José Honório
Quis o destino que hoje o tempo parasse. Subitamente, pedaços da minha memória apontam para um mestre cujas impressões profissionais e morais continuam indeléveis em mim.
É o caso de Alexandre Lucas. O mestre que sempre me olhou com aquele seu olhar proverbial, providencial e de proximidade, como se de um filho se tratasse. A ele deixo aqui o meu tributo, o preito sentido do meu eterno reconhecimento e agradecimento.
Mestre, cada vez que recebo um apreço e um abraço teu, de perto ou distante, tal como hoje, quando te apercebeste de que partilhei, há dias, o que nada sei com os directores dos Gabinetes Municipais de Comunicação Social da província de Benguela, sinto-me impulsionado para frente.
Aliás, ainda me lembro de quando, no início deste meu íngreme percurso jornalístico, há exactos 20, Alexandre Lucas, o mestre a quem hoje homenageio, sempre fazia questão de me apoiar. Material, financeira e moralmente.
Deus o sabe. E digo-o aqui, do meu recanto, em voz alta e com indissimulável emoção. Pois foram várias e incontáveis vezes que recebi o teu inestimável apoio. Mesmo quando, perante a insignificância que eu fui, os outros torciam o nariz ou fechavam rapidamente a porta do carro, quando eu me aproximava para pedir boleia. Mas o mestre era – e ainda o é – exemplo de quem faz a diferença em meio a tanta indiferença e frieza.
Quem, por vezes, pelas manhãs, ia buscar-me às antigas instalações da ANGOP, junto do Mercado Heróis de Moncada, para não perder a caravana governamental para o interior?!
Eras tu, meu mestre! Sempre bem disposto, sorridente. Aquelas viagens transformavam-se, depois, em aulas de jornalismo práticas que eu nunca tive antes de pôr os meus pés nesta profissão e missão. Parafraseando Dom Óscar Braga, o então bispo da Diocese de Benguela, a “faculdade da vida”. Aquela imune à burocracia. Sem quadro nem giz. Nesta faculdade, o mestre foste tu (e ainda o és ). Já eu, o eterno aprendiz.
- Honório, senta aqui ao meu lado, no banco do pendura, vamos conversar sobre a vida, a profissão e o futuro…
Era estas as palavras que saíam não da tua boca, mas da tua alma grande, num misto de generosidade e altruísmo, quando eu, acabrunhado e desajeitado, com notáveis carências sociais e o rosto amarfanhado pelo sofrimento que me acompanhava, tentava, em vão, abrir a porta da parte de trás daquela carrinha cabine dupla em que seguíamos.
De quando em vez, no decurso das missões, não obstante as tuas responsabilidades acrescidas, enquanto então máximo responsável da Direcção Provincial da Comunicação Social de Benguela, nos tempos em que, sob o teu olhar atento e espírito de advocacia a favor da classe, os directores provinciais falavam aos jornalistas à-vontade, sem os incansáveis dribles dos dias que correm, dizias para mim:
- Honório, tens de gravar e anotar no teu bloco de apontamentos tudo quanto o governador provincial falar ou outros responsáveis. Só assim poderás escrever bons textos, boas histórias. Foi assim nas viagens ao Cubal, à Ganda, ao Chongoroi, a Caimbambo, ao Bocoio, ao Balombo, à Baía Farta, à Catumbela, ao Lobito.
Ainda hoje, meu mestre, sigo sem tibieza este teu bom conselho, o qual também vou repassando aos que ainda ouvem, resistindo aos vendavais da vida.
E, por conseguinte, os frutos aí estão, graças a Deus. Em suma, três prémios de jornalismo já arrebatados: dois a nível provincial, 2010 (menção honrosa equivalente ao segundo lugar segundo o então júri), 2022 (Prémio Provincial na categoria de Imprensa) e 2016 (Prémio Nacional na categoria já referida).
No final daquelas missões, assim que o sol crepusculando beijava ao longe o Morro do Sombreiro, que escolta o mar, era com inefável cortesia que me levavas de carro do Palácio do Governador, após deixar por lá o então inquilino, até à porta da antiga Delegação da ANGOP, junto ao Mercado Heróis de Moncada. Não aceitavas jamais que eu andasse a pé de lá para cá.
Depois, nem o cansaço nem a ditadura do tempo te impedia de tecer com mestria mais uns conselhos em jeito de consolidação daquelas aulas de jornalismo na estrada, com aquele peculiar brilho dos teus olhos.
-Honório, faça um bom trabalho, esforça -te, estude muito, leia sempre e seja persistente faça sol ou chuva.
Na verdade as tuas riquíssimas e inolvidáveis palavras de alento e amparo, para um jornalista neófito que passava despercebido aos olhos de todo o mundo, exceptuando os teus olhos de mestre dedicado, eram, afinal, o bálsamo que aliviava a minha fadiga.
