Jerry Maquenzi
Em Moçambique, a moeda estrangeira deixou de ser apenas um instrumento de transacção internacional: transformou-se num objecto de culto, contrabando e sobrevivência. O dólar e o euro, que deveriam ser adquiridos de forma transparente nos bancos comerciais, tornaram-se bens escassos e de luxo, negociados como pedras preciosas num mercado clandestino que todos conhecem, mas poucos ousam enfrentar.
O mercado paralelo de câmbios, alimentado por cumplicidades entre bancos, políticos e comerciantes, é hoje uma das expressões mais claras do colapso institucional e da captura do Estado. Como mostram testemunhos colhidos em Maputo pelo Centro de Integridade Pública (CIP) com recente vídeo investigativo “Desvendando a rede que alimenta o mercado negro de venda de moeda estrangeira”, o acesso a divisas em bancos comerciais é quase uma miragem. “Pode ir em vinte bancos”, ironiza um dos entrevistados, “dólares só vais encontrar connosco”.
O resultado? Uma economia estrangulada, salários reais em queda livre e uma população encurralada entre a corrupção e a carestia.
- Quando o Banco se Transforma em Fornecedor do Mercado Negro
O testemunho é contundente: “Logo que os dólares chegam ao banco, ligam para nós para ir buscar”. Não se trata de rumores, mas de práticas sistemáticas. Funcionários bancários desviam divisas destinadas a clientes formais e as redireccionam para redes informais, que depois as revendem a preços inflacionados.
Os números falam por si:
| Moeda | Câmbio Oficial/compra | Câmbio Oficial/venda | Câmbio informal/ agentes do banco | Câmbio no mercado paralelo |
| Dólar | 63,25 MZN/USD | 64,51 MZN/USD | 75 – 76 MZN/USD | 77 – 80 MZN/USD |
| Euro | 74,02 MZN/Euro | 75,50 MZN/Euro | 80 MZN/Euro | 82- ou + MZN/Euro |
Fonte: Câmbio oficial retirado do BCI (10.09.2025)
Essa diferença aparentemente pequena – 7 ou 12 meticais – representa margens imorais para quem controla o fluxo. Para o consumidor comum, traduz-se em produtos mais caros, inflação e poder de compra corroído.
- O Dólar como Mercadoria Política
Não estamos perante um mercado paralelo qualquer, mas sim uma rede em que os principais detentores de moeda estrangeira são políticos, governantes e banqueiros. Deputados e ministros – actuais e antigos – aparecem nos relatos como verdadeiros “donos” da moeda estrangeira.
O escândalo não é apenas económico: é político. Ao capturar o sistema cambial, as elites convertem o acesso privilegiado às divisas em capital de poder. Quem tem dólares manda, quem não tem, obedece.
Essa mercantilização da moeda estrangeira expõe a fragilidade do Estado moçambicano, incapaz de assegurar a soberania monetária. O metical, nesse contexto, é relegado ao papel de moeda de segunda categoria, tolerada internamente, mas desprezada em qualquer transacção séria.
- Impacto no Custo de Vida: Inflação Importada e Salário em Queda
O impacto mais directo do câmbio paralelo é sentido no bolso do cidadão comum. Moçambique é um país altamente dependente de importações: combustíveis, trigo, medicamentos, maquinaria. Se o importador compra dólares a 77 ou 80 meticais em vez de 64,51 meticais, esse custo extra é transferido directamente para o consumidor.
O pão, que depende do trigo importado, sobe. O combustível, pago em dólares, dispara. A cesta básica encarece. O transporte semicolectivo aumenta o preço da corrida. O trabalhador, cujo salário está fixado em meticais, não acompanha essa escalada.
O resultado é a erosão dos salários reais. Um funcionário público que recebe 10.000 meticais por mês via o seu rendimento equivaler a 155 dólares quando a taxa oficial estava em 64,51 meticais, mas apenas 129 dólares quando recorre ao mercado paralelo. Essa diferença de 26 dólares pode parecer pequena para as elites, mas para quem precisa de pagar a renda, o transporte e a escola das crianças, é a fronteira entre comer e passar fome.
- Uma Classe Média em Colapso
A classe média urbana, construída com muito esforço após o fim da guerra civil, está em colapso. Jovens licenciados, empregados em empresas privadas ou no Estado, vêem as suas poupanças evaporar-se. O sonho da casa própria torna-se inalcançável, o carro importado é um luxo proibitivo, e até viagens para o estrangeiro se transformam em fantasias.
Este colapso tem consequências sociais graves: gera frustração, ressentimento e descrença nas instituições. É o terreno fértil para a contestação política e para a erosão da legitimidade do próprio Estado.
- O Risco de Explosão Social
A escassez de divisas não é apenas um problema monetário, é uma bomba social. O fosso entre a taxa oficial e o câmbio paralelo é um lembrete diário de que o sistema beneficia poucos e sacrifica muitos.
Em países marcados por desigualdades históricas e tensões sociais, como Moçambique, a manipulação do câmbio pode ser o estopim de revoltas. Não se trata apenas de economia: trata-se de dignidade. Quando o cidadão percebe que não pode comprar pão, mas vê políticos a enriquecer com o dólar, a revolta deixa de ser apenas uma possibilidade e transforma-se em ameaça real.
- O que Fazer?
Não há soluções fáceis, mas há caminhos possíveis:
- Transparência radical: os bancos devem ser obrigados a publicar diariamente as alocações de divisas, discriminadas por sector e finalidade.
- Combate selectivo ao mercado negro: perseguir os grandes operadores – políticos, banqueiros, comerciantes de alto nível – e não apenas os vendedores de rua.
- Política de substituição de importações: investir em sectores estratégicos (agro-indústria, energia, medicamentos) para reduzir a dependência de divisas.
- Conclusão
O mercado negro de divisas é mais do que um problema financeiro: é o espelho da decadência institucional do país. Revela um Estado capturado, elites predadoras e uma população condenada a sobreviver na precariedade.
Enquanto os governantes enriquecem com a diferença entre o câmbio oficial e o paralelo, o trabalhador comum vê a sua vida degradar-se. O pão, o combustível e a escola das crianças tornam-se luxos inatingíveis.
Se nada for feito, Moçambique continuará a viver sob a tirania do mercado paralelo, onde a moeda nacional vale menos que um pedaço de papel, e a dignidade do cidadão é trocada por alguns dólares escondidos em cofres privados.
O desafio é claro: ou o Estado recupera o controlo da sua própria moeda, ou continuará a ser apenas um refém dos seus próprios fantasmas.
Referências
BCI. (10.09.2025). Câmbio do dia. Disponível em: https://www.bci.co.mz/cambio/.
CIP. (10.09.2025). Exclusivo: Desvendando a rede que alimenta o mercado negro de venda de moeda estrangeira. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=qhieS0tFmOk
