Oil & Gás Opiniao

Colonialismo Francês Extrativista em Moçambique: O caso da TotalEnergies em Cabo Delgado

Populações segregadas do ecossistema económico-extrativista

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

 

 

Introdução

A paisagem política, económica e securitária de Cabo Delgado volta a incendiar-se no exacto momento em que a TotalEnergies, envolta em polémicas judiciais em França por práticas de greenwashing e alegado comportamento comercial caloteiro, ensaia a sua reentrada no megaprojecto de gás natural liquefeito em Afungi. A simultânea condenação da empresa nos tribunais franceses e a sua renovada ambição em Moçambique compõem o cenário perfeito para reavaliar o que muitos classificam como um novo ciclo de colonialismo extrativista francês no contexto africano — mascarado por narrativas de sustentabilidade, diplomacia humanitária e cooperação militar.

No epicentro deste enredo geopolítico estão comunidades moçambicanas segregadas e silenciadas, o Estado moçambicano numa encruzilhada de dependências, e uma empresa multinacional que conhece demasiado bem os mecanismos de sobrevivência em ambientes frágeis: alianças militares estratégicas, produção de narrativas e gestão calculada de expectativas governamentais.

1.⁠ ⁠Entre Paris e Afungi: a hipocrisia verde de uma potência fóssil

Enquanto a França procura limpar a sua imagem global com tintas ecológicas, os tribunais franceses sentenciam a TotalEnergies por práticas que distorcem a sua responsabilidade ambiental e iludem consumidores. Nos espaços francófonos do Sahel e nas ilhas do Índico, nomeadamente Madagáscar, a França e a sua gigante energética são vistas como entidades predatórias, agentes de um colonialismo energético que continua a redefinir, à sua maneira, soberanias fragilizadas.

Em Moçambique, o episódio recente em que a TotalEnergies divulgou indevidamente o levantamento da cláusula de força maior — um acto que deveria ser prerrogativa do Estado moçambicano — expôs, uma vez mais, a assimetria de poder. Ainda assim, o Presidente Daniel Francisco Chapo apressou-se não apenas a lamentar o gesto unilateral da empresa, como também a validar a possibilidade de negociar uma prorrogação de 10 anos para o megaprojecto, à luz dos alegados prejuízos de 4.500 milhões de dólares.

A pergunta inevitável impõe-se: em que momento deixou Moçambique de ser um Estado soberano para se tornar uma peça estratégica nos equilíbrios financeiros da TotalEnergies?

2.⁠ ⁠Reabrir Afungi: ressuscitar medos, consolidar dependências

O anúncio da reabertura do projecto reacendeu tensões e suspeitas numa região ainda traumatizada por um conflito caracterizado tanto pela violência insurgente como por denúncias de abusos imputados às Forças de Defesa e Segurança (FDS). Paradoxalmente, enquanto UE, França e EUA proclamam apoio ao combate ao terrorismo, é a tropa ruandesa — discretamente apetrechada por aliados europeus — que se firma como guardiã de facto dos interesses corporativos, muito acima da segurança das populações.

As FDS moçambicanas, sofrendo com subfinanciamento crónico, encontram-se praticamente marginalizadas no desenho securitário do território. Enquanto isso, Bruxelas publica comunicados de ajuda humanitária, incluindo os escassos 800 mil euros anunciados para apoio às vítimas do terrorismo — valor que, comparado com os interesses económicos em jogo, soa a esmola diplomática.

Ao mesmo tempo, insurgentes deslocam-se impunemente por Macomia, Mocímboa da Praia e Palma, enquanto forças militares estatais e aliadas assumem uma postura enigmática: evitam confrontos, alegadamente para prevenir baixas civis. Porém, para as comunidades deslocadas e ainda traumatizadas, esta narrativa começa a soar a cortina de fumo para prioridades invisíveis.

3.⁠ ⁠O tabuleiro geoestratégico: Ruanda como extensão da França?

A circulação crescente de narrativas sobre ambições francesas de estabelecer uma base militar em Moçambique alimenta desconfianças históricas e ressentimentos que remontam ao período colonial europeu. Com o declínio da sua influência no Sahel e recentes perdas de prestígio em Madagáscar, críticos panafricanistas defendem que Paris tenta agora assegurar um novo corredor de hegemonia através de Moçambique.

Ruanda, cuja presença militar em Cabo Delgado ultrapassa em eficiência e logística a das próprias FDS, surge como um satélite instrumental numa estratégia mais ampla — uma espécie de outsourcing neocolonial. Nesta equação, o Estado moçambicano hesita entre a necessidade pragmática de apoio militar externo e o risco de ceder demasiado espaço a actores que operam com agendas próprias.

4.⁠ ⁠Moza24h, imprensa crítica e a tentativa de sedução diplomática

É neste ambiente tenso que surge um episódio digno de um estudo sobre comunicação estratégica e tentativas subtis de cooptação mediática: a Embaixada de França em Maputo convoca o jornal investigativo Moza24h para uma visita ao navio patrulheiro francês POM Auguste Techer, ancorado em Nacala. A mensagem, simpática e quase paternal, convida um dos mais incisivos críticos da actuação francesa em Cabo Delgado a conhecer as maravilhas da “cooperação marítima bilateral”.

Ora, se a cooperação é bilateral, por que este súbito entusiasmo em cortejar um jornal cujas análises têm desnudado as contradições da França e da TotalEnergies? Estará Paris a apostar num exercício de charme para suavizar críticas? Ou será apenas a tradicional táctica diplomática de diluir tensões através da proximidade simbólica?

Independentemente da intenção, o episódio expõe a fragilidade da narrativa francesa: quem procura a todo custo convencer já começa, involuntariamente, a admitir que não convenceu.

Epílogo: Entre colónias, colossos e colagens retóricas

Ao observar o cenário, só resta imaginar um teatro tragicómico em que Moçambique ocupa o palco, a TotalEnergies segura o guião, Ruanda controla as luzes e a França vende bilhetes na porta — tudo isto enquanto proclama, do meio da plateia, que o espectáculo é “cooperativo” e “sustentável”.

As populações de Cabo Delgado, essas, permanecem atrás da cortina, invisíveis, ouvindo apenas o eco distante das promessas que nunca chegam à sua aldeia. E cada vez que um comunicado diplomático fala de “parcerias estratégicas” ou “resiliência comunitária”, a ironia cresce — tão verde quanto o greenwashing que a aguenta.

No fim, talvez seja mesmo como dizem alguns: a França perdeu o Sahel, perdeu Madagáscar… e agora, com notável desespero, tenta colar Moçambique ao seu álbum de ex-hegemonias.

E Moçambique? Entre sorrisos oficiais, tropas estrangeiras e megaprojectos de milhões, permanece suspenso no fio ténue que separa cooperação de dominação. Mas não digamos isso muito alto — não vá algum navio patrulheiro aparecer com um convite simpático para “debater ideias”.

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