Economia

Programa Governo 2025-29: Quando o Caminho Encarece a Comida

Em Moçambique, apenas 20% do solo arável é cultivado, e mais de 3 milhões de pessoas enfrentam fome aguda. Em África, a logística deficitária é uma barreira que agrava a insegurança alimentar.

Moçambique guarda um paradoxo inquietante: um vasto território com potencial agrícola, mas uma população que convive diariamente com a insegurança alimentar. Quase metade do solo moçambicano é considerado arável, mas menos de 20% está efectivamente cultivado. As razões para esta subutilização vão além das práticas agrícolas e encontram resposta nas estradas esburacadas, nos portos congestionados e nos longos trajectos que separam os campos férteis dos mercados consumidores.

A conectividade de transportes, frequentemente vista como uma questão logística, é, na verdade, um factor estrutural da segurança alimentar. E é isto que mostra o mais recente estudo do Banco Mundial, “Transport Connectivity for Food Security in Africa (Conectividade dos Transportes para a Segurança Alimentar em África)”, que analisa como as redes de transporte moldam o acesso, o custo e a disponibilidade de alimentos em todo o continente. No caso de Moçambique, o estudo oferece um retrato claro dos problemas, mas também revela avanços importantes e um potencial estratégico inegável.

Estradas como elo entre fome e fartura

De norte a sul, o País enfrenta dificuldades sérias de mobilidade interna. A principal via terrestre, a Estrada Nacional Número Um (EN1), atravessa todas as regiões, mas, em várias zonas está em estado crítico, especialmente vulnerável a cheias e à erosão. No interior, onde se produz grande parte dos alimentos, as vias secundárias estão muitas vezes intransitáveis durante a estação chuvosa, isolando comunidades inteiras. Este isolamento tem custos profundos: perdas pós-colheita, menor acesso a mercados e preços elevados nos centros urbanos.

Mas há sinais de mudança. Um dos projectos mais ambiciosos em curso é o “Safer Roads for Economic Integration (Estradas Mais Seguras para a Integração Económica)”, financiado pelo Banco Mundial, que procura reabilitar e tornar mais resiliente a N1. As obras incluem drenagem, melhorias estruturais e integração com mercados locais. O impacto pode ser decisivo: encurtar a distância entre a produção e o consumo e reduzir a fome.

Os países africanos produzem 75% dos alimentos que consomem, importando o restante da Europa e da Ásia. Mas o comércio alimentar entre países africanos representa apenas 5% do total

Em paralelo, o País avança na requalificação de três corredores estratégicos – Maputo, Beira e Nacala –, com o apoio do Projecto de Conectividade do Comércio na África Austral (SATCP, sigla em inglês). Estes corredores são rotas de sobrevivência que ligam Moçambique a países vizinhos como o Maláui, Zâmbia e África do Sul. Uma batata produzida em Angónia ou uma laranja de Manica pode chegar a outros países, se as estradas forem transitáveis e os portos funcionarem.

Quando o progresso chega ao campo

A dimensão regional é apenas parte da equação. No terreno, efeitos visíveis surgem nalgumas zonas rurais. Nos corredores do Zambeze e de Nacala, mais de 200 quilómetros de estradas rurais foram reabilitados. Pequenos produtores, tradicionalmente à margem do mercado, viram a sua produtividade aumentar, em média, 79%, com ganhos também no acesso a água, armazenamento e fornecimentos.

Desafio persistente: muita gente com fome!

Três milhões de moçambicanos vivem em situação de fome aguda. Os custos de uma dieta saudável são proibitivos para a maioria das famílias. E os choques climáticos, cada vez mais frequentes, continuam a afectar tanto a produção como o transporte de alimentos. Para cada estrada construída, há uma tempestade que ameaça levá-la.

Mas a trajectória em curso mostra que a conectividade, se for bem pensada, pode ser uma poderosa ferramenta de inclusão e resiliência. Os corredores logísticos, as estradas rurais e os sistemas urbanos de transporte não são apenas meios de circulação. São vias que ligam o campo à cidade, o agricultor ao consumidor, a produção ao desenvolvimento. Em Moçambique, caminhar para a segurança alimentar é, literalmente, abrir caminho.

