Sociedade

TIO SALIM: A VOZ DOS JOVENS ESQUECIDOS DE “WAMPULA”

 

Por Jerry Maquenzi

Quando Eduardo Mariamo Abdula, popularmente chamado de Tio Salim, foi empossado governador da província de Nampula a 22 de janeiro de 2025, muitos esperavam um gestor político convencional, limitado pelo formalismo que caracteriza os aparelhos do Estado moçambicano. No entanto, em menos de um ano de mandato, a sua imagem consolidou-se como uma das mais próximas e humanas da classe governante.

A forma como Tio Salim governa rompe com a tradição: em vez de gabinetes fechados, prefere a rua; em vez de discursos burocráticos, aposta em mensagens directas, que falam a linguagem do povo. As suas intervenções informais, muitas vezes transmitidas em directo nas redes sociais, aproximaram-no dos jovens, a camada que mais sofre com a pobreza e o desemprego em Nampula.

Há quem diga que ele “governa pelo coração”, porque não hesita em intervir quando assiste injustiças. São vários os relatos – documentados em vídeos virais – de jovens defendidos por Tio Salim em situações de abuso de autoridade ou de marginalização social. Ao contrário de outros governadores, que cultivam a imagem de intocáveis, Tio Salim aposta na proximidade e no contacto humano como marca de governação.

Esse estilo de liderança gera simpatia imediata, mas também representa um desafio: como transformar carisma em políticas públicas consistentes? A história política moçambicana mostra que muitos líderes carismáticos caíram no vazio quando não conseguiram converter discurso em acção concreta. Tio Salim precisa provar que é diferente.

  1. O Peso da Pobreza em Nampula

A empatia de Tio Salim com a juventude ganha relevância quando se olha para os indicadores sociais de Nampula. Trata-se da província mais populosa de Moçambique, com mais de 5,5 milhões de habitantes (cerca de 20% da população de Moçambique), segundo o Censo 2017. Mas essa grandeza demográfica não se traduz em prosperidade.

De acordo com o Inquérito sobre Orçamento Familiar (IOF 2019/20), cerca de 81% da população de Nampula vive em situação de pobreza, o que a torna a província mais pobre do país em termos relativos. Isso significa que oito em cada dez habitantes sobrevivem abaixo da linha de pobreza, definida internacionalmente pelo Banco Mundial em 2,15 USD por dia (World Bank, 2022).

A juventude é a camada mais afectada. Sem emprego formal, muitos sobrevivem da agricultura de subsistência, do comércio informal, do garimpo ilegal e de ganho-ganho. Em vez de serem vistos como protagonistas do desenvolvimento, são frequentemente estigmatizados como “desocupados”, “marginais” ou potenciais criminosos. É contra esse estigma que Tio Salim se levanta quando afirma: “ser pobre não é ser ladrão” (Norte Podcast, 17.08.2025).

Essa frase, aparentemente simples, carrega um peso político e social profundo. Ela desconstrói a narrativa que criminaliza a pobreza e denuncia a indiferença do Estado perante a juventude excluída. Nampula, por ser jovem (mais de 67% da sua população tem menos de 25 anos), exige soluções urgentes e inovadoras, sob-risco de se tornar uma bomba-relógio social.

  1. Nampula como “Viveiro” de Insurgência

A exclusão social não é apenas uma questão de estatística. Ela tem consequências directas para a estabilidade do país. Pesquisadores nacionais e internacionais que estudam o conflito em Cabo Delgado têm apontado Nampula como uma das principais regiões de recrutamento para a insurgência (Forquilha e Pereira, 2021; Forquilha e Pereira, 2022).

Distritos como Memba, Moma, Erati, Nacala-Porto e Nacala-a-Velha aparecem repetidamente em relatórios que analisam os perfis dos jovens aliciados pelo jihadismo (Habibe, Forquilha & Pereira, 2019). A lógica é clara: quando o Estado falha em oferecer emprego, dignidade e sentido de pertença, outros actores ocupam esse espaço. Para muitos jovens sem perspectivas, a insurgência oferece três elementos que o Estado lhes nega:

  • Um rendimento, ainda que mínimo;
  • Um sentimento de pertença a um grupo;
  • Uma causa que dá sentido à sua existência.

É neste ponto que a liderança de Tio Salim pode ser crucial. O seu carisma popular pode servir como “antiveneno” contra a propaganda extremista. Se conseguir convencer os jovens de “Wampula” de que existem alternativas de inclusão económica e social, pode reduzir a vulnerabilidade ao recrutamento. Mas, mais uma vez, isso só será possível se houver acções concretas que sustentem o discurso.

