Começa o ensaio, sussurro ligeiro,
Um tonto que dança no meio do terreiro.
O plano é deserto, a ideia vazia,
Veste-se a capa de uma heresia.
Constroem castelos com cartas ao vento,
Gritando ao povo: “Aceita o talento!”
A engrenagem roda, sem eixo nem trilho,
Mas todos elogiam o falso brilho.
O burro formou-se, prega na capela,
E a multidão cega acende-lhe a vela!
Nas urnas de lata afunda o clichê,
E o soberano grita: “Vejam como se vê!”
E sobe o volume, explode a comédia!
Subimos ao topo da nossa tragédia.
Malume! Esta gente que rouba e que finge,
No palco da lua onde a farsa se tinge,
Xiconhoca, de diploma e favor,
Corta a capulana p’ra vestir o senhor.
Tanto aparato, cinquenta anos de urgência,
P’ra, no fim de tudo, nesta incoerência,
Ficarmos à chuva, sem eira nem beira…
Enquanto o rei inaugura a própria bandeira!
*Ismael Miquidade, in “Cadernos de Poesia — Faísca no Chão”

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