Por Quinton Nicuete
Cinco meses depois do regresso da administração pública ao distrito de Quissanga, em Cabo Delgado, a realidade no terreno continua marcada pelo abandono, ausência de infraestruturas e falta de meios básicos para o funcionamento do Estado. A denúncia foi feita na V Reunião do Comitê de Coordenação Províncial, para a Implementação do Plano de Reconstrução de Cabo Delgado, pelo administrador do distrito, Sidónio José, que afirma que nada mudou desde o retorno das autoridades governamentais.
“Há sensivelmente cinco meses que o governo voltou a Quissanga, mas não há nenhum programa visível que demonstre que o Estado está lá para o seu efetivo funcionamento”, declarou o administrador, sublinhando que todas as infraestruturas continuam destruídas. Segundo Sidónio José, o distrito não dispõe sequer de uma viatura oficial, havendo o risco de deslocações a Pemba serem feitas em transporte semi-coletivo.
O administrador disse ainda que o balanço negativo surge numa altura em que o ano se aproxima do fim e quando já se anunciam novos programas de desenvolvimento para o próximo ano, sem que Quissanga veja sinais concretos de inclusão. “Estamos a fazer apelos para que Quissanga não fique de lado”, afirmou.
Sidónio José lamentou igualmente a exclusão do distrito nos apoios ligados à pesca, principal atividade económica da população local. Apesar de Quissanga ser um distrito costeiro, não recebeu embarcações nem insumos de pesca, ao contrário de outros distritos como Mecúfi e Metuge. “A população compara e questiona por que razão Quissanga nunca é priorizada, enquanto outros distritos recebem meios para garantir o sustento das comunidades”, disse, acrescentando que a ausência de apoio está a agravar a pobreza e o desespero da população.
Situação semelhante foi exposta pela administradora do distrito de Chiúre, Isaura Máquina, que revelou que dois projetos aprovados pela UNOPS, com financiamento garantido, foram retirados devido à insegurança na província. Segundo a governante, a retirada dos projetos cria dificuldades acrescidas para explicar à população a perda de iniciativas que já estavam aprovadas.
Em reação às preocupações apresentadas, o chefe-adjunto do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), Bony Mpaka, reconheceu que a insegurança continua a ser o principal obstáculo para a ação humanitária em Cabo Delgado. No entanto, garantiu que Quissanga tem sido priorizada desde o regresso da administração, com alocação de fundos para organizações locais.
Mpaka revelou que, pela primeira vez desde o início da crise humanitária, foi disponibilizada uma verba de cerca de um milhão de dólares para Quissanga e Macomia, canalizada através de organizações locais, como forma de reforçar a resposta humanitária e valorizar atores que conhecem melhor o contexto.
O governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo, afirmou que o Executivo provincial está consciente dos desafios e garantiu que 2026 será encarado com uma visão de ações concretas para o desenvolvimento, sem descurar a assistência humanitária. Tauabo reconheceu ainda a pressão causada pela entrada contínua de deslocados internos, sobretudo na zona sul e costeira da província, incluindo Pemba e Chiúre.
Por sua vez, o secretário de Estado na província, Fernando Bemane, defendeu que, apesar das dificuldades, o plano em curso está a ser implementado, apelando a uma maior articulação entre os governos distritais e a província para encontrar soluções imediatas.
Enquanto isso, em Quissanga, a população continua à espera de sinais concretos da presença do Estado, num distrito onde o regresso da administração ainda não se traduziu em reconstrução, serviços públicos ou meios de subsistência para as comunidades afetadas pelo conflito armado. Moz24h