  1. Do Discurso às Acções Concretas

O grande desafio de Tio Salim é não se limitar a ser um orador inspirador. É preciso transformar a sua empatia em políticas públicas estruturantes. Algumas áreas merecem destaque:

  • Legalização da Mineração Artesanal

O garimpo é uma das principais actividades de sobrevivência juvenil em Nampula (Machava, 16.10.2021, INE, 2022). No entanto, a maior parte da exploração é ilegal, marcada por insegurança, exploração de intermediários e ausência de benefícios fiscais para o Estado. Organizar cooperativas juvenis de mineração poderia legalizar a actividade, criar empregos dignos, reduzir o contrabando e ainda gerar receitas para o fisco. Essa medida já foi experimentada em pequena escala em Manica, com resultados encorajadores.

  • Economia Informal como Motor

Nampula respira informalidade. Desde vendedores de rua até pequenos transportadores, a maioria da população sobrevive nesse sector. Em vez de perseguir os chamados “Mukheristas” e outros vendedores ambulantes, o governo provincial poderia apostar em programas de microcrédito, feiras formais e capacitação em gestão de negócios. Transformar o informal em semi-formal pode ser um passo importante para a inclusão produtiva.

  • Educação Técnica e Profissionalizante

Muitos jovens terminam o ensino primário ou secundário sem qualquer saída profissional. Criar (ou equipar já existentes) institutos técnicos especializados em agricultura, turismo, pesca, carpintaria e construção civil pode abrir portas para o emprego formal e reduzir o desespero. A ligação com o sector privado, sobretudo nas cadeias de valor agrícola, seria essencial para garantir empregabilidade real.

  • Participação Política Juvenil

Um erro histórico do Estado moçambicano tem sido falar sobre os jovens em vez de falar com os jovens. Tio Salim poderia criar conselhos provinciais de juventude participativa, onde os próprios jovens apresentem propostas de políticas, orçamentos e programas. Mais do que um gesto simbólico, seria uma prática de cidadania inclusiva.

  1. A Força Simbólica de Tio Salim

A imagem de Tio Salim descendo do carro oficial para intervir numa situação de abuso policial circula nas redes como um acto quase heroico. Num país onde os líderes são frequentemente percebidos como distantes, essa proximidade é revolucionária.

O capital simbólico que ele acumula pode ser usado de duas formas:

  • Como moeda política, reforçando a sua popularidade e eventualmente projectando-o para cargos maiores no futuro;
  • Como ferramenta de transformação social, inspirando outros líderes a adoptar práticas mais humanas e participativas.

No entanto, há também riscos. O carisma é uma arma com efeitos múltiplos: pode mobilizar e inspirar, mas também pode criar expectativas desmedidas. Se as acções concretas não acompanharem o discurso, os jovens de Nampula podem sentir-se novamente traídos, o que alimentaria ainda mais o ciclo de frustração e exclusão.

Conclusão

Tio Salim emerge como uma figura rara no cenário político moçambicano: um governador próximo do povo, defensor da juventude e com coragem de desafiar o estigma que criminaliza a pobreza. A sua frase “ser pobre não é ser ladrão” ecoa como manifesto político e social numa província marcada pela exclusão.

No entanto, a verdadeira medida da sua liderança não será avaliada apenas pelo carisma, mas pela capacidade de traduzir essa energia em políticas públicas de inclusão económica, social e cultural. Nampula, com a sua juventude vibrante e ao mesmo tempo vulnerável, não precisa apenas de discursos – precisa de oportunidades.

Se Tio Salim conseguir transformar esperança em acção, poderá não só mudar o destino da juventude de Nampula, mas também oferecer ao país um modelo alternativo de liderança: mais próxima, mais humana e mais transformadora.

Referências

Forquilha, S. & Pereira, J. (2021). Afinal, não é só Cabo Delgado? Dinâmicas da insurgência em Nampula e Niassa. In IDEIAS n° 138. Maputo. IESE.

Forquilha, S. & Pereira, J. (2022). Migration Dynamics and the Making of the Jihadi Insurgency in Northern Mozambique. e-JPH, Vol. 20, number 2. pp. 132-154.

Habibe, S.; Forquilha, S. & Pereira, J. (2019). Radicalização Islâmica no Norte de Moçambique. In cadernos IESE nº 17. Maputo. IESE.

INE. (2021). “Inquéritos sobre Orçamento Familiar – IOF 2019/20”. Maputo. Instituto Nacional de Estatística.

INE. (2022). “Resultados do Censo de Mineradores Artesanais de Moçambique”. Maputo. Instituto Nacional de Estatística.

Machava, R. (26.10.2021). Envolvimento de Crianças em Mineração Artesanal é Preocupante em Nampula. Disponível em: https://opais.co.mz/envolvimento-de-criancas-em-mineracao-artesanal-e-preocupante-em-nampula/.

Norte Podcast. (17.08.2025). Tio Salim: Ser pobre não é ser Ladrão! Jovens do mercado Novo são bons empreendedores. Disponivel em: https://www.youtube.com/watch?v=WWzZAcoYpEQ.

World Bank. (2022). Poverty and Shared Prosperity 2022: Correcting Course. Washington, DC: World Bank. doi:10.1596/978-1-4648-1893.

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