Sociedade

Nova Tipologia de Terrorismo em Cabo Delgado: O Caso de Macomia

 

Por Tiago J.B. paqueliua

“O terrorismo em Moçambique e todas as suas formas correlatas não terminarão enquanto os terroristas — domésticos ou jihadistas — continuarem a acreditar que o cometimento de crimes de guerra abre caminho para conversações de luxo, seguidas de amnistia, e finalmente um DDR sem justiça retribuitiva.”

Macomia, outrora terra de pesca e esperança, tornou-se sinónimo de sepultura colectiva, sinistro altar onde o Estado moçambicano imola a sua dignidade e o povo sacrifica os últimos vestígios da esperança. A madrugada de 28 de Junho de 2025 (02 Dhul-Hijjah 1446) serviu como mais um capítulo da tragédia contínua, quando o Estado Islâmico reivindicou o morticínio de pelo menos 30 militares das Forças Armadas de Defesa de Moçambique (FADM) em Quiterajo — como noticiado pela Carta de Moçambique e o Cabo Ligado Weekly Report, de 5 de Julho de 2025.

Evidentemente, as autoridades moçambicanas — essas virtuosas mestres do silêncio ensurdecedor — preferiram não confirmar ou desmentir. Porque em Moçambique, só se confirma ou desmente aquilo que a propaganda ordena e o palácio autoriza. A verdade, quando muito, é um luxo de ocasião.

Sabe-se apenas que os militares mortos integravam um batalhão de recém-formados em Nacala-Porto, treinados com apoio ruandês. Um detalhe que, mais do que geopolítico, é irónico: jovens preparados para defender o povo, tornaram-se carne fresca num matadouro jihadista. Em Quiterajo, morreram — como morre a autoridade do Estado: rapidamente, em silêncio, sem glória e sem justiça.

Mas talvez mais inquietante do que o ataque seja a reacção das populações do Teatro Operacional Norte (TON), que, segundo vozes locais, não lamentam a queda dos militares — alguns até suspiram de alívio. Afinal, são os mesmos que acusam as FADM de perpetrar crimes tão hediondos quanto os dos próprios terroristas. Os ecos do massacre de cerca de 100 pescadores em Pangane, atribuído aos militares, ainda ressoam nas consciências e nos vídeos documentados pelo Integrity Moçambique (07/07/2025), onde civis relatam atrocidades indescritíveis, enquanto corpos são empilhados em camiões a caminho do centro de saúde de Macomia.

Que Estado é este, onde a vítima e o carrasco se confundem e a farda se torna o disfarce ideal do terror?

Como se não bastasse a pilhagem de vidas, o regime adestrou as suas forças para perseguirem… jornalistas. Como tem sido apanágio, no dia 26 de Junho de 2025, 16 repórteres moçambicanos foram interrogados, ameaçados, revistados e viram os seus equipamentos confiscados pelas Forças de Defesa e Segurança (FDS), apenas por filmarem escombros de palhotas destruídas — testemunhos visuais do que o regime quer enterrar com o silêncio. A denúncia partiu do MISA-Moçambique, que ousa ser um dos poucos bastiões da dignidade informativa.

Parece que as FADM confundem a lente da câmara com uma mira ponta de mira duma kalashnikovs. Jornalista passou a ser sinónimo de “agente do inimigo”.

Afinal, quem filma a verdade ameaça a mentira institucionalizada. Como esperar que estas forças protejam aldeias, se tremem diante de uma GoPro?

E o povo? Esse povo que já vive deslocado da própria cidadania, refugiado na sua própria terra, é alvo de dois tipos de terrorismo: o jihadista, que usa kalashnikovs tal como e o estatal para fomentar terror.

Como bem expõe o OCHA/ONU no seu relatório de 7 de Julho de 2025, a situação no Norte é um desastre em crescendo: 48 mil deslocados desde Janeiro, 260 mil sem acesso a água potável, 200 mil sem abrigo digno, e uma quebra de 26% no financiamento da ajuda humanitária. Programas de emergência estão a ser encerrados, não por falta de necessidade, mas por falta de vergonha no topo da pirâmide.

E ainda há quem tenha coragem de dizer que em Macomia tudo está “sob controlo”, quando na verdade não passa de
microcosmo da falência do Estado moçambicano, que legisla para si mesmo, que transforma o Parlamento em incubadora de mordomias e o sufrágio universal num instrumento de exclusão política, um país onde o crime compensa e onde o terrorismo, longe de ser combatido, é antes reciclado, negociado e promovido à categoria de interlocutor político.

A guerra não é mais contra o terrorismo — é contra a verdade.
As FADM parecem mais hábeis a alvejar pescadores do que a proteger civis. Os jornalistas são tratados como dissidentes por mostrarem o que realmente se passa. E os políticos, em Maputo, andam demasiado ocupados a preparar eleições indirectas para notarem que o país está moribundo.

Epílogo:

Enquanto o terror tiver passaporte e o Parlamento representar os interesses de partidos e não do povo, Moçambique continuará a afundar-se — e não num abismo qualquer, mas num abismo pior do que qualquer inferno imaginável. Se pior que este existisse.

O terror já não mora apenas nas matas. Está no Parlamento, nos quartéis, nos tribunais, nas redações amordaçadas, nos campos de deslocados, nas páginas manipuladas dos jornais oficiais. Aqui, a linha entre criminoso e governante está desfeita, tal como a diferença entre terrorista e militar, jornalista e inimigo do Estado. Estamos num ciclo apocalíptico onde os senhores da guerra de amanhã são gestados, alimentados e perdoados pelo próprio Estado que deveria combatê-los, se fosse, de facto, um Estado.

E enquanto não haver em Moçambique a prevenção, a investigação, o julgamento e a justa condenação dos crimes de guerra, e por força disso exímios bandidos continuarem a beneficiar de conversações luxuosas, amnistias por conveniência, programas de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração (DDR) com status político-estatal e económico cheio de mordomias, segurança paga pelo erário, títulos honoríficos universitários e prémios internacionais, o terrorismo — sob outros nomes, fardas e partidos — sempre haverá.

Fontes Consultadas:

1. Carta de Moçambique, “Estado Islâmico reivindica morte de 30 soldados em Macomia”, 5 de Julho de 2025.

2. Cabo Ligado Weekly Report, Julho 2025.

3. Integrity Moçambique, “Militares acusados de matar pescadores em Pangane”, 7 de Julho de 2025.

4. Carta de Moçambique, “FDS intimidam jornalistas em Macomia”, 7 de Julho de 2025.

5. OCHA/ONU, “Crise Humanitária no Norte de Moçambique”, 7 de Julho de 2025.

6. MISA-Moçambique, “Carta ao Ministro da Defesa Nacional”, Junho–Julho de 2025.

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