Por Quinton Nicuete
Os bastidores em Ancuabe revelam um cenário explosivo. Enquanto aldeias vizinhas sob medo de ataques terroristas e famílias desesperadas, a administração distrital insiste em montar uma mega festa para assinalar o aniversário da vila-sede. O evento arranca já esta noite, 30 de Agosto, e prolonga-se até amanhã, 31, com música e espectáculo, apesar do clima de medo.
Tudo foi decidido em segredo e sem prestação de contas pelo menos na Rádio Comunitária Local. Populares denunciam que não se sabe quanto saiu dos cofres do Estado nem quanto foi recebido de empresários locais e das empresas mineiras que actuam no distrito. As suspeitas de sobre-facturação e desvio de fundos estão a ganhar força.
“O que se vê é luxo e aparato em plena zona de guerra, enquanto o povo passa fome e continua a ser perseguido pelos terroristas”, dizem moradores revoltados.
O paradoxo é evidente. Ancuabe é hoje um dos distritos mais atingidos pela violência armada. Nos últimos dias, em Natocua, Nankumi e Nanduli, dezenas de pessoas foram mortas, casas queimadas, estruturas de fabrico de nipa reduzidas a cinzas e até um campo de futebol vandalizado. Centenas de famílias engrossaram o já dramático número de deslocados.
Ainda assim, a administração investiu em ornamentação do palco e trouxe sistemas de som de Pemba para a festa. Enquanto isso, o sequestro de António Waire, delegado da mesquita África Muslim, no domingo passado, em plena vila-sede, deixou a população em choque. Homens armados entraram, circularam de carro e raptaram-no sem qualquer resistência das forças de segurança.
“Se conseguiram raptar alguém no coração da vila, o que não poderão fazer durante a festa?”, questionam populares, entre o medo e a indignação.
Em Ancuabe estão destacadas várias forças além da Polícia de Protecção e do quartel de Macarara incluindo a Unidade de Intervenção Rápida, as milícias locais e as tropas ruandesas. Mesmo assim os terroristas continuam a circular quando querem. A população recorda que vilas como Mocímboa da Praia e Macomia foram invadidas sob forte presença militar e sem qualquer festividade em curso.
Nos bastidores cresce a percepção de que a festa é mais uma oportunidade de negócios e contratos inflacionados do que uma verdadeira celebração popular. “Há dinheiro para ornamentação e microfones, mas não há para garantir comida e segurança às famílias”, afirmam residentes.
Ancuabe prepara-se para celebrar, mas celebra sobre feridas abertas, com sangue ainda fresco nas aldeias e medo a pairar na vila. Muitos descrevem a iniciativa como uma bomba-relógio em pleno território sob ataque. Moz24h

Leave feedback about this