Sociedade

Fome, miséria e morte

Foto: Estacio Valoi/ Centro de deslocados Megaruma

 

Megaruma  Centro de deslocados  internos de guerra -Cabo Delgado

Por Estacio Valoi

No meio do festival de ataques insurgentes que vão sendo registando quase que diariamente na Província de Cabo Delgado com destaque para os distritos a centro e com enfase mais a cima no teatro operacional Norte e por vezes a sul nas suas incursões quando atravessam ao distrito de Chiuri onde faz poucos meses os insurgentes protagonizam mais um ataque aumentando o já assustador número de deslocados de guerra que a Província tem e uma grande concentração no centro de deslocados de Megaruma.

 

 Lista do número de deslocados

Estes foram dados colhidos no centro pelo Moz24h no dia12 de Setembro do corrente ano depois de uma saída de Pemba por volta das 7h30 a Megaruma. Pelo caminho, apesar das muitas cores alegres das vestimentas das pessoas pelas comunidades por onde passávamos ao mesmo tempo constatávamos uma presença de forcas de defesa de varia ordem nos postos de controle de Metuge, de Silva Macua e mais adiante enquanto tentávamos fintar as crateras que ‘e a estrada e com os miúdos de sempre, os tapa buracos a troco de 5, 10 meticais que substituíram faz tempo a inexistentes  Agencia Nacional de Estradas (ANE). De longe, apesar da robustez das suas viaturas, também a fintar buracos, surgiam viaturas, umas 20 ou mais com, Land Cruzes, Tata, …era um batalhão Ruandês que entrava a caminho da cidade de Pemba depois de uma temporada no teatro operacional norte, isto depois do ataque do dia 7 de Setembro sobre Mocímboa. A nossa equipa, também ia tentando monitorar a viagem, afinal não foi só uma vez que os terroristas estiveram em Intitupo ou cruzaram estrada a sul ou na estrada a cobrar resgate, queimar carros, etc.

Foto: Estacio Valoi

 

Campo de deslocados de Megaruma

Mas é das centenas de deslocado de guerra que vivem naquele campo onde falta quase tudo apesar de algum apoio de certas organizações “uma vez em cada três meses’ segundo disseram deslocados no centro!

A entrada, logo a esquerda depois da ponde sobre o rio Megaruma, pela estrada de terra batida a fugir para um castanho cinzento ou um cinzento, como os tantos dias cinzentos de  incerteza que aquelas pessoas vivem. Vinte metros adentro vislumbram-se corredores carregados de pessoas. Na nossa chegada conversávamos com o representante do campo a quem  apresentamos as nossas credencias A dada altura, começo a caminhar, e minutos depois   estava na equipa de  voleibol com a turma do centro. Enquanto continuava com a caminhada, a minha esquerda, estava uma casa apinhada de gente, mulheres com bebes no colo.  Pensei eu que fosse o posto de saúde. Engano meu, era uma casa como outras onde elas concentram-se sempre que amanhece!  Panelas, lenha, as mulheres tentam cozinhar o que não tem.  Um conjunto de  panelas  ao estilo  do jazz, tipo desorganizadas na organização.

Zita, deslocada interna, faz parte desse grupo de mulheres que se reúnem todas as manhãs reconfirma que chegaram muitas mulheres e crianças “ Chegámos muitos. Tantos que nem consigo contar. Foi uma chegada em massa. Recebemos comida duas vezes. Mas nem todos foram contemplados. Alguns receberam pouco, outros nada. Houve casos em que os produtos foram devolvidos, e não chegaram a ser distribuídos. Viemos de Chiúre-Velho, no dia 1. Saímos da sede da vila de Chiúre, em Namociro, e chegámos aqui num camião. Não temos panelas. Sofremos para preparar o pouco que conseguimos. Às vezes arriscamos voltar à zona insegura, lá em casa, para buscar ervilha ou mandioca seca. Outras vezes pedimos ajuda aqui na comunidade local. Não há espaço para fazermos machambas. Vivemos apenas de peditórios. Não temos terra nem ferramentas para cultivar. Sobreviver .Arriscamos mesmo assim. Voltamos para casa, mesmo sendo longe e perigoso. Ficamos lá alguns dias, tentamos cultivar alguma coisa, e depois regressamos. Nem chegamos a passar uma semana. É muito longe e difícil. Não temos meios nem segurança para isso” Disse Zita

Foto: Estacio Valoi/ Centro de deslocados Megaruma

 

Ate para nos atrasar ou impedir, enquanto reportávamos sobre os milhares de deslocados fomos  interpelados por dois funcionários sendo um do Instituto Nacional  de Gestão de Desastres e uma da Organização Internacional de Migração (OIM) que se disseram responsáveis do Campo que exigiram nos credencias,, queriam que conduzíssemos uns 30 ou mais quilómetros do centro de deslocados ate a vila cede de Chiuri para nos apresentarmos ao governo local, ainda mesmo antes da nova lei da comunicação social armadilhada que constitui uma clara violação da liberdade de imprensa assim como de informar! Parece que também  nos será exida a carteira de jornalistas pelo chefe do posto, OIM e outros ou a guia de marcha!

