Todas as coisas importantes já foram ditas, mas como ninguém as escuta, é necessário repeti-las.
• André Gide
Texto de Josué Bila
Publicado na Carta da Semana, 26 de Abril de 2025. Edição No 33. Ano 1, Maputo.
Esta semana recebemos notícias sobre a morte de duas figuras, cuja importância nas suas áreas de atuação são, provavelmente, inquestionáveis. A primeira pessoa, cuja perda de vida ocorreu no dia 21 de Abril, é o Papa Francisco, da Igreja Católica. No dia seguinte, tivemos outra ocorrência similar do filósofo congolês Valentin-Yves Mudimbe. As notícias da morte do argentino e, igualmente, chefe da Igreja Católica, como era de se esperar, correram rapidamente pelo Mundo. As notícias em tudo quando é canal informativo esbanjaram a apresentação, incluindo nas recentes redes sociais. Em África, principalmente, na República Democrática do Congo, onde, de acordo com as informações da Rádio Aliança, a Igreja Católica congrega cerca de 55 milhões de fiéis, o Papa Francisco recebeu volumosas e instigantes homenagens. Entretanto, não somente foi em Congo, onde as velas foram acesas em homenagem ao Pontífice, mas por toda África. Por que a morte do Papa Francisco é excessivamente lamentada e a morte do “Papa” da filosofia africana, Valentin-Yves Mudimbe, é muito menos chorada, no contexto africano? A Igreja Católica e o Papa Francisco valem mais do que os ensinamentos e as reflexões que o filósofo Valentin-Yves Mudimbe escreveu e debateu, no contexto africano?
Embora eu reconheça e respeite a admiração que muitos pretos e todos os ex-colonizados e escravizados têm pelo Papa Francisco, há algo que me deixa boquiaberto: a nossa capacidade de tecer elogios e bajulações a figuras que representam uma instituição eclesiástica milenar, cujas doutrinas e práticas deslocaram a glória dos originários da Humanidade (os pretos) para a ignomínia internacional da desumanidade. Um dos exemplos desse opróbrio histórico-existencial, no qual os pretos foram colocados, é o imaginário humano-hierárquico em que os brancos e tudo quanto lhes “pertence” é civilizado e sofisticado, e o que pertence aos pretos (e outros povos outrora colonizados), por exemplo, é sub-humano, primitivo e bárbaro. O racismo de que até os dias atuais é, ferozmente, praticado decorre também das doutrinas católicas de sub-humanizar os pretos, colocando-os como escravos (e escravizáveis) e colonizados (colonizáveis), em conluio com os escravocratas e traficantes de pessoas daquela época. A história dos últimos cinco séculos está recheada dessas informações, dando conta de que a Igreja Católica participou ativamente nessa violência e opressão, e todos nós sabemos disso. Estou a lembrar-vos, porque, como já sentenciou o escritor André Gide: “Todas as coisas importantes já foram ditas, mas como ninguém as escuta, é necessário repeti-las.”
Repeti-las, por qual razão: Em muitos momentos, temos dificuldade de associar aquele agente da Polícia estadunidense branco, Derek Chauvin, o qual pressionou, através do seu joelho, o pescoço do afro-americano Jorge Floyd, a uma máquina religiosa e política católica de desumanizar os pretos, construída há séculos. É um jeito de vos lembrar que os piores problemas de que sofrem os nossos familiares pretos, tetranetos de escravizados na diáspora, é fruto também das doutrinas e políticas dessa Igreja, e por mais que esta congregação religiosa tente limpar a sua imagem a sua guilhotina de maldição contra os pretos, parece-me, por ora, incorrigível. A desumanidade a que os pretos foram vítimas não é apagável com beijos, orfanatos, escolas e hospitais católicos existentes em África. A dívida católica é gigantesca e incomensurável. Parte dos problemas que enfermam este continente a Igreja católica – e os Estados com os quais trabalhava em conluio contra os pretos – deve ser responsabilizada. Aliás, em muitos países pelo Mundo tudo quanto é desgraçado tem uma cor de pele como a maior vítima. Por exemplo, mesmo em Moçambique, o número de brancos moçambicanos, no território nacional, é desproporcional no sofrimento social a que muitos pretos estão votados, até ao ponto de, mesmo nas cadeias, a cara dos criminosos e condenados sejam os “antigos bárbaros” e não os “sempre civilizados”. Isto pode indicar que mesmo a criminalização social e legal-institucional suspeita, captura, busca, criminaliza e condena os pretos. A máquina de administração portuguesa tinha uma aliada a qual diabolizava os pretos, nas suas doutrinas e práticas, até ao ponto de toda a história africano-israelita ter sido roubada para ser apresentada como europeia. Como é possível que os israelitas tenham saído dos territórios cananitas para regressarem na década de ’40 do século passado como brancos? Esta é uma pergunta que um dos antigos presidentes egípcios, Gamal Abdel Nasser, fez em alusão ao fato de que aquele território era de habitantes pretos, originalmente. Aliás, Arão Litsuri, W.E.B. DU Bois e muitos outros apontam que os territórios conhecidos como Médio Oriente eram espaços ocupados por pretos, e que África cushita não cobria apenas o espaço atualmente conhecido, mas atingia limites da antiga babilónia e do mediterrâneo. Os atuais chamados judeus devem dizer-nos de onde são originários, porque parte das arqueologias, histórias, geografias e genéticas não os reconhece.
