargos públicos e actividades económicas.

A análise sustenta que, no actual Governo, existem membros que possuem ou mantêm interesses empresariais em sectores ligados às áreas sob sua influência ou responsabilidade política.

Para os autores da análise, esta realidade levanta preocupações sobre potenciais conflitos de interesse, uma vez que responsáveis pela definição de políticas públicas podem, simultaneamente, possuir interesses privados nos sectores abrangidos pelas decisões do Estado.

Casos apontados na análise

Entre os exemplos mencionados pelo Mozambique Insights está o do ministro dos Recursos Minerais e Energia, Estevão Pale, cujos interesses empresariais e familiares estariam ligados a várias empresas do sector mineiro.

A análise levanta preocupações sobre a proximidade entre o poder político e interesses privados em áreas estratégicas da economia, defendendo que esta situação pode abrir espaço para conflitos de interesse e alegado tráfico de influências.

Outro caso referido é o do ministro dos Transportes e Logística, João Matlombe, fundador da empresa CITI Transportes. Segundo o artigo, a existência de uma empresa privada ligada ao sector dos transportes, paralelamente ao exercício de um cargo responsável pelas políticas públicas da mesma área, levanta questões sobre a separação entre interesses empresariais e responsabilidades governativas.

A análise menciona igualmente o ministro da Agricultura, Roberto Mito Albino, apontando para interesses empresariais no sector agrário desenvolvidos antes da sua nomeação para o actual cargo.

O ministro do Interior, Paulo Chachine, também é mencionado na análise devido à sua ligação empresarial a uma companhia ligada à importação e exportação de armas, uma situação que, segundo o Mozambique Insights, merece reflexão devido à natureza das responsabilidades associadas à segurança interna.

O texto aborda ainda os interesses empresariais de outras figuras ligadas ao actual aparelho do Estado, incluindo Nyeleti Mondlane, João Machatine e Ricardo Sengo.

A análise refere também o governador recentemente nomeado do Banco de Moçambique, Felisberto Navalha, apontando para a existência de participações empresariais em empresas de consultoria e agronegócio.

Um padrão que se repete?

Para o Mozambique Insights, este fenómeno não é exclusivo do actual ciclo político.

A publicação recorda igualmente casos associados a anteriores governos, incluindo o do antigo ministro Carlos Mesquita, cujas actividades empresariais e ligações familiares foram, em diferentes momentos, alvo de questionamentos públicos relacionados com contratos e oportunidades ligadas ao Estado.

Segundo a análise, o problema não deve ser encarado apenas como uma questão individual, mas como parte de um sistema que se vai repetindo de ciclo político em ciclo político.

A preocupação central é que o acesso ao poder político possa transformar-se, directa ou indirectamente, numa oportunidade para a expansão de interesses privados.

O desafio da “Nova Era”

É neste contexto que as declarações de Daniel Chapo sobre a necessidade de combater a corrupção são confrontadas com uma questão maior: será possível combater efectivamente a corrupção sem estabelecer uma separação clara entre os interesses privados e o exercício do poder público?

Para o Mozambique Insights, a resposta à corrupção não pode limitar-se a discursos ou à responsabilização de determinados indivíduos. É necessário enfrentar aquilo que a análise considera ser o centro do problema: a eventual captura do Estado por interesses económicos ligados às próprias elites políticas.

A promessa de uma “Nova Era” poderá ganhar maior significado, segundo esta perspectiva, se for acompanhada por medidas concretas destinadas a prevenir conflitos de interesse, aumentar a transparência, reforçar a fiscalização e garantir uma clara separação entre negócios privados e responsabilidades públicas.

Moçambique é um país rico em recursos naturais, mas essa riqueza continua a contrastar com os níveis de pobreza e as dificuldades enfrentadas por grande parte da população.

O grande desafio, portanto, não está apenas em identificar os “frutos podres”, mas em questionar as condições que permitem que práticas de possível favorecimento, conflitos de interesse e acumulação privada associada ao poder público se reproduzam.

Sem um compromisso político claro para romper com este padrão, a chamada “Nova Era” poderá correr o risco de ser apenas mais uma promessa de mudança num sistema que, segundo a análise do Mozambique Insights, continua a repetir a mesma lógica: novas lideranças, novas promessas, mas velhas práticas de utilização do poder como instrumento de benefício privado.

Fonte da análise: Mozambique Insights https://www.mozambiqueinsights.com/2026/09/03/our-turn-to-eat-how-business-interests-keep-capturing-the-state/. Texto reescrito e adaptado para publicação jornalística Moz24h. 

Leave feedback about this

  • Quality
  • Price
  • Service

PROS

+
Add Field

CONS

+
Add Field