África: os bloqueios que custam refeições

Na verdade, Moçambique é apenas uma pequena amostra de uma realidade mais ampla, vivida nos 49 países da África Subsaariana. O relatório do Banco Mundial indica que, no continente, as causas da insegurança alimentar são múltiplas e variam entre países, e mesmo dentro das suas regiões. No entanto, há padrões comuns. A produção local continua insuficiente: em média, os países africanos produzem cerca de 75% dos alimentos que consomem, importando o restante, sobretudo da Europa e da Ásia.

Mas o comércio alimentar entre países africanos representa apenas 5% do total, enquanto cerca de 37% do que se produz localmente é perdido após a colheita. Muitas comunidades, sobretudo rurais e periféricas, estão fisicamente isoladas da cadeia de abastecimento.

A fragmentação logística, a fraca integração regional e a precariedade da infra-estrutura são hoje os principais travões ao desenvolvimento de sistemas alimentares resilientes em África

Estes padrões perpetuam a fome e expõem o continente a choques frequentes e graves. A fragmentação logística, a fraca integração regional e a precariedade da infra-estrutura são hoje os principais travões ao desenvolvimento de sistemas alimentares resilientes em África.

A longa viagem da comida em África

As cadeias de abastecimento alimentar são anormalmente longas, porque muitos países dependem da importação de alimentos básicos, como arroz e trigo, de mercados estrangeiros. Em média, os alimentos percorrem cerca de 4000 quilómetros e levam até 23 dias para chegar aos consumidores, tornando o sistema quatro vezes mais longo que o europeu. Esta dependência externa e a infra-estrutura precária aumentam os riscos, os custos e os atrasos. Para encurtar as cadeias, é essencial investir em transportes, logística, armazenamento e promover o comércio intra-regional, aliados a políticas de apoio à produção agrícola local.

Distribuir é a nova prioridade do continente

A maioria dos países africanos não dispõe de sistemas eficazes para distribuir os alimentos entre regiões excedentárias e zonas com insegurança alimentar. As cadeias de abastecimento nacionais e regionais estão fragmentadas, marcadas por falhas na infra-estrutura de transporte, armazenamento inadequado e entraves nas fronteiras. O resultado é preocupante: em muitos casos, as transferências alimentares dentro do continente, podem levar até dez vezes mais tempo do que nos Estados Unidos, com custos de transporte que chegam a representar 45% do preço de mercado de produtos de baixo valor. Para as famílias que vivem em zonas remotas ou em bairros urbanos de baixos rendimentos, os alimentos tornam-se simplesmente inacessíveis.

Além disso, os agricultores enfrentam outro entrave estrutural: o acesso limitado à informação de mercado, o que dificulta a capacidade de responder à procura, de planear colheitas ou de investir em melhorias. Sem previsibilidade nem apoio logístico, muitos acabam por perder parte significativa da sua produção ou por vendê-la a preços desvantajosos.

 

O papel dos blocos económicos regionais

Para o Banco Mundial, os blocos económicos regionais devem desempenhar um papel central na promoção de cadeias de abastecimento alimentar mais eficientes em África. Organizações como a Comunidade da África Oriental (EAC), a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO), a Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC) e a Autoridade Intergovernamental para o Desenvolvimento (IGAD) têm contribuído para harmonizar políticas comerciais, facilitar o comércio transfronteiriço e investir em infra-estruturas críticas.

Apesar dos avanços, os custos de comércio agrícola entre países africanos continuam, em média, 20% mais altos do que com parceiros externos. Os altos custos de transporte, os procedimentos fronteiriços complexos e as barreiras não tarifárias, muitas vezes mal aplicadas, elevam os preços e reduzem o incentivo ao comércio regional. Por exemplo, o custo de transporte do milho, embora inferior ao do arroz e ao do trigo, ainda representa 16% do preço final. Além disso, a corrupção e a ineficiência aduaneira fazem com que países com acesso regional, como o Quénia, prefiram importar de fora do continente.

Cinco caminhos para mudar o cenário

A partir desta análise, a pesquisa do Banco Mundial destaca cinco desafios críticos que exigem resposta: melhorar a conectividade entre regiões produtivas e mercados consumidores; investir em armazenamento para reduzir perdas pós-colheita; acelerar o trânsito de mercadorias nas fronteiras; tornar o transporte mais acessível e eficiente; e integrar os produtores em sistemas logísticos modernos e informados. Sem resolver estas fragilidades, a fome continuará a circular mais depressa do que os alimentos.

 

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