Por Quinton Nicuete | Pemba
A crise de combustível em Pemba está longe de terminar. Apesar das reiteradas garantias do Governo de que não há ruptura no abastecimento, o cenário no terreno mantém-se crítico, marcado por longas filas, incerteza generalizada e um mercado paralelo cada vez mais activo. Uma semana depois das primeiras denúncias, a reportagem voltou às ruas e encontrou o mesmo padrão, ou até pior.
Nas poucas bombas em funcionamento, automobilistas e motociclistas passam horas e, em alguns casos, noites à espera de combustível, sem qualquer garantia de abastecimento. “Fiquei na fila desde às cinco até às sete da manhã para conseguir combustível. Hoje voltei, andei várias bombas e não consegui”, contou Abudo Abdurrahim, visivelmente frustrado. Segundo ele, a situação já dura há cerca de duas semanas e está a afectar directamente o seu rendimento. “Fiquei uma semana sem trabalhar. Se continuar assim, vou ter que encostar o carro”, disse.
Entre os consumidores cresce a convicção de que o problema não é a inexistência do produto, mas sim falhas na distribuição ou algo mais. Vários entrevistados denunciam um alegado esquema que facilita o acesso de revendedores informais ao combustível dentro das próprias bombas. “Há pessoas que compram com bidões e depois vendem na rua. Pagam 100 a 200 meticais por galão para facilitar”, revelou uma das fontes. Enquanto isso, o mercado paralelo continua a prosperar, com preços considerados proibitivos. Um litro pode atingir entre 200 e mais de 300 meticais, valores incomportáveis para quem depende do combustível para trabalhar.
A situação é descrita como insustentável por Agostinho Manuel Bento, motociclista, que afirma passar o dia inteiro nas filas sem garantia de abastecimento. “Estamos aqui desde de manhã até à noite. Nem sabemos se vamos conseguir abastecer”, afirmou. Recorrer ao mercado informal, diz, não é opção. “Os preços são muito altos. Isso já não é preço, é roubo”, criticou.
O mesmo sentimento é partilhado por Omar, outro condutor, que relata níveis elevados de incerteza entre os consumidores. “As pessoas ficam três horas ou mais na fila. Há quem passe a noite e mesmo assim não consegue combustível”, contou. Segundo ele, o problema agravou-se após informações sobre possíveis dificuldades de abastecimento ligadas à crise internacional. “Antes mesmo de chegar a data anunciada, já havia escassez”, explicou.
Enquanto os consumidores enfrentam filas intermináveis, o mercado paralelo continua a operar praticamente sem restrições. Em vários pontos da cidade, revendedores informais vendem combustível a poucos metros das bombas, alimentando um circuito que muitos consideram estar fora de controlo. “Já vimos um litro a custar 320 meticais. Isso não ajuda em nada”, lamentou Omar.
Até ao momento, não há sinais visíveis de intervenção eficaz por parte das autoridades para travar a especulação ou reorganizar a distribuição. No terreno, a realidade impõe-se com clareza: filas longas, bombas com abastecimento intermitente e um sistema informal que prospera à vista de todos. Para os entrevistados, a solução passa por uma acção urgente. “O Governo tem que olhar para esta situação. Estamos a sofrer”, apelou Abudo.
Enquanto isso, em Pemba, a crise continua e, para muitos, já deixou de ser apenas um problema de abastecimento para se tornar uma questão de sobrevivência. (Moz24h)

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