Politica Sociedade

FRELIMO E RENAMO COMPARTILHAM OS MESMOS ESTRATEGEMAS ANACRÓNICOS

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

INTRODUÇÃO

A política moçambicana parece girar num eixo vicioso, onde os actores mudam de camisa, mas os métodos, os vícios e as taras permanecem espantosamente idênticos.

De um lado, a FRELIMO — partido no poder desde a independência — mantém-se agarrada a práticas autoritárias, clientelistas e de controlo absoluto sobre os seus membros.

Do outro, a RENAMO, suposta guardiã da oposição, reproduz com pasmosa fidelidade os mesmos mecanismos que condena publicamente.

Este ensaio pretende lançar luz sobre a inquietante convergência de comportamentos entre estes dois protagonistas centrais da cena política nacional, numa tentativa de despertar consciências e provocar uma necessária reconfiguração ética e estratégica da oposição.

I. UM ESTADO-PARTIDO E SUA ESCOLA DE CONTROLO

É público e notório que a FRELIMO exige disciplina cega aos seus membros. Disciplina é traduzida, entre outros, pela proibição de se relacionarem com a imprensa sem autorização superior. Qualquer voz dissonante é reprimida, intimidada ou marginalizada. Os episódios são vários, os nomes são conhecidos e os métodos são inconfundivelmente próprios de regimes que confundem Estado com partido e autoridade com dominação.

Mas o que dizer quando estas práticas são mimetizadas pela oposição?

II. O CASO RENAMO: O ESPELHO DE UMA CULTURA POLÍTICA DOENTE

Em Junho de 2025, um áudio viral atribuído ao Presidente da RENAMO, Ossufo Momade, revela um retrato inquietante: ameaças directas a um membro do seu partido, em Chiúre, Cabo Delgado, por este alegadamente ter encerrado a delegação distrital. O conteúdo é elucidativo:

“O delegado esteve aí, abriu a delegação, você continua fechar. A delegação é sua? É a sua casa? Eu vou mandar fechar a tua própria casa. Eu tenho desmobilizados que podem fazer isso. Está a brincar connosco? Você não estava na Assembleia Municipal? Não comeu aí durante não sei quantos anos? Quem vinha te chatear? Estúpido.”

As palavras dispensam qualquer hermenêutica rebuscada. Intimidação, ameaça, retórica belicista, desprezo pela liberdade de consciência e expressão — exactamente aquilo que se imputa à FRELIMO. De facto, a mesma RENAMO que exige espaço democrático, liberdade de manifestação e direito à imprensa, parece sufocar os mesmos valores dentro das suas próprias estruturas.

Acresce que, segundo relatos da imprensa nacional, a delegada provincial da RENAMO em Nampula emitiu uma directiva proibindo os membros do partido de se pronunciarem à imprensa sem autorização prévia. Ora, não é esta a cópia exacta da prática frelimista?

III. A IMITAÇÃO COMO FALÊNCIA ÉTICA DA OPOSIÇÃO

A oposição não se distingue da situação apenas por se lhe opor. O que qualifica uma oposição como legítima e transformadora é a sua ruptura ética, institucional e cultural com as práticas que denuncia.

Quando a RENAMO (ou qualquer outra força política) adere aos métodos que pretende combater, perde a autoridade moral e esvazia-se como alternativa. O que resulta é uma disputa de poder entre entidades indistinguíveis nos métodos, ainda que diferenciadas nos discursos.

Este fenómeno não é novo. Desde o Acordo Geral de Paz de 1992 que a RENAMO oscilou entre o protagonismo nacional e o autoengano tribalista e militarista, incapaz de construir um verdadeiro partido moderno, plural e democrático. E isso custa-lhe o voto jovem, urbano e progressista — exactamente o eleitorado que almeja mudança e não meras trocas de cadeiras entre elites.

IV. UMA CULTURA POLÍTICA AUTORITÁRIA, NACIONAL E TRANSVERSAL

O problema, portanto, não está apenas nos partidos. Está na cultura política moçambicana — vertical, hierárquica, personalista e baseada na lógica da obediência cega e do medo.

Uma cultura que entende o contraditório como traição, o debate como fraqueza e a liberdade interna como ameaça.

A RENAMO não está a importar esta cultura: está a reproduzi-la, tal como muitos partidos extraparlamentares também o fazem, ao ponto de nos questionarmos se há, de facto, uma força política capaz de romper com este molde.

V. A MUDANÇA DEVE COMEÇA POR DENTRO

À oposição moçambicana — RENAMO incluída — é dirigida esta interpelação fraterna, mas dura:

1.⁠ ⁠Como pretendem democratizar Moçambique se não conseguem democratizar os vossos próprios partidos?

2.⁠ ⁠Como exigem responsabilidade política, se no vosso seio há impunidade, ameaças, e culto da personalidade?

3.⁠ ⁠Como mobilizam pela mudança se são cópia daquilo que combatem?

O povo moçambicano está exausto de espectáculos miméticos. Precisa de propostas novas, práticas coerentes e lideranças morais. Ser oposição é mais do que estar fora do poder: é estar acima das práticas que degradam a república.

CONCLUSÃO

FRELIMO e RENAMO compartilham os mesmos estratagemas deveras anacrónicos, porque ambas foram moldadas — de formas diferentes — pela guerra, pelo monopólio de comando e por estruturas autoritárias. A diferença não está na estética partidária, mas na substância ética. E, até agora, a substância tem deixado muito a desejar.

A democracia não se constrói com clones do autoritarismo. É tempo de a oposição reinventar-se. E isso não começa nas urnas. Começa nas entranhas dos próprios partidos.

POST SCRIPTUM

“Ai da nação cujos príncipes são crianças…”
– Eclesiastes 10:16

“A verdadeira liberdade é a obediência à razão.”
– Jean-Jacques Rousseau

“O poder não corrompe. Ele revela.”
– Robert Caro

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