Opiniao

“Maria” – contos da minha infância*

 

José Honório

Apenas alguns familiares mais íntimos conhecem este episódio da minha vida pessoal, que marcou a minha infância, especialmente depois que eu e a minha família chegámos a Benguela, em finais do ano de 1989. Era uma tarde de sol crepusculando, quando eu e a minha família finalmente respirávamos de alívio, ao chegar ao litoral, dias depois de uma longa e arriscada viagem em um velho camião MAC, que nos retirou da Ganda, à boleia de uma extensa coluna com dezenas de outras viaturas apinhadas de gentes, incluindo das províncias do Huambo e do Bié, o então epicentro do conflito armado angolano, sob escolta militar das FAPLA (Forças Armadas Populares de Libertação de Angola).

Foi assim que, temendo pela vida dado o perigo iminente do ribombar de canhões, várias famílias desesperadas com os horrores da guerra abandonaram suas casas e sonhos no interior do país em busca de refúgio no litoral. Na minha terra natal, a Ganda, paz e a segurança diluíram-se como um edifício a ruir, perante o acirrar de ânimos entre as forças governamentais e as da UNITA, o que veio a mergulhar o nosso país numa guerra civil devastadora que só terminou em 2002.

Chamam-lhe Setenta. É um dos bairros da década de 1970, nascido do então Plano de Urbanização da cidade de Benguela, aprovado no ano de 1948, para acabar com as velhas construções de adobe na urbe. Curiosamente, foi neste bairro emblemático, localizado a Este da cidade das Acácias Rubras, depois da antiga Cerâmica Preferível, onde a minha família encontrou um porto de abrigo.

Mas no bairro Setenta, o que falta em pavimentação asfáltica, saneamento básico, água e energia eléctrica tem de sobra em sorrisos de crianças. Por isso, nem tudo foram espinhos nessa zona de Benguela. Na realidade, no início da década de 90, o mestre chamado tempo tinha desvendado duas coisas de que não me esqueço jamais. Primeiro, a irresistível paixão que eu nutria por Maria. Pois, eu a amava perdidamente. Depois, o brioso talento de meus bravos irmãos Dinho e Adelino.

Enquanto a Rosita e o Ivo Katanga (meu irmão de feliz memória), brincavam com areia no chão de terra batida no quintal daquela casa de tijolo, sem reboque, onde vivíamos, eu era o kandengue mimoso e, por vezes, brincalhão da família. Desde que desembarcamos em Benguela, deixando para trás aquela terra de paisagens deslumbrantes que me viu nascer, numa sexta-feira de graça, do dia 20 de Junho de 1986, foi amor à primeira vista. Minha boca rendeu-se completamente à doçura de Maria.

Uma coisa eu posso-lhe garantir. Ainda hoje sinto em minha boca o sabor de Maria. Como era doce, agradável e cheirosa aquela inesquecível bolacha de farinha de trigo, que eu saboreava, uma a uma, no tempo em que corria descalço pelo bairro que serviu de abrigo para minha família. Tanto assim que se meu pai não comprasse um pacote de bolacha Maria, estava instalada em casa uma grande confusão e gritaria que podia demorar horas.

•⁠ ⁠Zevito [meu nome de infância], é muito mimoso! Pensa que a vida é só comer bolacha Maria – reclamavam em surdina meus irmãos.

•⁠ ⁠Deixem em paz o meu rapaz Kazeve [era assim que pai me tratava.]. Filho, toma lá dinheiro e vão buscar a Maria – dizia meu pai, enquanto sorria.

Quando não havia dinheiro para satisfazer as minhas delícias, era maka grande. Eu desatava a chorar entre gritos até minha voz chegar à casa de meu xará José Valentim Felisberto, irmão mais velho de meu pai, que vivia ao lado da nossa rua. Aquele, por sua vez, não resistia ao meu clamor e mandava imediatamente um de seus filhos chamar o mimoso que era eu.

•⁠ ⁠Quem bateu no meu xará!? – perguntava meu xará, assim que me visse com os olhos inundados de lágrimas.

•⁠ ⁠Oh! Pai, teu xará mimoso assim já quer comer bolacha Maria- referiam os filhos de meu xará. Estes são, também, meus irmãos em grau, género e número.

Posto ao corrente da situação, meu xará abria os cordões à bolsa e ordenava ao Honório – xará de meu pai – e ao Tote que me acompanhassem à loja ou à praça do Sindikile comprar o pacote mais famoso da minha infância. Eis porque meus irmãos me tratavam de rei Kazeve. Tudo porque, e apesar de que eu era o mais novo do grupo, tinha a mania de mandar todos ficarem em fila um atrás do outro, enquanto ia distribuindo uma bolacha ou metade a cada um. O que os deixava irritados, pois eu ficava com a maioria, sem respeitar os princípios da distribuição equitativa.

Certo dia, cansados das minhas artimanhas, meus irmãos e os filhos de meu xará, mais um primo nosso, cujo nariz achatado era alvo de bullying e sobre o qual falarei mais tarde, engendraram um plano para tentar enganar-me. Foi então que compraram dois pacotes de bolacha. Imagine: água e sal. Eles queriam que todos comessem equitativamente. Acreditavam piamente que as minhas papilas gustativas não detectariam o paladar diferente. Destarte. Mal provei, descobri a conspiração. Afinal, não era a doce Maria de que eu tanto gostava!

