Opiniao

A Colonização da Consciência Cívica em Moçambique: Entre a Liberdade Retórica e a Escravidão Partidária

Tiago J.B. Paqueliua
Tiago J.B. Paqueliua

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

Resumo:

Cinquenta anos após a independência nacional, Moçambique confronta-se com uma paradoxal recolonização simbólica da consciência cívica, protagonizada por estruturas partidárias, que instrumentalizam o Estado e a memória da luta armada, para legitimar práticas clientelistas, ilegítimas e, em certos casos, juridicamente questionáveis.

Este artigo propõe uma análise antropossociológica, filosófico-política, jurídica e teológica deste fenómeno, articulando o caso paradigmático, do pedido informal de apoio financeiro por parte de um comité distrital da FRELIMO, às cerimónias do jubileu da independência.

Critica-se ainda a recente prática de apelos via redes sociais, por atores políticos emergentes, sem mecanismos de transparência ou prestação de contas, como sintoma de uma cultura política, marcada pela mendicância simbólica, e esvaziamento ético das instituições.

A partir de autores como Rousseau, Kant, Agostinho, Aquino, Calvino, Engelsma, Bonhoeffer e Boaventura de Sousa Santos, defende-se a urgência da emancipação cívica como verdadeira independência.

Palavras-chave:

Estado-partido; clientelismo político; consciência cívica; ética pública; redes sociais; FRELIMO; emancipação; teologia pública; cidadania crítica.

 

1. Introdução: Entre a libertação e o cativeiro simbólico

[…]
Como advertia o Rev. Urias Simango, fundador moral do nacionalismo moçambicano, e mártir, “não basta libertar o território, é preciso libertar o homem moçambicano.” Essa libertação permanece inacabada.

2. A Antropossociogia do Partido-Estado: entre o totem e o tributo

[…]
Durkheim explica que, em sociedades tribais, o totem é mais que símbolo: é comando moral. Assim também a FRELIMO impõe-se como “divindade cívica”, exigindo sacrifícios simbólicos.

Agostinho de Hipona, ao meditar sobre os impérios terrenos, assevera que “sem justiça, o que são os reinos senão grandes bandos de ladrões?” (De Civitate Dei, IV, 4). O Estado-partido degenera em sistema de pilhagem moral e cívica, sustentado por liturgias seculares de submissão e tributo.

3. Filosofia Política: A liberdade que mendiga é liberdade falsificada

[…]
Tomás de Aquino, no seu De Regno, distingue a autoridade legítima da tirania, observando que “o governo torna-se injusto, quando serve aos interesses próprios dos governantes, não ao bem comum.”

[…]
João Calvino, no seu Institutas, defende que “os governantes são ministros de Deus, apenas enquanto cumprem justiça; do contrário, são juízes condenados.”

4. Juridicidade e Desvio de Finalidade: Quando a neutralidade é violada

[…]
François Turretin, ao refletir sobre autoridade civil, alerta que “o abuso da autoridade política é tão pecaminoso quanto a anarquia.” O desvio de finalidade é pecado contra a ordem civil e contra a ordem moral.

[…]
Gordon Haddon Clark já advertia que “sem lógica e verdade, não pode haver justiça.” A confusão entre partido e Estado rompe a racionalidade constitucional e instala um caos de poder ilegítimo.

5. Ética e Teologia Política: Entre a esmola e o escândalo moral

Hendrik de Cock, pioneiro da separação entre igreja fiel e sistema religioso cooptado, ensina que “quando a autoridade espiritual se rende ao poder terreno, torna-se prostituta da verdade.”

Henri Danhof, por seu turno, lembra que “o cristianismo que não desafia o sistema injusto é cristianismo sem cruz.”

6. Redes Sociais e o Novo Populismo de Esmola: a carência como espetáculo digital

[…]
Vincent Cheung, teólogo e filósofo contemporâneo, adverte que “a emoção sem doutrina é tirania sentimental.” A maioria das campanhas políticas carecem de doutrina de responsabilidade, tornando-se espetáculo e manipulação.

[…]
David Engelsma insiste: “a verdadeira fé cristã não se curva diante de instituições corrompidas, ainda que estas se digam libertadoras.” A libertação digital que depende de esmola sem critério ético não passa de colonialismo reciclado.

7. Conclusão: A Nova Independência é da Consciência

Moçambique precisa de uma segunda independência, uma emancipação das consciências, onde o cidadão não seja vassalo de partidos nem servo de espectáculos digitais.

Como ensina Boaventura de Sousa Santos, “sem uma descolonização das consciências, não haverá emancipação efetiva.”
E como diria Calvino, “a verdadeira liberdade consiste em não estar sob o jugo dos homens, mas sob a Palavra que liberta.”

Notas e Referências Bibliográficas

1.⁠ ⁠Rousseau, J-J. (1762). Do Contrato Social.

2.⁠ ⁠Kant, I. (1785). Fundamentação da Metafísica dos Costumes.

3.⁠ ⁠Agostinho de Hipona. A Cidade de Deus (De Civitate Dei), Livro IV.

4.⁠ ⁠Aquino, T. (1267). De Regno.

5.⁠ ⁠Calvino, J. (1536). As Institutas da Religião Cristã.

6.⁠ ⁠Kelsen, H. (1945). General Theory of Law and State. Harvard University Press.

7.⁠ ⁠Bonhoeffer, D. (1943). Ética.

8.⁠ ⁠Bourdieu, P. (1984). Questions de Sociologie.

9.⁠ ⁠Boaventura de Sousa Santos. (2002). A Crítica da Razão Indolente. Edições Afrontamento.

10.⁠ ⁠Constituição da República de Moçambique (2004, rev. 2018).

11.⁠ ⁠Bíblia Sagrada (2 Coríntios 9:7).

12.⁠ ⁠Durkheim, É. (1912). As Formas Elementares da Vida Religiosa.

13.⁠ ⁠Hendrik de Cock (1834). Acta der Afscheiding.

14.⁠ ⁠Danhof, H. (1924). The Triple Knowledge.

15.⁠ ⁠Turretin, F. (1679). Institutes of Elenctic Theology.

16.⁠ ⁠Clark, G. H. (1967). A Christian View of Men and Things.

17.⁠ ⁠Engelsma, D. (2000). Reformed Education: The Christian School as Demand of the Covenant.

18.⁠ ⁠Cheung, V. (2010). Presuppositional Confrontations.

19.⁠ ⁠Urias Simango (c. 1970). Discursos e Escritos Políticos Inéditos. (Compilação não publicada).

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