Por Quinton Nicuete
Durante anos, investimentos internacionais ajudaram a reforçar a resposta ao HIV e outros serviços essenciais de saúde em Moçambique, apoiando desde laboratórios e unidades sanitárias até actividades comunitárias de acompanhamento de pacientes e promoção da saúde. Hoje, mudanças no financiamento desses programas estão a gerar preocupação entre profissionais de saúde, organizações comunitárias e pacientes que dependem destes serviços.
Em Cabo Delgado, uma província marcada pelo conflito armado, deslocamentos populacionais e grandes desafios de acesso aos cuidados de saúde, muitos receiam que parte dos avanços alcançados ao longo dos últimos anos possa ficar em risco.
Carolina Francisco, Enfermeira de Saúde Materno-Infantil, conhece bem esta realidade. Em comunidades remotas do distrito de Metuge, onde muitas famílias vivem longe das unidades sanitárias, os efeitos destas mudanças começam já a ser sentidos. “Com esse corte, praticamente a comunidade ficará desprotegida. Não terá os serviços básicos de saúde”, alerta Carolina Francisco, integrada numa brigada móvel em Metuge.
Sentada debaixo de uma estrutura improvisada, Carolina descreve os desafios de prestar assistência em zonas afastadas das unidades sanitárias. Durante anos trabalhou com brigadas móveis que levavam serviços de saúde a comunidades onde o acesso aos cuidados continua condicionado pela distância, pelo estado das estradas e pelas limitações dos meios de transporte. “Há crianças que nunca completaram as vacinas porque vivem muito longe da unidade sanitária. Com estas brigadas conseguimos chegar até elas”, explica.
Segundo a enfermeira, algumas famílias precisam caminhar várias horas para alcançar um centro de saúde. Em certas zonas, sair às quatro da manhã significa chegar apenas perto das oito horas. “Há muita necessidade de continuar estas brigadas móveis”, insiste.
Foto Quinton Nicuete
No final do ano passado, a gestão das brigadas móveis foi formalmente integrada nas estruturas provinciais de saúde, num processo de transição que procurou reforçar a apropriação e sustentabilidade destas actividades pelo sistema público. Para Carolina, esse é um passo importante. Ainda assim, alerta para a importância de preservar outros mecanismos de apoio que continuam a ajudar as comunidades mais vulneráveis a manter a ligação aos serviços de saúde.
Quando os cortes silenciam a resposta, o sistema sente
A preocupação não se limita às brigadas móveis. Em Cabo Delgado, a resposta ao HIV depende também de uma rede de apoio que liga as unidades sanitárias às comunidades, permitindo acompanhar pacientes, reforçar a adesão ao tratamento e identificar precocemente situações de abandono dos cuidados.
Os cortes afectaram particularmente conselheiros comunitários, activistas, digitadores e equipas de apoio que actuam no acompanhamento de pacientes com HIV/SIDA, buscas activas e reintegração de pessoas que abandonavam o tratamento antirretroviral. https://moz24h.co.mz/trabalhadores-da-fundacao-ariel-glaser-contestam-cessacao-de-contratos-e-exigem-garantias-laborais-em-cabo-delgado/
Foto Quinton Nicuete
Florêncio Clésio Manuel, técnico de medicina preventiva na brigada móvel, explica que conselheiros comunitários e equipas de apoio desempenhavam um papel importante no funcionamento diário dos serviços. “Os conselheiros ajudavam no controlo das fichas, na localização de pacientes e no acompanhamento daqueles que tinham faltado às consultas”, conta.
Segundo o técnico, este trabalho permitia identificar pessoas em risco de abandonar o tratamento e reforçar a continuidade dos cuidados. Todavia, nos últimos meses, parte destas actividades foi reduzida. “Agora há muita enchente nas unidades sanitárias. Antes, os conselheiros ajudavam bastante. Hoje, muitos destes processos passaram a ser assumidos pelos próprios profissionais de saúde”, relata.

Os receios manifestados por profissionais de saúde e comunidades surgem num contexto em que a resposta ao HIV em Cabo Delgado registou progressos significativos ao longo dos últimos anos.
Parte destes avanços resultou de um esforço conjunto envolvendo autoridades sanitárias, profissionais de saúde, organizações comunitárias e parceiros de desenvolvimento.
Uma Victoria em risco
Entre estes parceiros encontra-se a Fundação Ariel Glaser Contra o Sida Pediátrico, organização moçambicana que há cerca de 15 anos trabalha em parceria com o Ministério da Saúde para fortalecer os serviços de saúde e expandir o acesso aos cuidados em populações vulneráveis.
Em Cabo Delgado, parte deste trabalho foi desenvolvido através do Projecto Victoria, implementado pela Fundação Ariel Glaser em parceria com o Ministério da Saúde e financiado pelo Plano de Emergência do Presidente dos Estados Unidos para o Alívio da SIDA (PEPFAR), através dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC).