Para surpresa de todos, eu fingia não ter descoberto o plano e, ainda por cima, comia sozinho tranquilamente na cara deles. Até que, revoltados, ameaçaram denunciar-me ao meu alto patrocinador: o meu xará.

•⁠ ⁠Guloso! Vamos queixar-te ao pai Valentim que estás a comer sozinho! – avisaram furiosos.

A atitude deles levou-me a que mudasse de estratégia. Temendo ser denunciado e perder o alto patrocínio de meu xará para as missões “CSBMDTD” (Comer Sozinha Bolacha Maria Doce Todos os Dias), então, mandei-lhes naquele exacto momento ficar em fila de espera e, de seguida, fui dando a cada um deles apenas um biscoito. Mas à medida que nos aproximávamos de casa, a expressão de alegria em meu rosto mudava. E, depois de ter abocanhado a última bolacha do pacote, repentinamente, por entre choros, gritava para chamar a atenção.

•⁠ ⁠Quero a minha bolacha agora! Esta não é Maria – reivindicava, já parado à porta de casa.

-Aiué, aiué! Me enganaram, xará! – denunciava eu já junto do portão da casa de meu xará.

Uma vez mais, meu super-xará abriria novamente os cordões à bolsa a ponto de me dar dinheiro e assim voltei a sentir em minha boca as delícias de Maria.

Em outro dia, meti meus pés por uma rua além. Nela havia uma bancada formidável com deliciosas bolas de Berlim. Irresistivelmente, aproximei-me, tirei uma, ratei e voltei a colocar-lha no tabuleiro. Arre! Minha vizinha xinguilou e foi até minha casa cobrar o insulto. Outra vez senti o peso da disciplina de minha mãe.

-Vizinha! Vizinha! Vem só pagar o que teu filho comeu – dizia aquela infeliz.

•⁠ ⁠O que é que aconteceu? Não grites mais! – replicou minha mãe, enquanto voltava para dentro de casa em busca de uns trocos.

Se arrependimento matasse, eu já era. A manifestação livre da vizinha contra a minha ousadia fez com que eu sentisse a mão disciplinadora de minha mãe. Entrei na linha e nunca mais agi daquela maneira. “Porque o Senhor repreende aquele a quem ama, assim como o pai ao filho a quem quer bem” (Provérbios 3:12).

O Adelino, tal como o Tote, era o miúdo irrequieto e apaixonado pelo futebol em campos de terra batida. Por vezes, fugia aos deveres de casa só para jogar à bola de trapos sob o sol abrasador, ainda que isso lhe viesse a custar um puxão de orelhas. É por este atributo que ele se distingue na minha infância. Dizem que era kachinheiro. Não passava a bola aos seus companheiros de equipa, na ânsia de assinar os golos sozinho.

E o mano Dinho, o meu irmão mais velho, tinha um talento sem parêntesis. Passava o dia a transformar velhas latas, tampas plásticas e chinelos rebentados, geralmente apanhados no lixo, em carros de cores e tamanhos variados. Era a moda predominante na minha infância, sobretudo para crianças, como eu, cujos pais não tinham dinheiro para comprar brinquedos da China nas lojas do centro da cidade de Benguela. Desta forma, meu irmão, fazendo jus ao seu espírito de empreendedor nato, não só se divertia, enquanto fazia os concorridos brinquedos de lata, como também trabalhava por conta própria e, assim, lá ia faturando alguns trocos porque as encomendas cresciam a cada dia.

•⁠ ⁠Amanhã, vamos fazer uma coluna de carros de lata até ao Aeroporto 17 de Setembro – avisava Dinho.

No dia seguinte, eu, meus irmãos e outros miúdos, puxando carros de lata com rodas de chinelos reciclados, partíamos calmamente e ordeiramente do bairro Setenta até ao parque de estacionamento do Aeroporto 17 de Setembro, a coqueluche da aviação civil na Benguela de outros tempos, mas hoje em estado de total abandono e descaso das autoridades.

Mas foi a ver o sobe-desce de aviões que aterravam ou levantavam voo na modesta pista daquele antigo aeródromo que me fascinara a ideia de ser piloto. Às vezes, voltávamos a casa com as mãos vermelhas e doloridas por causa do pico das barbatórias que recolhíamos, na tentativa de saborear um fruto muito adocicado, de cor lilás berrante.

Todas as vezes que não havia bolacha Maria nem jogos de futebol, onde meu irmão Adelino, com seus dribles mágicos, exibia intimidade com a bola de saco, que não saia de seus pés, o primo do nariz de batata preenchia o tempo livre da rapaziada.

•⁠ ⁠Aiué! Nariz do jantar! Kachiñguileñguile! Aiué! Nariz do jantar! Kachiñguileñguile – gritavam em uníssono as crianças em debandada, deixando o rezingono do primo com os nervos à flor da pele e com uma das mãos procurando uma pedra no chão para dispersar a incómoda maralha.

Graças aos infinitos esforços de meu pai e de minha mãe, pouco depois, deixámos o bairro Setenta rumo à cidade de Benguela. Longe da poeira, dos mosquitos, da energia eléctrica e água escassas que testavam a nossa religiosa paciência.

“Porque Deus é o que opera em vós, tanto o querer como o efectuar, segundo a sua boa vontade” (Filipenses 2:13).

*Crónica incluída no livro autobiográfico “Entre As Sombras da Guerra – Memórias de Um Refugiado”, da autoria do jornalista angolano José Honório

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