Sociedade

Igreja Católica chora pelas suas terras e edifícios depois de entregar tudo

 

Por Quinton Nicuete

A Arquidiocese de Nampula ergueu finalmente a voz, em tom de apelo desesperado, para denunciar um processo que classifica de roubo descarado e institucionalizado das suas terras e património. O arcebispo de Nampula e presidente da Conferência Episcopal de Moçambique, Dom Inácio Saúre, deixou claro que o que está em curso não são meras ocupações irregulares, mas sim uma ofensiva organizada contra a Igreja Católica, incentivada, segundo o próprio por “uma mão poderosa invisível”, composta por indivíduos “intocáveis” que actuam acima da lei.

Em conferência de imprensa em Nampula, marcada por indignação e palavras duras, o prelado relatou episódios que soam a autêntico saque, muros de vedação destruídos, culturas agrícolas devastadas e infraestruturas privadas da Igreja transformadas em propriedade pública ou, pior, em posse privada de cidadãos encorajados a desafiar abertamente a legalidade.

“A lei parece que já não serve nesta terra. Parece que alguém quer transformar Moçambique numa aldeia sem lei”, disparou Dom Inácio, num grito de revolta que ecoa muito para além das paredes da arquidiocese.

Entre os exemplos citados, estão o seminário onde funcionavam cursos propedêuticos e filosóficos, invadido e mutilado por populares incentivados por figuras de influência, a infraestrutura cedida verbalmente ao Estado pelo falecido arcebispo Dom André Virapinto e nunca devolvida, a paróquia de São Pedro de Napipine e até o Hospital Geral de Marrere, onde o papel da Igreja foi reduzido a quase nada, apesar de ser fundadora do espaço.

A acusação mais grave, no entanto, dirige-se ao silêncio cúmplice das autoridades locais. A arquidiocese afirma ter levado o caso ao município e ao governador, sem qualquer resposta concreta. A via judicial, acrescenta, revelou-se um beco sem saída, refém da mesma engrenagem de interesses obscuros que protege os ocupantes ilegais.

Dom Inácio não poupou nas palavras. “Estamos perante criminosos encorajados a agir como donos de terras que não lhes pertencem. São intocáveis, protegidos, e a Igreja vê-se reduzida à condição de pedinte no seu próprio território.”

O apelo, agora, é dirigido não apenas às autoridades, mas a toda a sociedade moçambicana e à comunidade internacional. “O que está em causa não é apenas a propriedade da Igreja, mas a sobrevivência do Estado de Direito”, vincou o arcebispo.

O clamor da Igreja Católica em Nampula expõe um escândalo que não é apenas religioso, mas profundamente político e social: o da apropriação de terras e bens com a complacência do poder público. A questão que fica é simples e brutal. se até a Igreja é despojada das suas terras sem que a lei funcione, que esperança resta ao cidadão comum? Moz24h

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *