O pesadelo energético de cerca de centena de famílias no Bairro Eduardo Mondlane, em Pemba
Por Estacio Valoi
Enquanto o Presidente Daniel Chapo exalta Moçambique como um emergente pólo energético da África Austral, apresentando projectos multibilionários em Abu Dhabi, a realidade no Bairro Eduardo Mondlane, em Pemba, é de um pesadelo eléctrico: centena(s) de residentes sofrem com um fornecimento de energia de péssima qualidade que queima electrodomésticos e mergulha as ruas na insegurança, expondo a amarga verdade de que a luz é para exportar, e não para illumminar as suas casas.
Parece que só o dólar importa.
A 13 de Janeiro do corrente ano, em Abu Dhabi, o Presidente da República, Daniel Chapo, apresentou Moçambique como um dos mais promissores pólos energéticos e logísticos da África Austral. Num discurso marcado por ambição e optimismo, falou de projectos estruturantes avaliados em cerca de 50 mil milhões de dólares norte-americanos, apontando-os como motores do crescimento económico, da industrialização e da integração regional.
Na reunião de alto nível, realizada à margem da Semana de Sustentabilidade de Abu Dhabi, nos Emirados Árabes Unidos, Chapo destacou o potencial estratégico do país nos sectores da energia, dos corredores de desenvolvimento e da digitalização, reiterando o apelo ao investimento estrangeiro.

Cá dentro, porém, a realidade soa diferente.
Através da rádio, da televisão e de outros órgãos de comunicação social, cuidadosamente seleccionados para cobrir o evento, os cidadãos foram sendo expostos a uma narrativa de progresso e oportunidade. Mas, no terreno, a percepção é outra.
“É tudo para exportação. Aqui nada!”, desabafa Antoninho, morador do Bairro Eduardo Mondlane – Expansão, em Pemba. “Até a energia eléctrica chega aos bocadinhos.”
Com olhar crítico, acrescenta: “A rede eléctrica está um desastre. Mesmo com a expansão, o que chega aqui não tem qualidade.”
A expansão da rede eléctrica em Pemba, capital de Cabo Delgado, enfrenta, de facto, desafios significativos. O rápido crescimento populacional e o surgimento de novas zonas habitacionais pressionam uma infra-estrutura já fragilizada. A Electricidade de Moçambique (EDM) aponta esforços na reposição de infra-estruturas após ciclones e na extensão do acesso a áreas periféricas. Ainda assim, a realidade no terreno denuncia um sistema instável.
Avarias constantes e intervenções frequentes na rede têm provocado cortes sucessivos de energia, afectando a regularidade do fornecimento em vários bairros.
No Bairro Eduardo Mondlane – Expansão, conhecido como “zona das irmãs”, para o continente, a primeira rua em frente ao campo, a rua de trás, são cerca de 10 casas com ligações ao mesmo poste de energia, dois únicos que por ali existem, um problema que se extende até a zona do Colégio Bingo ,indo quase a pensão ‘Embraia,” a electricidade deixou de ser um benefício para se tornar num problema.
A energia chega — mas chega mal.
Ora com picos de tensão que danificam electrodomésticos, ora tão fraca que mal consegue alimentar uma simples ventoinha. Pelo meio, longos períodos de escuridão.
“Queimaram quase todos os aparelhos cá em casa: congelador, liquidificador…”, relata um morador. “A EDM nunca compensou nada. Mas a factura chega sempre.”
O resultado é um ciclo silencioso de empobrecimento. Famílias que investiram em electrodomésticos, confiantes na chegada da electricidade, vêem agora esses bens inutilizados.
“Estou farto de comprar lâmpadas. Todos os dias queima uma”, diz outro residente. “O congelador está parado. Esta energia não serve.”
A frustração é partilhada por muitos.
Dona Anifa, por exemplo, deixou de produzir os seus bolinhos de coco. E questiona! Afinal essa energia que era para mudar as velas de iluminação, os vulgos xipefos carbonizados pelo diesel, petróleo a fumegarem por todos os lados. O forno, outrora fonte de rendimento, está agora inactivo. “Aqui já não dá. Vivemos no escuro. Há roubos quase todos os dias”, conta. “As ruas não têm iluminação. Mal se consegue andar à noite.”
E questiona, com indignação: “Era esta a energia que vinha substituir as velas? Isto é desenvolvimento?”
Os próprios moradores afirmam ter contribuído financeiramente para a instalação de cabos eléctricos, apenas para receberem, em troca, um serviço precário. “Antes, ao menos sabíamos que não tínhamos energia. Agora temos… mas não serve para nada. Os alimentos estragam-se. Tudo se perde.”
O contraste com o discurso oficial é gritante.
Anos antes, em 2020, o então Presidente Filipe Jacinto Nyusi, com pulmões cheios, anunciava, em Pemba, o ambicioso programa “Energia para Todos”, prometendo levar electricidade a mais de 10 milhões de moçambicanos. Um terço da população teria acesso à energia pela primeira vez, apoiado por um financiamento de 250 milhões de dólares.
Hoje, a promessa parece distante para muitos.
Enquanto isso, Moçambique continua a exportar energia. Em 2025, apesar de uma queda de 41% nas exportações — atribuída à seca e à redução da capacidade da Hidroeléctrica de Cahora Bassa —, o país arrecadou cerca de 275 milhões de euros com a venda de electricidade ao exterior.
Paradoxalmente, comunidades próximas de infra-estruturas energéticas continuam sem acesso digno à energia.
Na província de Tete, a poucos quilómetros da barragem de Cahora Bassa, há ainda populações sem electricidade, enquanto linhas de alta tensão cruzam o território rumo a países vizinhos.

A energia de qualidade sai. A de baixa qualidade fica.
Projectos futuros, como a barragem de Mphanda Nkuwa, com capacidade prevista de 1500 megawatts, prometem reforçar a produção energética nacional e abastecer mercados regionais, incluindo África do Sul, Zâmbia, Zimbabué, Maláui e Essuatíni. A meta é atingir 4000 MW de capacidade instalada até 2034.
Mas, para muitos moçambicanos, a questão é mais imediata: quando é que a energia vai, de facto, servir quem vive no país?
De volta ao Bairro Eduardo Mondlane – Expansão, a realidade impõe-se sem filtros.
À noite, a escuridão domina. A insegurança cresce. Ruas esburacadas tornam-se armadilhas invisíveis. Mesmo com apoio de vizinhos, deslocar-se após o pôr-do-sol é um risco.
A esquadra policial mais próxima fica a cerca de dois quilómetros. Longe demais para quem vive diariamente na incerteza.
Entre bebés, idosos, mulheres grávidas e trabalhadores, a vida segue num equilíbrio precário — onde a electricidade, em vez de progresso, se tornou sinónimo de frustração.
Sobre esta questão, faz duas semanas o Moz24h contactou a EDM Pemba que disse que iria ao terreno, que não estava a par do que esta a acontecer. Ate o Momento da nossa publicação a EDM ainda não se tinha feito ao terreno. Continuaremos a seguir o caso.
E, no silêncio da noite, fica a pergunta que ecoa entre os moradores: afinal, energia para quem?

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