Por Tiago J.B. Paqueliua
Às Nações do Mundo,
Às Instituições Internacionais de Direitos Humanos,
Aos Governos que ainda se orientam por princípios éticos,
Às Instituições religiosas e aos filósofos,
Às Nações Unidas e ao Tribunal Penal Internacional,
À Consciência Universal:
Senhoras e Senhores,
A fé em Deus e o nosso compromisso com os princípios da ética, da solidariedade e da cidadania ativa impõem-nos a responsabilidade de vos escrever, a partir de uma terra onde o sangue se derrama em silêncio; onde corpos jazem sem órgãos, olhos, cabeças; onde a dignidade humana é dissecada com a precisão fria de bisturis cúmplices e com a negligência calculada de instituições que, ao menos no papel, foram criadas para proteger a vida.
O que se passa em Moçambique não é ficção pós-apocalíptica, nem alegoria dantesca saída das profundezas de um romance gótico africano. É real. É presente. E, acima de tudo, é ignorado.
No distrito da Manhiça, como relatado pelo jornal Evidências em 19 de Junho de 2025, uma menina de 13 anos foi assassinada e mutilada por uma rede de tráfico de órgãos. O assassino? Seu próprio tio. O preço? 250 mil meticais — pouco mais de três mil euros — como quem vende gado num mercado rural. O caso não é isolado: é parte de uma cadeia de horrores que se arrasta há anos, e que se intensificou — com grotesca ironia — durante as últimas manifestações pós-eleitorais.
Sim, em pleno século XXI, em plena era dos direitos humanos, há corpos encontrados em morgues e cemitérios com órgãos extraídos, cabeças decepadas, membros ausentes. Sim, cidadãos que ousaram manifestar-se contra o Estado desapareceram — e reapareceram… incompletos. Sim, camionetas transportando cadáveres mutilados foram interceptadas por populares, antes que os seus “conteúdos” fossem convenientemente eliminados. Tudo isto sob o olhar cúmplice da inércia e o ouvido surdo das autoridades.
Os nomes das vítimas gritam do abismo onde foram enterradas: Filomena Mboane, Ámina Mussagy, Tatiana Liasse — mulheres jovens, cujos corpos, marcados por mutilações cirúrgicas, sugerem um propósito macabro e sistemático: o tráfico de órgãos humanos. Rins, fígados, genitais, olhos… Porque, nesta nova economia necropolítica, a carne é recurso e a morte é mercado.
O tráfico internacional de órgãos, estimado em mais de mil milhões de dólares anuais, encontrou em Moçambique um paraíso logístico: um Estado débil, fronteiras permeáveis, um sistema judicial opaco, e uma polícia mais ativa em silenciar vítimas do que em proteger cidadãos.
Enquanto os corpos desaparecem, a verdade dissolve-se nos corredores sem luz das esquadras, nas promessas jamais cumpridas de investigações, nos caixões que não se abrem.
Não seria ilegítimo perguntarmos:
1. Onde estão os líderes religiosos?
2. Onde está a sociedade civil?
3. Onde estão os peritos forenses?
4. Onde estão os procuradores?
5. Onde estão os juristas?
6. Onde estão os partidos políticos?
7. Onde estão os diplomatas?
8. Onde está a ONU quando corpos infantis são destroçados?
9. Onde está a União Africana quando as suas filhas são vendidas como peças sobressalentes?
Na República de Moçambique, reina a teologia da impunidade.
A ética institucional foi substituída por uma lógica de mercado que valoriza rins mais do que vidas. A moral? Essa foi extirpada — talvez exportada, quem sabe, numa mala térmica para Joanesburgo ou para um centro cirúrgico clandestino em Durban, em troca de uma comissão.
Este é um apelo. Mas é, sobretudo, uma acusação. A omissão diante do horror é uma escolha. E quem se cala perante a barbárie, pactua com ela.
Seria ridículo não exigirmos:
1. Uma investigação internacional independente, liderada por peritos das Nações Unidas, com envolvimento do Tribunal Penal Internacional;
2. Sanções individuais a agentes do Estado envolvidos em repressão, sequestros, desaparecimentos forçados, execuções e tráfico de órgãos;
3. A criação de um mecanismo internacional de proteção a testemunhas e familiares das vítimas;
4. A publicação regular e transparente de dados forenses sobre homicídios e desaparecimentos.
Se o mundo ainda tem alguma centelha de decência, que se manifeste agora. Porque amanhã, quando os corpos forem ainda mais numerosos e os nomes das vítimas já não couberem em cartas, os culpados não serão apenas os que empunham bisturis — mas todos os que se quedaram em silêncio.
Pelo sangue derramado, pela memória dos mutilados, por um futuro onde o corpo humano volte a ser inviolável, clamamos por justiça.
Com dor, indignação e esperança – a última a morrer.