O facto de o Deus judaico-cristão ter sido transformado em um “branco”, em todos os imaginários possíveis, responde a uma política de brutalizar e desumanizar os pretos, para que esqueçam de todas as suas glórias e prestem tributos a tudo quanto pareça com o “deus” fabricado, de aparência europeia. A fama que os Papas têm, desaloja o espaço de relevo que os filósofos e pensadores pretos poderiam ocupar em todo Mundo. Esta semana, o filósofo Mudimbe foi, literalmente, vítima desse ódio e desprezo que os pretos têm contra os seus pares, em decorrência de exaltação dos esforços coloniais e empreendimentos missionários.
As falsidades doutrinárias da Igreja Católica são tão milenares quanto incrustadas até ao ponto de CRISTO ser representado como branco tanto nas congregações cristãs quanto nas memórias colectivas dos povos – é culpa da Igreja, e o Papa Francisco representava toda essa depravação eclesiástica e embranquecimento da história. Em todo Mundo, a Igreja Católica tem bens e terra/terrenos/talhões coloniais, por causa do uso da razão cristã e força coloniais para desumanização dos povos e expropriação de territórios. Há nisso tudo algo de alcance racial, cuja história está conectada à escravatura e colonização. E homenagear e celebrar figuras que representam a nossa inglória africana pode ser sinal de que ainda não sabemos o que vale a pena. Estamos em delírio existencial, em África. Papa Francisco e o que representa não vale para os africanos quanto se pensa e se crê. Mudimbe e muitos outros pensadores, sim.
Ademais, a morte de um dos “Papas filósofos africanos”, como é o caso de Valentin-Yves Mudimbe, poderia ocupar-nos um pouco pelos jornais, TVs, Rádios e redes sociais, para debatermos o seu legado e o que pela frente faríamos com as suas hipóteses, reflexões e conclusões. Porém, em decorrência da “socialização virada para fora de África”, preferimos exaltar os feitos do Papa do Vaticano. Aqui, em Moçambique, até ontem, li, pelo Professor Elísio Macamo, uma bela homenagem ao filósofo Mudimbe. Porém, os desavisados esgotavam as suas forças em prol do Papa Francisco em detrimento do filósofo Mudimbe.
Em decorrência da minha relação com a Teologia (europeia) e africanidades (como estudos, teorias, conceitos e reflexões sobre África), posso ignorar a Teologia europeia, para agarrar-me a auto-exames e valorização da história e filosofia africanas, cujas obras de Valentin-Yves Mudimbe e muitos outros, como, por exemplo, Nicolas Anakwe (The African Origins of Greek Philosophy: Ancient Egypt in Retrospect.), Molefi Asante, (The Afrocentric Idea), José Castiano (Referenciais da Filosofia africana: em busca da intersubjectivação; Filosofia africana: da sagacidade a intersubjectivação), Cheikh Anta Diop (African origin of civilization. Myth or Reality; Precolonial black Africa – A comparative study of the political and social systems of Europe and black Africa, from antiquity to formation of Modern States; Origem dos antigos egípcios), W.E.B. DU Bois (Africa, Its Geography, People and Products and Africa-Its Place inModern History), George James (Stolen Legacy: Greek Philosophy is Stolen Egyptian Philosophy), Severino Ngoenha (Filosofia Africana: das independências as liberdades), Theron William (The Bible is Black History), Rudolf Windsor (From Babylon to Timbuktu. The history of the ancient black races including the black Hebrews), detalham rios de reflexão, sem esquecer de historiadores, a exemplo de Joseph Ki-Zerbo e muitos outros – esses todos são os meus “papas” e a partir deles posso e podemos construir uma África que queremos. Cada continente ou povos têm os seus “papas”, e esses pensadores africanos têm muito a contribuir na reflexão local e regional. Para mim, saber o que realmente vale para nós, como africanos, é homenagear, ler e praticar o que esses “papas” africanos nos legaram.
