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A VERGONHA DE UMA INGERÊNCIA RIDÍCULA: TRUMP, ISRAEL E O EFEITO-NORMA PARA OS ESTADOS FRÁGEIS COMO MOÇAMBIQUE

Foto: Reuters

Por Tiago J.B. Paqueliua

Num gesto que se reveste de gravidade institucional e simbolismo profundamente revelador, Donald Trump — presidente dos Estados Unidos e pretenso paladino de um nacionalismo revanchista — ousa intervir, de forma explícita, nos processos judiciais de Israel, solicitando, com a ligeireza de quem molda leis ao sabor dos seus caprichos, a suspensão de um julgamento criminal em curso contra Benjamin Netanyahu.

A intervenção de Trump, ao qualificar de “caça às bruxas” um processo judicial sustentado por indícios consistentes de corrupção, expõe uma cultura política de narcizismo imperial que se arroga o direito de submeter sistemas judiciais soberanos à lógica de conveniência de chefes de governo que se sentem intocáveis. Não se trata apenas de uma afronta à independência do poder judicial israelita — um dos pilares que ainda distingue Israel como Estado de Direito funcional no Médio Oriente — mas de uma tentativa explícita de normalizar a impunidade, exactamente o vírus institucional que devora repúblicas frágeis e jovens democracias como a moçambicana.

Recorde-se que não é caso isolado. Trump é herdeiro de uma tradição de prepotência geopolítica dos EUA que devastou países como o Iraque — invadido sob o falso pretexto de armas de destruição massiva — e a Líbia — transformada num deserto de facções armadas após a remoção de Kadhafi. Antes deles, o Vietname, o Afeganistão e dezenas de intervenções encobertas tornaram-se marcos de um terrorismo de Estado que se justifica como “missões de pacificação” ou “exportação de democracia”, enquanto deixa rastos de morte, deslocações forçadas e Estados-falhados.

É nesse caldo de cultura imperial nunca responsabilizado pelos crimes de guerra, que se insere o cinismo de invocar a “segurança nacional” como álibi para a postergação de responsabilidades penais de Netanyahu — e de todos quantos Trump protege, como se fossem extensões da sua própria pessoa. É também uma mensagem subliminar a elites de Estados pós-coloniais, como as de Moçambique, que, libertando-se do colonialismo português pela força das armas, se têm, por vezes, aprisionado a novas formas de autocracia e impunidade.

O que Trump faz, ao reforçar o mito do líder acima da lei, legitima o ethos do “intocável”: uma figura que, em nome de guerras (reais ou fabricadas), escapa ao escrutínio jurídico e converte instituições em instrumentos pessoais.

Este episódio humilhante para a democracia americana — um presidente a advogar o colapso do princípio de separação de poderes de uma outra democracia — serve de espelho: ele expõe até que ponto o Ocidente, que gosta de se apresentar como farol de civilidade, é, em muitos momentos decisivos, incubador de práticas que alimentam o autoritarismo que finge combater.

A recusa corajosa do Tribunal Distrital de Jerusalém, ao manter a audiência de Netanyahu, é uma nota deveras crucial, digna de realce: sinaliza que ainda subsiste, ali, uma fibra de dignidade institucional que recusa ser dobrada à chantagem política. É uma lição que Moçambique e outras nações africanas fariam bem em absorver: não há estabilidade, desenvolvimento ou soberania real onde a justiça se ajoelha aos pés dos poderosos.

É, pois, uma vergonha civilizacional que a maior potência mundial se deixe representar, ainda hoje, por estadistas que cultivam e exportam o desprezo pela lei — na forma de guerras devastadoras ou de intromissões torpes nos tribunais de seus aliados.

Não deixa de ser o retrato de uma cultura imperial que legitima o “vale-tudo” e oferece aos chefes africanos — que já se consideram reis pós-coloniais — o álibi perfeito para manter o povo sob o jugo da corrupção impune.

A independência de Israel, que aqui se afirma no despacho de um tribunal distrital, deveria ecoar como sinal de esperança: a justiça não deve temer generais, presidentes nem milionários. Muito menos deve dobrar-se a forasteiros arrogantes que, com um telefonema, pretendem silenciar o tribunal em nome de uma geopolítica de destruição.

Se o Ocidente quer continuar a vestir a toga de “civilizado”, que o demonstre. Caso contrário, terá de admitir, sem disfarce, que pouco difere das oligarquias que despreza — excepto talvez no volume do seu arsenal.

Referência:

The Times of Israel, 28 de Junho de 2025

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