Sociedade

OPOSIÇÃO QUE ABRAÇA E BEIJA A SERPENTE

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

Se pudesse, desta vez ser um cronista, retórico de esquina e declinador de esperanças tolas, e diria que há quem ainda se espante — e há quem faça de conta que se espanta — quando o Partido-Estado, esse colosso de continuidades em farda civil, faz exactamente aquilo para que nasceu: perpetuar-se, pacificar apenas o pacificável, engavetar reformas, comprar tréguas, oferecer salamaleques constitucionais enquanto mantém o sangue da máquina a circular no circuito fechado do poder.

Daniel Francisco Chapo, Presidente da FRELIMO e, por inerência de funções, Presidente da República de Moçambique (não confundamos a árvore com a floresta nem a floresta com a monocultura), não mente. Simplesmente não adorna. Diz o óbvio, mas fá-lo com aquele sorriso de quem segura a chave da porta da catedral onde se abençoa o acordo da vez.

“Quem assinou o acordo, diz que o acordo está a ser cumprido”, pontifica Chapo, a partir de Sevilha — longe o bastante para que a brisa ibérica afaste o fedor de promessas velhas como a Constituição de 1990. Para Chapo, que Venâncio Mondlane quer, afinal? Ser signatário de um acordo ao qual não foi admitido? Exigir a execução de cláusulas que nem carimbo têm? Pedir indulto para três mil jovens que ousaram não bater palmas?
Valha-nos o Céu: isto é a FRELIMO, não é uma casa de caridade para adversários.

A Oposição — essa palavra sempre escrita em maiúscula nos manuais de autoajuda do constitucionalismo — ainda não percebeu que não é Oposição coisíssima nenhuma. É, antes, Adjunto de Posição: existe para ornamentar a monarquia do voto, para legitimar as urnas duvidosas, para afinar a música do coro parlamentar e — quando muito — oferecer um suspiro de decoro democrático a quem de fora ainda finge acreditar na pluralidade moçambicana.

O grande erro, ilustres opositores, reside em supor que opor-se é assessorar. É corrigir a FRELIMO para que governe melhor. É dar “subsídios estratégicos” — que ternura! — ao partido no poder, como se de um estágio se tratasse. Ora, não se apercebem de que, desde 1992, todo acordo é um tapete estendido sobre buracos que não se tencionam tapar? O Acordo Geral de Paz, o Acordo de Nampula, o Acordo de Maputo, o Acordo de Café da Manhã: tudo serve para adiar, apaziguar, amortecer. A única cláusula que se cumpre é a da conveniência do partido maioritário e os trocos para os bolsos da Oposição.

Não fosse trágico, seria risível.
Temos manifestações que se pagam com mais de 400 cadáveres e destruição de bens públicos e privados, mas que se enterram com conferências de imprensa, com os atores a cantar a música do vilão. Temos 3.000 detidos que esperam amnistia, mas que só recebem silêncio e negação. Temos encontros sorridentes em Maputo, comunicados vibrantes, cafés de luxo, palmadinhas nas costas e… nada. Depois volta-se ao princípio: o Presidente repete a liturgia, a Oposição reclama, faz-se aos trombones e fala ao mundo surdo, a comunidade internacional toma nota, faz de conta que faz, e os moçambicanos comuns aprendem, de geração em geração, que toda assinatura é um contrato com prazo de esquecimento.

Assim vai a história.
Enquanto isso, o Partido-Estado ri-se — dele, de vós, de quem assina acordos e espera ver aplicados artigos e alíneas. E não mente: “Quem assinou o acordo, diz que está a ser cumprido.” É uma frase de molde lapidar, digna de constar no pórtico da Casa da Democracia Moçambicana: “Aqui quem assina não lê; quem lê não assina; e quem reclama, não consta.”

E vós, Oposição?
Assinai mais um memorando, concedei mais uma entrevista, gritai mais uma vez que quereis corrigir, melhorar, partilhar, mais tendes dura cachola que impede que aprendais que “oposição” é antes de mais romper — romper com o confortável teatro de ser o ajudante de palco do Rei, romper com a doce ilusão de que se influencia o Império aconselhando-o a governar melhor.

Oposição que se preza desdenha partilhar o trono — quer trocá-lo. E quem não está disposto a isso não faz oposição: faz assessoria gratuita.

Moçambique não precisa de assessores do Partido-Estado. Precisa de opositores.
E isso, meus senhores, não se assina. Constrói-se — sem acordo. Não precisa estar lá.

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