E acendia a minha esperança em dias melhores, enquanto rasgávamos as entradas de alcatrão, por vezes, morada de buracos imensuráveis, ou de terra batia rumo ao interior, hoje esquecido, naquelas memoráveis viagens que o então governador de Benguela, o saudoso Dr. Dumilde das Chagas Simões Rangel, fazia durante o seu longo consulado, marcado por contacto permanente e escuta com os governados cá no litoral ou lá no interior, sobretudo, de onde a maioria de nós veio em função da guerra que já acabou, como atestam as condecorações que enchem a telinha da “teipe”.
Foi a bordo da tua viatura, oh meu grande mestre Alexandre Lucas, que ouvi, de forma magistralmente inaugural, a voz doce, melosa e restauradora de Alcione naquela sua música “Cajoeiro Velho”.
Pese embora o indisfarçável incómodo causado pelas intermináveis trepidações e solavancos da estrada pedregosa de e para a Kalohanga, fazendo com que repetidas vezes a cabeça dos ocupantes daquela tua antiga carrinha de cor vermelha (uma Mitsubishi, se a memória não me abandona), acarinhasse desconfortavelmente o tejadilho, pairava uma alegre atmosfera entre nós.
Para trás do nosso horizonte ficava como o sol a esconder-se atrás entre o Sombreiro e o mar sereno de Benguela aquela comuna. Lá, abundam histórias de vidas entregues ao Deus dará, mas também ao corte indiscriminado de árvores para fazer carvão ou agricultura de subsistência, isto é, dependente da chuva. Ou seja, o drama da pobreza na sua forma mais cruel. Mesmo assim, o povo recebia Dumilde Rangel com danças e cânticos. Era uma alegria de pouca dura. Depois, todos voltavam ao muro das lamentações.
Voltando à estrada. Com os ocupantes a vociferar cada vez que a cabeça tocasse involuntariamente no céu da viatura, o mestre Alexandre Lucas, fazendo jus à sua sempre boa disposição e, com as suas mãos valentes agarradas ao volante, como um capitão calmo de um navio mercante em alta velocidade, cantava Alcione.
Foi pasmo para todos. A resiliência do mestre Alexandre Lucas perante as dificuldades que havia na via e a voz suavemente maravilhosa da estrela da música Brasil não deixavam ninguém indiferente. Assim, todos em coro cantavam, enquanto o maestro conduzia tanto a viatura, quanto aquela efémera orquestra sinfónica. E Deus controlava tudo e todos.
”Cajueiro velho vergado e sem folhas
Sem frutos, sem flores sem vida, afinal
Eu que te vi, florido e viçoso
Com frutos tão doces que não tinha igual
Não posso deixar de sentir uma tristeza
Pois vejo que o tempo tornou-te assim
Infelizmente também a certeza
Que ele fará o mesmo de mim”.
E eu?! Eu sem entender muito bem o entusiasmo dos cotas, limitei-me a corresponder à onda de alegria mexendo a minha cabeça de frente para trás em jeito de concordância. E assim chegámos à estrada nacional asfaltada que passa pela Talamandjamba, tal como o restante da caravana à frente da qual seguia o então inquilino do Palácio do Governador de Benguela.
Fosse qual fosse o nível de fadiga, em consequência dessas procissões ao interior por parte do staff de Dumilde Rangel, o meu mestre Alexandre Lucas jamais prescindiu dos seus dotes de proporcionar um mar de bons conselhos. Eu era e sou todo ouvidos:
- Oh Honório, soube que estás a estudar à noite no IMNE (ex-Instituto Médio Normal de Educação, hoje Escola de Formação de Professores de Benguela). – referia olhando-me fixamente.
-Tens de concluir a tua formação e depois ver a possibilidade de empreender. Abra a tua empresa e conquiste o futuro. – reforçava.
– Honório, faça o teu caminho, porque ninguém o fará por ti. Invista em ti que um dia colherás bons frutos.
E, dessa forma, eu me despedia do mestre amigo e, adiante, entrava pela porta da antiga Redacção da ANGOP, aqui em Benguela. É aqui mesmo onde há 20 anos casei com o jornalismo. E conselhos como os de Alexandre Lucas, somado à minha fé, fizeram com que eu transformasse dificuldades em oportunidades de crescimento profissional e, assim, como um atleta que não desiste ante intempéries, tive a graça de andar em países como a Namíbia, Etiópia, Quénia, Malawi, África do Sul e China. Sempre erguendo bem alto a bandeira do jornalismo angolano. Quer uns vejam ou não. Pouco importa. Pois a minha história, esta está sendo escrita com suor, lágrimas e noites em claro. Ponto. Continuação…
Com indelével gratidão e respeitável vénia ao meu mestre Alexandre Lucas. Ontem como hoje, as tuas palavras impactantes em perene catadupa fazem eco dentro de mim. Ponto final.
Internacional
Vénia a Alexandre Lucas
- by Redação
- 21 de julho de 2025
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- 5 meses ago
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