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Entre livros, chuteiras e escolas, forças ruandesas ampliam presença social em Cabo Delgado

Enquanto a insurgência continua a representar uma ameaça para comunidades de Cabo Delgado, as Forças de Segurança do Ruanda voltam a assumir um papel que ultrapassa o domínio estritamente militar, desta vez com a oferta de livros escolares e material desportivo à Escola Secundária de Palma.

A iniciativa ocorreu terça-feira, 22 de Setembro, durante uma actividade de limpeza comunitária realizada em Palma, e incluiu livros de diferentes disciplinas dos dois ciclos do ensino secundário, chuteiras, bolas e outros equipamentos destinados à prática desportiva. A informação foi divulgada pela Rádio Comunitária de Palma, do Instituto de Comunicação Social.Os materiais foram entregues à escola e aos alunos, numa acção apresentada pelas forças ruandesas como parte da aproximação entre o contingente e as comunidades onde opera. O representante da Polícia Comunitária das Forças de Segurança do Ruanda, Alex Ndayisenga, disse que a cooperação com a população de Palma deverá continuar em coordenação com as autoridades distritais e as Forças de Defesa e Segurança de Moçambique.

Para os estudantes, a iniciativa representa um reforço às condições disponíveis para estudar e praticar desporto. Os alunos comprometeram-se a conservar os materiais para que possam continuar a ser utilizados por outros estudantes.

Mas a entrega de livros e chuteiras em Palma não surge isoladamente. Desde a chegada das forças ruandesas a Cabo Delgado, em 2021, o contingente tem desenvolvido uma série de actividades de natureza social e comunitária, paralelamente à sua missão de apoio às forças moçambicanas no combate à insurgência.

Em 2023, por exemplo, as forças ruandesas anunciaram a distribuição de material escolar a cerca de mil alunos de quatro escolas de Mocímboa da Praia e Palma. Em 2024, reabilitaram cinco salas da Escola Primária de Nacololo, em Ancuabe, entregaram 100 carteiras e outros materiais escolares a mais de 500 alunos.No mesmo período, as forças ruandesas também reportaram iniciativas de assistência médica, distribuição de sementes e apoio à produção agrícola em comunidades de Palma e Mocímboa da Praia. Em Junho de 2024, a força ruandesa entregou às autoridades moçambicanas a Escola Primária de Ntotwe, em Mocímboa da Praia, depois de a infraestrutura ter sido destruída durante um ataque atribuído a insurgentes. Na ocasião, foram ainda distribuídos cadernos, canetas e redes mosquiteiras.

Em Setembro de 2025, a distribuição de bicicletas a líderes comunitários de Mocímboa da Praia voltou a colocar em debate a dimensão social da presença militar ruandesa. A própria Moz24h questionou, na altura, até que ponto uma força estrangeira mobilizada para combater a insurgência deveria também assumir funções de assistência comunitária.A construção e reabilitação de escolas também provocaram críticas. Em 2024, analistas ouvidos pela Voz da América questionaram se iniciativas dessa natureza poderiam contribuir para normalizar ou prolongar a presença ruandesa no território moçambicano. O político da Renamo André Magibire considerou que as infra-estruturas deveriam ser entregues às autoridades moçambicanas, enquanto o analista Francisco Matsinhe interpretou a construção de uma escola em Namalala como uma possível forma de perpetuar a presença ruandesa.

O investigador João Feijó, por sua vez, reconheceu o carácter positivo da construção de uma escola, mas argumentou que uma obra social não resolve as causas do conflito em Cabo Delgado.

É neste contexto que a mais recente oferta de material escolar e desportivo em Palma ganha dimensão política e social. Para as forças ruandesas, trata-se de uma forma de fortalecer a relação com as comunidades e apoiar as condições de vida da população. Para os seus críticos, porém, a crescente participação em actividades civis levanta questões sobre os limites do papel de uma força militar estrangeira num Estado soberano.

A questão não é necessariamente se livros, escolas, bicicletas ou material desportivo são úteis são bens que podem beneficiar directamente as comunidades. O debate está em saber até onde deve ir o papel social de uma força militar estrangeira e onde começa a responsabilidade permanente do Estado moçambicano.

Entre a missão militar, a segurança das comunidades e a prestação de apoio social, a presença ruandesa em Cabo Delgado vai adquirindo uma dimensão cada vez mais ampla. E, enquanto a insurgência não desaparece completamente, a pergunta permanece: onde termina a cooperação militar e começa uma espécie de administração social paralela das comunidades? (Moz24h)

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