 

Alberto Tádeu Alberto ‘e o chefe do centro de deslocados de Megaruma o qual vive no centro  depois de ter abandonado Mocímboa da Praia desde  2020 para 2021.

.  Tadeu foi encontrado de surpresa quando numa das fotos que foram postas a circular pelas redes socias desde Mocímboa praia ,sobre o ataque insurgente do dia 7 de Setembro, viu na numa das fotos o rosto ,a cabeça  do seu irmão atirada ao chão. Um Centro onde segundo Alberto falta  assistência para as famílias deslocadas.

“Para nós antigos, do ciclone Chido no dia 15 e até hoje dia 12 de Setembro, já vimos uma assistência do programa mundial de Alimentação( PMA) que fez a distribuição para as novas entradas de famílias do dia 1 de agosto e não para as antigas famílias. E, existem outras famílias que vieram aqui a pé, e aquelas famílias ainda não receberam nada desde o dia que eles aparecem aqui. As famílias que estão aqui saíram nas aldeias diferentes, depois de fugir à guerra lá chegaram no ponto trânsito de Miconi ou Namissir Chiuri sede, depois de Namissir o governo fez o levantamento de dados e os da SDPI também confirmaram… depois levaram as famílias para o Centro de reassentamento de Megaruma. ” Alberto

 

No centro falta quase tudo desde medicamentos e, segundo Alberto  meses atras uma brigada movel dos Médicos Sem Fronteira esteve no centro. “ Trabalhou aqui duas semanas e meia  e depois parou! Até hoje já não aparece a brigada móvel, já não temos assistência de saúde!” Disse Alberto

 Quando se fala do precioso liquido, a situação ‘e menos dramática. No local tem  quatro  bombas de agua financiadas por diferentes parceiros  mas não tem outros meios de produção como “para fazer agricultura, catana, enxadas, sementes também porque nesse ano aqui sofremos de ciclone Chido, então não temos muitas sementes, então é melhor nos beneficiar dessa forma aí.” Assim o líder do centro clama pelo apoio para a sua comunidade!

E cansado de ficar a espera de uns quilos de farinha , ervilha, óleo que muitas das vezes só da para dois dias dependendo do numero de famílias alargadas, segundo Alberto estes instrumentos são de máxima urgência .” Nós precisamos disso! Não podemos todo tempo só confiar as organizações virem nos apoiar, devemos abrir nossas machambas, e, os parceiros virem só nos dar sementes, dar enxadas, e fazer também a construção dos abrigos porque nós basicamente vivemos num abrigo!” enfatizou Alberto

Enquanto andava pelo centro, encontrei-me com um grupo de três jovens .Filipe Afonso Dauce dos seus 19 anos, Pikinu Mariamo também de 19 anos e Galibo André dos seus 21 anos e  frequenta a 8ª classe.. Todos estudam na mesma escola improvisada no centro. Um veio de Ancuabe outro de Nassivare, todos forcados pela insurgência a abandonar suas terras! “Então na hora em que os insurgentes entraram lá, nos refugiamo-nos para aqui em Megaruma. Mas aqui mesmo, já tinham vindo nos apoiar, primeiro com 4 quilos de arroz , óleo 2 litros e haviam trago outras coisas como penso, roupas, e kits que recebemos.Na segunda via haviam trago arroz de 24 kilos, lonas, baldes.”

 

Para estes no centro os dias são cinzentos comparativamente ao que faziam nas suas casas, comunidades!

 

Foto: Estacio Valoi/ Centro de deslocados Megaruma

 

“ Nós aqui quando pedimos comida, não temos, a comida que haviam trazido acabou. E até este momento, as mulheres, crianças estão a sofrer, adoecer… aqui passou uma semana, sem que trouxessem nem médicos, está se adoecer. Nós aqui temos tido malárias e não conseguimos ir à vila, não temos comida” Disse  Dauce

André, que fugiu de Ancuabe  de “ 2018 e até agora 2025, recebemos apoio até 2020 e terminamos por aí. Os brancos que atualmente vêm aqui, lá para Chiure, Mazeze, dizem que as pessoas que vieram e vêm aqui há muito tempo não têm como suprir a todas elas…E o melhor é tentarmos cultivar/agricultura. Mas nós quando tentamos cultivar, os donos não nos dão lugares, há falta de lugares para cultivar.

