Por Tiago J.B. Paqueliua
I. Introdução
Numa velada liturgia do roubo planeado, anuncia-se, com entusiasmo solene e cronometrado à conveniência dos 50 anos da independência nacional, uma nova epopeia estratégica: a PESAN III — Política e Estratégia de Segurança Alimentar Nutricional, orçada em 8,39 mil milhões de dólares até 2030.
As palavras são grandiosas, o jargão técnico escorreu de PowerPoints financiados, e os aplausos — entre membros de governo, agências da ONU e consultores — ecoaram em Maputo.
Mas, para quem observa de fora das muralhas da bolha governamental, a verdade é outra: PESAN III é apenas o novo nome de uma velha engrenagem de desfalque institucional, uma reedição do SUSTENTA — agora morto e enterrado, sem inquérito, sem julgamento, sem devolução de fundos, sem uma única exoneração simbólica.
É a metástase de uma cultura política onde o desvio é regra, e a fome do povo serve de biombo para a rapina de fundos públicos e internacionais.
II. A Estética da Farsa: Do PowerPoint à Pirotecnia
Enquanto em Maputo se discutia, com cara séria e cifras ambiciosas, o futuro da segurança alimentar, em Belo Horizonte, distrito de Boane, outro evento envergonhava o país — com fogos de artifício e champanhe.
António Carlos do Rosário (ACR), o ex-director da inteligência económica e um dos arquitectos principais do escândalo das Dívidas Ocultas, foi recebido em apoteose à sua saída da prisão, no dia 20 de Junho de 2025, com uma festa luxuosa, fogo-de-artifício e cortejo presidencial — enquanto o povo, atolado na miséria, assistia, boquiaberto, ao desfile da impunidade transformada em celebração.
Essa imagem, grotesca e dolorosamente simbólica, representa o verdadeiro estado da nação: quem rouba é ovacionado, quem tem fome é ignorado, e quem denuncia é perseguido.
“Em Moçambique, o crime económico não só compensa. É aplaudido”, disse um cidadão indignado. E com razão.
A festa de ACR e os 8 biliões de dólares da PESAN III pertencem ao mesmo teatro: um país em que a justiça é decorativa, a ética é um acessório, e o Estado existe apenas para garantir que os de cima continuem de pé, mesmo que os de baixo rastejem.
III. O Novo Nome para o Velho Golpe
A PESAN III é apresentada como resposta ao desafio da nutrição, da agricultura sustentável, da soberania alimentar. Mas já ouvimos isto antes.
O PROAGRI prometia mecanizar o campo. O FDA era o instrumento da juventude empreendedora rural. O PARPA I e II prometiam erradicar a pobreza absoluta. O SUSTENTA iria revolucionar a produção familiar. E todos, sem excepção, se afundaram sob montanhas de relatórios inúteis, conferências milionárias e auditorias ocultadas.
Hoje, a PESAN III surge com a mesma liturgia e os mesmos vícios: nenhuma auditoria aos programas anteriores, nenhuma responsabilização penal, nenhuma salvaguarda contra a repetição da tragédia.
IV. Análise Multidisciplinar do Estelionato
a) Antropossociologia Política: A Dança das Máscaras
O Estado moçambicano construiu uma forma de governar onde o tempo é circular: os programas falham, os actores são promovidos, os slogans mudam, e o povo é forçado a acreditar que desta vez será diferente.
É a coreografia da mentira repetida com credencial institucional.
Uma sociedade submetida a esse modelo entra numa espiral de desesperança, onde a única esperança é emigrar, ou esperar um milagre.
b) Economia Política: Quando a Segurança Alimentar é um Negócio de Elites
Os 8 biliões de dólares prometidos não se destinam ao combate à fome. São uma linha de crédito político para o regime comprar legitimidade internacional. O grosso desses fundos será absorvido por consultorias, logística de seminários, comités e coordenações inúteis.
O camponês continuará a cultivar à enxada, o peixe podre continuará a ser vendido sem gelo, e as crianças continuarão desnutridas. Mas os relatórios brilharão — e os carros blindados também, e na cachola de Celso Correia, a paranóia de que os moçambicanos tem três refeições por dia, será vendida a palhaços políticos.
c) Filosofia e Moral Pública: A Morte do Pacto de Confiança
O pacto entre governante e povo é baseado em confiança. Quando um Estado aplaude ladrões e financia novos programas sem punir os fracassos anteriores, o contrato social dissolve-se. A festa de ACR é a zombaria final: o Estado já não se esconde — ri-se na cara do povo.
d) Juridicamente: Quando a Continuidade do Estado é Invocada Selectivamente
A recusa do Presidente Daniel Chapo em assumir o fracasso do SUSTENTA, alegando que “era um projecto”, contrasta com o seu silêncio cúmplice face à exigência de pagar as Dívidas Ocultas — essas sim tratadas como obrigação do Estado. É a duplicidade jurídica como instrumento de dominação. O Estado continua para mentir, mas não para responder.
e) Geoestratégia: Moçambique Como Risco Sistémico
A contínua falência de programas públicos e a falta de responsabilização comprometem a credibilidade internacional. Os doadores fingem que acreditam, as agências fingem que monitoram, e o governo finge que implementa. A oposição finge que está a fazer tudo para as coisas um dia mudarem. Ninguém acredita verdadeiramente na eficácia do PESAN III — mas todos fingem porque o jogo dos interesses fala mais alto.
f) Psicossociologia: A Normalização da Derrota
Para a maioria dos moçambicanos, já não se espera nada do governo. A nova estratégia, os 8 biliões, a festa de ACR — tudo faz parte do mesmo cenário de normalização do desespero e do cinismo. O povo não protesta — apenas sorri com os dentes da resignação.
V. Conclusão
A Segurança Alimentar é um Projecto de Insegurança Nacional.
A PESAN III é a nova cortina de fumo sobre a velha fogueira de interesses escusos. E se nada mudar, será apenas mais um ciclo de empobrecimento financiado, onde a fome real serve para justificar banquetes institucionais.
Enquanto o povo mendiga migalhas e exige dignidade, os ACRs da nossa desgraça soltam foguetes.
Em Moçambique, o combate à fome começa por alimentar a verdade — e esta é amarga: o Estado virou refeitório exclusivo de quem devora o país.
E, com 8 biliões na mesa, os abutres já afiam os talheres.
Referências Noticiosas:
1. MOZA. “Moçambique investirá mais de 8 bilhões de dólares na nova estratégia de segurança alimentar até 2030”, 24 de Junho de 2025.
2. MOZA. “Daniel Chapo confirma morte do SUSTENTA: ‘Era um projecto e correu como correu’”, por Abílio Maolela, 23 de Junho de 2025.
3. Óscar Alho. “Festa e Fogo-de-Artifício Marcam Soltura de ACR em Belo Horizonte”, 21 de Junho de 2025.

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