Ao longo dos últimos cinco anos, o projecto apoiou 10 distritos e 34 unidades sanitárias da província. Durante os últimos cinco anos, mais de 3,1 milhões de pessoas foram testadas para o HIV, permitindo identificar cerca de 77 mil novos casos positivos. Mais de 81 mil pessoas iniciaram tratamento antirretroviral, enquanto cerca de 82 mil permaneceram em seguimento terapêutico. A taxa de retenção atingiu 94%.
Na área da prevenção da transmissão vertical, mais de 445 mil mulheres grávidas foram testadas para o HIV. Cerca de 28 mil receberam diagnóstico positivo e foram encaminhadas para tratamento.
Para além do apoio às unidades sanitárias, parte destes resultados foi alcançada através de parcerias com organizações comunitárias de base responsáveis por levar informação, apoio e acompanhamento às comunidades mais afastadas.
Uma dessas organizações é a Associação Nthuge Biz, que colaborava com a Fundação Ariel Glaser através de um subacordo para implementação de actividades comunitárias relacionadas com prevenção, adesão ao tratamento e combate ao estigma associado ao HIV.
Foto Quinton Nicuete
Aquimo Augusto Aquimo, activista da associação, recorda que, em algumas comunidades, persistiam mitos e ideias erradas sobre o HIV. “Havia pessoas que acreditavam que o preservativo fazia mal ou que quem tinha HIV não podia conviver normalmente com os outros.”
Ao longo dos anos, os activistas ajudaram a criar núcleos comunitários, promover sessões de diálogo e apoiar a reintegração de pacientes que tinham abandonado o tratamento. “Quando encontrávamos um paciente que abandonou o tratamento, íamos conversar com ele em casa, explicar os riscos e tentar reintegrá-lo”, relata Hélder Fernando, também activista da associação.
Tal como outras organizações comunitárias envolvidas na resposta ao HIV, a Nthuge Biz poderá também sentir os efeitos das mudanças recentes no financiamento, levantando preocupações sobre a continuidade de actividades que ajudavam a manter a ligação entre as comunidades e os serviços de saúde.
Para muitas pessoas vivendo com HIV, estes mecanismos de apoio representavam mais do que um complemento aos serviços de saúde. “Eles ajudavam muito. Tinham paciência para nos explicar, orientar e acompanhar”, conta Verónica António, residente na aldeia Walopuana. A preocupação é partilhada por Joanina Badae, de 65 anos. “Eles ajudavam muito nas mensagens, na orientação e no acompanhamento.”
‘’A maior conquista não são os números, mas as pessoas conhecerem o seu estado serológico’’
Segundo Marília Heidemann Vida, directora provincial da Fundação Ariel Glaser em Cabo Delgado, os resultados alcançados reflectem anos de trabalho conjunto entre comunidades, profissionais de saúde, autoridades sanitárias e parceiros de desenvolvimento. “A maior conquista não são apenas os números. É o facto de mais pessoas conhecerem o seu estado serológico, iniciarem tratamento e permanecerem em cuidados, mesmo em contextos marcados por grandes desafios de acesso”, afirma.
Para profissionais de saúde e líderes comunitários, a principal preocupação não está apenas na redução de algumas actividades, mas no impacto que isso poderá ter sobre os progressos alcançados ao longo dos últimos anos.
Num contexto em que milhares de pessoas continuam a depender de mecanismos comunitários para aceder a informação, apoio e acompanhamento, muitos defendem que preservar os avanços alcançados exigirá um esforço contínuo de colaboração entre o Governo, as comunidades e os parceiros que apoiam o sector da saúde.
Em Cabo Delgado, onde anos de investimento ajudaram a aproximar os cuidados de saúde de algumas das populações mais vulneráveis, o desafio passa agora por garantir que os progressos alcançados continuem a traduzir-se em melhores oportunidades de diagnóstico, tratamento e acompanhamento para quem mais precisa.
Especialistas alertam que qualquer interrupção prolongada destas actividades poderá comprometer os avanços alcançados na resposta ao HIV/SIDA em Cabo Delgado, sobretudo em distritos com maiores desafios de acesso aos cuidados de saúde, como Metuge, Nangade e Mueda.
Em distritos como Metuge, onde milhares de deslocados internos continuam a depender da assistência humanitária, técnicos de saúde alertam que a redução do apoio pode comprometer anos de avanços no combate ao HIV/SIDA.
Enquanto isso, nas comunidades mais distantes, brigadas móveis continuam a percorrer estradas de terra batida para garantir vacinas, consultas e medicamentos. Para Carolina Francisco, interromper esse apoio significaria deixar milhares de pessoas para trás. “Estas comunidades precisam continuar a ser assistidas”, resume. (Moz24h)

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