Então pedimos aos brancos que nos pegassem, ajudassem. E assim quando vimos que eles já não vêm, ficamos surpresos e Arrasca, não sabemos o que fazer visto que quem nos trouxe para cá, foram eles, Já daí é que ficamos sem meios, Arrasca.” Dizem os três jovens

E acrescentam que  “A comida, o dinheiro que haviam nos dado há muito tempo, já acabou.Agora só comemos mandiocas lá nas matas, porque não temos o que comer, então nós pedimos aos brancos que façam maneiras porque estamos mal. Aqui não tem projeto que possa nos ajudar a trabalhar , formação e  pagar. Este projeto que eu estou, há um projeto que estou, mas não se paga nada, só sabem toda vez que vêm trazer take aways e distribuir-nos, e essa ser a forma de pagar-nos e prontos, e nós não sabemos nada, só fazemos aquele trabalho. Já as nossas mães estão mal com as crianças, e nós jovens dessa idade estamos e  não passávamos mal  nossa terra, Ancuabe, queimávamos árvores/troncos que se tornavam carvão, tínhamos outros trabalhos nas machambas, construíamos casas… Já a partir do momento que viemos aqui, essas machambas que aqui encontramos são proibidas, há dificuldades de ter dinheiro e não sabemos onde ter o dinheiro.”!

Foto: Estacio Valoi/ Centro de deslocados Megaruma

 

Minage António, 34 anos, pai de seis filhos, deslocado interno, também com os seus eis filhos vivem em condições estremas, mesmo com a sua barraca, que são uns quatro paus pique , em saco -teto a propor-lhe uma sombra sempre levada pelos raios solares, tem o seu saco também estendido no chão onde de molhinhos de cebola vai tentando cobrir o chão e um banquinho com umas sucatas de celulares a espera de serem reavivados ou enviados diretamente para a morgue. “Este celular já morreu.” Diz Mirage de olhos esbugalhados, nostalgia da sua zona de origem que deixou para trás sem saber quando voltara a por os pés juntamente com os seus seis filhos!

E, de pés juntos Mirage, não pensa no  regresso as origens “Está vida é de sofrimento. Tento vender cebola para conseguir algum sustento, mesmo sabendo que não é suficiente. Mas pelo menos garante alguma coisa. Fugi no dia 1 de agosto, juntamente com a minha família, por causa dos ataques terroristas. Desde então, estou aqui a tentar sobreviver com este pequeno negócio, que me ajuda aos poucos. Já não penso em regressar. Nem desejo voltar, porque quero esquecer o sofrimento e a guerra de lá. O que eu gostaria era de receber apoio para construir uma casa aqui, onde me sinto seguro. Também seria importante receber ajuda financeira para podermos comprar bens essenciais e evitar pensamentos negativos.”

Os ataques, esses , tornaram se num festival diário sob comunidades em Cabo Delgado onde os terroristas passeiam sua classe, andam a seu bel prazer, atrevidos, seguros. De 8 de setembro de 2025 ate 15 de setembro de 2025 a vaga de ataques em cabo Delgado parou e Insurgentes espalhando  terror  perante a fragilidade do Governo Moçambicano

 Na noite de quinta-feira até às primeiras horas de sexta-feira, insurgentes protagonizaram uma nova vaga de violência que começou na mina de Ravia, no distrito de Meluco, e se estendeu até diversas aldeias do distrito de Ancuabe, em Cabo Delgado em Muako Nicuita, onde raptaram 14 pessoas que se encontravam nas proximidades das aldeias de Nanoa, Nicuita e Macaia. De seguida os insurgentes atacaram a mina de Napala e os garimpeiros cada um entregue a sua sorte. Ainda em Ancuabe- Metoro, 26 homens armados não identificados  que se faziam transportar num  camião contentor foram interpelados e conduzidos a cidade de Pemba. Do alto, na vila de Mocímboa da Praia a População contestava o comportamento da Forças de defesa Nacional e apelava pela permanência ruandesa.  O festival de ataques insurgentes continua e de Mocimboa,hoje , mais uma vez, milhares de famílias entre a dor, o medo, levam no seu colo criancas, panelas, colchoes..levam o que podem!

https://moz24h.co.mz/insurgentes-mais-uma-vez-atacam-mocimboa-da-praia/

https://moz24h.co.mz/mocimboa-da-praia-quase-deserta-apos-ataque-que-matou-cinco-pessoas/

 

 

 

 

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