Politica

QUE A OPOSIÇÃO SAIBA, QUE DE PEQUENO SE TORCE O PEPINO

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

 

I. Introdução

Como premissa estratégica, o velho adágio popular, “De pequeno se torce o pepino”, encerra uma sabedoria milenar sobre a modelagem de comportamentos, instituições e sistemas de poder. Ele adverte que o essencial não é tentar corrigir uma planta adulta já rígida, mas conduzi-la desde o início — ou, no caso de sistemas políticos consolidados, perceber que a sua forma de ser não se muda por acertos cosméticos ou acordos de conveniência.

O adágio em questão é um alerta, a oposição moçambicana, tão propensa a julgar que se reforma um regime dentro do regime, sem encarar o regime como objeto de superação e substituição integral.

II. Contexto: A FRELIMO como corpo político amadurecido

A FRELIMO, com 63 anos de vida orgânica, não é um partido — é uma estrutura de poder totalizante, plasmada nas mentes, nas instituições e no tecido social moçambicano. Nascida como movimento de libertação, tornou-se partido único, metamorfoseou-se em partido de governo dentro de uma democracia pluralista formal, mas preserva a sua lógica hegemónica. Esta lógica não se “negocia”; sobrevive mudando de rostos, cooptando opositores, dividindo movimentos dissidentes, absorvendo projectos que surgem para lhe fazer frente.

Assim como o pepino não se torce na fase adulta, também a FRELIMO não se reforma por dentro — a menos que seja para manter o essencial intocado. Cada tentativa de reforma “de dentro para fora” resulta, invariavelmente, em legitimação do statu quo.

III. Sintoma de Ingenuidade Sistémica da Oposição Moçambicana

O episódio em análise — a aceitação de assentos lado a lado com a FRELIMO e de nomeação para cargos como de Inspector-Geral do Estado no governo de Daniel Chapo — expõe, uma gritante vulnerabilidade existencial da oposição moçambicana.

É o sintoma de uma cultura política que confunde colaboração com fiscalização, e cooptação com transformação.

É, ao mesmo tempo, um retrato do homem político em Moçambique: ou se integra à engrenagem da FRELIMO ou se torna um solitário na periferia do sistema, fadado a sobreviver de doações, da fé e de simpatias episódicas.

A Oposição combativa, deve recusar ser refém da ilusão de que se pode moralizar o Estado de dentro do ventre da máquina. Ainda que a sua condição seja bem-intencionada — “desde que possa levar o Presidente da República à justiça” — é, em essência, uma confissão de que aposta mais na legitimidade dada pela FRELIMO do que na força de uma oposição estrutural, organizada, popular, capaz de desacreditar a FRELIMO e substituí-la eleitoralmente.

IV. A estratégia falhada: oposição que legitima o adversário

A hegemonia se preserva não apenas pela força bruta, mas pela capacidade de absorver adversários e redefinir a sua rebeldia como ornamento de pluralidade.

No fundo, cada opositor que aceita um cargo no regime torna-se testemunha da “abertura” do regime. A cada ciclo, repete-se o mesmo enredo: líderes dissidentes tornam-se conselheiros, assessores, inspectores, presidentes de comissões, mediadores, embaixadores da mudança por dentro — e a máquina continua.

Assim, a oposição falha não apenas por fraqueza organizacional, mas por falta de clareza estratégica: tenta “co-governar” ou “reformar” a FRELIMO, quando deveria trabalhar para desacreditá-la, expô-la, contradizê-la em todos os espaços, mostrar ao povo que não há mudança real se a árvore inteira não for arrancada pelas raízes.

V. O ensino do pepino: mudar pela base, não pelo topo

Um regime que se consolidou numa cultura de clientelismo, patrimonialismo e partidarização do Estado só é contido se for desalojado em três frentes:

1. Cultural: Deslegitimar a narrativa de que só a FRELIMO “fez” Moçambique e que fora dela não há salvação.

2. Orgânica: Construir quadros autónomos, disciplinados, enraizados nas bases, sem dependência de cargos negociados.

3. Estratégica: Criar uma máquina de oposição permanente — fiscalizadora, mobilizadora, pedagógica — capaz de disputar o imaginário popular.

É aqui que se torce o pepino: formando desde cedo cidadãos livres da dependência mental do partido-Estado; cultivando jovens quadros éticos; desmontando mitos fundacionais sem medo do anátema de “traidor da pátria”. Para isso, urge abandonar o imediatismo.

VI. Considerações finais: entre a utopia e a lucidez

Se a oposição acredita genuinamente na possibilidade de enfrentar a corrupção do interior do regime, que assim seja. Mas que não se confunda isso com oposição.

Um regime não se fiscaliza a si mesmo. E uma oposição que se confunde com governo torna-se apêndice do poder.

Portanto, o alerta é este: a única forma de torcer o pepino é investir na geração seguinte — nas consciências novas, nos movimentos locais, nas comunidades despartidarizadas — e não na ilusão de que se poda um tronco velho.

Quem quiser mudar Moçambique deve matar a ilusão de reformar a FRELIMO. A árvore só se arranca inteira, pela raiz.

“De pequeno se torce o pepino.” Que ouça a oposição, antes que o pepino a torça.

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