Sociedade

“QUANDO O POVO DESEJA A MORTE DOS SEUS DIRIGENTES”

 

Por: Castro Cleiton

Recentemente, o mundo foi surpreendido pela trágica notícia da queda de um helicóptero no Gana, que vitimou oito pessoas, entre elas dois Ministros do Governo daquele país. O acidente gerou comoção em várias nações africanas, com mensagens de solidariedade, luto e reflexão. No entanto, algo inquietante chamou atenção em Moçambique: nas redes sociais moçambicanas, a maioria dos comentários não expressava empatia, mas desejo de que algo semelhante acontecesse com os nossos dirigentes.

Num país que ainda luta por unidade, justiça e paz, esse tipo de reação pública levanta uma pergunta dolorosa: como é que um povo chega ao ponto de desejar a morte dos seus próprios líderes?

A resposta é complexa e envolve uma série de elementos interligados: frustração colectiva, ausência de representatividade, desigualdade extrema e um sentimento generalizado de abandono. Não se trata apenas de palavras soltas na internet. Trata-se de um grito de desespero, nascido da profunda desconexão entre governantes e governados.

Em Moçambique, milhares de cidadãos enfrentam diariamente o peso de uma vida difícil: bairros sem energia, hospitais sem medicamentos, escolas sem condições mínimas, desemprego crescente e insegurança generalizada. Enquanto isso, os que estão no poder muitas vezes vivem cercados de luxo, protegidos por protocolos, carros blindados e discursos que soam distantes da realidade da maioria.

É como se existissem dois países: o da elite política, com acesso a tudo, e o do povo comum, onde falta quase tudo.

Essa disparidade brutal gera uma raiva acumulada, que não encontra vazão nos canais tradicionais, porque criticar o sistema ainda é visto como risco, e protestar pode significar retaliação. Assim, o povo fala onde pode: “nas redes sociais”. E o que deveria ser um espaço para diálogo se transforma num campo de ódio, ressentimento e desejos extremos, como o que se vê nos comentários sobre o acidente no Gana.

Mas é preciso afirmar com clareza: ninguém merece morrer, nem mesmo o político mais corrupto, injusto ou incompetente. A morte não é solução. É o fim. E celebrá-la, ainda que em tom de revolta, é um sinal de que a democracia adoeceu e a empatia foi ferida.

Ao mesmo tempo, ignorar esse tipo de reacção popular seria um erro grave. Não se trata de defender comentários cruéis, mas de compreender a origem dessa frieza. Quando o povo deseja a morte de seus dirigentes, o que está dizendo, no fundo, é: “já não acreditamos que vocês possam mudar este país”. É o sinal mais evidente de que a esperança foi substituída pelo desencanto.

Governar é mais do que mandar. É cuidar, escutar, servir. Um bom líder não se protege do povo, aproxima-se dele. Anda nos mercados, conversa nas praças, sente a dor da comunidade. Um governante digno desse nome não vive numa bolha, mas no mesmo chão, no mesmo país real onde vivem os cidadãos.

É preciso restaurar essa ponte entre o povo e o poder. Isso só será possível com transparência, humildade, justiça e uma verdadeira reforma das prioridades nacionais. Enquanto não houver punição justa para corruptos, igualdade de oportunidades e escuta real às vozes do povo, a raiva continuará se acumulando — até onde não se pode prever.

Esse episódio, a morte trágica de ministros ganeses e a reação fria de muitos moçambicanos, deveria servir como um espelho e um alarme. O espelho revela a distância entre a liderança e o povo. O alarme avisa que o tempo de mudar o rumo é agora, antes que o país entre em colapso moral e político.

Não precisamos desejar a morte de ninguém para desejar um novo Moçambique. Precisamos apenas lideranças comprometidas com a vida, com o povo e com a verdade.

Leave feedback about this

  • Quality
  • Price
  • Service

PROS

+
Add Field

CONS

+
Add Field
Choose Image
Choose Video