Texto: Cleusia Chirindza
A recente classificação da consultora internacional Oxford Economics, que coloca Moçambique entre as economias mais arriscadas de África, reacendeu o debate sobre a sustentabilidade macroeconómica do País e os desafios estruturais que continuam a influenciar a confiança dos investidores internacionais. Na publicação, a entidade britânica destaca que Moçambique surge com mais de 75 pontos, a pontuação mais elevada entre as 25 nações analisadas.
No relatório, o Maláui e o Zimbabué ocupam a segunda e terceira posições, respectivamente, enquanto Angola aparece no sétimo lugar, apontando ainda vulnerabilidades associadas à dívida pública, à fragilidade cambial e à redução das reservas internacionais, factores que têm pressionado a estabilidade económica.
Ainda assim, economistas entrevistados pelo Diário Económico defendem que a avaliação deve ser analisada com “cautela”, pois nem todos os indicadores reflectem necessariamente uma situação de crise profunda. Para o economista e docente na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), Moisés Nhanombe, a classificação representa sobretudo um sinal de alerta sobre os riscos macroeconómicos, mas não um diagnóstico definitivo sobre a economia nacional.
“A avaliação da Oxford Economics deve ser interpretada com cautela. A pontuação baseia-se em indicadores de risco macroeconómico, fiscal, cambial e político que revelam vulnerabilidades, mas isso não significa necessariamente que Moçambique esteja numa situação mais crítica do que todos os países africanos”, explicou.
Segundo Nhanombe, algumas economias do continente africano enfrentam crises estruturais mais profundas, como é o caso do Sudão, frisando que a percepção de risco em relação a Moçambique resulta também de factores conjunturais e expectativas de mercado, “não podendo ser assumida como um diagnóstico definitivo”.

Pressão da dívida pública e impacto na confiança dos investidores
Contudo, o interveniente chamou a atenção para a fraca gestão da dívida pública que tem sido um dos principais factores de vulnerabilidade macroeconómica em Moçambique, recordando que, após a crise das chamadas “dívidas ocultas”, a credibilidade fiscal do Estado foi afectada, limitando o acesso ao financiamento externo em condições favoráveis e aumentando a dependência de apoio de instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI).
De acordo com o economista, um dos principais desafios actuais continua a ser o peso do serviço da dívida sobre as finanças públicas, esclarecendo que “quando grande parte das receitas do Estado é destinada ao pagamento de juros e amortizações, reduz-se o espaço fiscal para investimentos essenciais, como infra-estruturas, saúde e educação, o que pode limitar o crescimento económico”.
“Além disso, níveis elevados de endividamento aumentam a percepção de risco dos investidores, podendo pressionar a taxa de câmbio e favorecer a desvalorização do metical”, disse, tendo elucidado que a dívida pública não é necessariamente um problema insolúvel quando gerida com transparência, sustentabilidade fiscal e maior eficiência do gasto público, “podendo inclusive financiar investimentos produtivos e apoiar o desenvolvimento económico.”
Seguindo a mesma linha de ideias, o economista e analista Clésio Foia afirmou que relatórios internacionais que classificam economias como mais arriscadas podem ter impacto directo no comportamento dos mercados financeiros e dos investidores.

“Quando um país é classificado com elevado risco, os investidores internacionais tendem a ser mais cautelosos, o que pode reduzir a confiança e tornar o financiamento externo mais caro para o Estado e para as empresas”, explicou.
Na sua explanação, elucidou que a percepção de risco pode levar instituições financeiras a exigir taxas de juro mais elevadas ou garantias adicionais para conceder financiamento a projectos no País. “Pode haver maior selectividade por parte dos investidores, que passam a privilegiar sectores considerados mais seguros, como a indústria extractiva, deixando outros sectores com menor capacidade de atrair investimento”, acrescentou.
Foia avançou ainda que essa dinâmica pode reforçar o fenómeno conhecido como “economia de duas velocidades”, em que megaprojectos ligados aos recursos naturais apresentam forte dinamismo, enquanto os sectores como agricultura, indústria transformadora, comércio e serviços continuam com crescimento limitado.
Desvalorização do metical pode pressionar inflação
Outro ponto de preocupação é a possibilidade de uma forte desvalorização da moeda nacional. Embora não represente necessariamente uma nova crise económica, a depreciação cambial pode ter impactos significativos sobre a inflação e o custo de vida.
No mais recente relatório, a Oxford Economics avançou que antevê uma desvalorização do metical de cerca de 25% até ao final do ano. Contudo, previsão igual já havia sido feita em Janeiro quanto a consultora alertou que Moçambique poderá enfrentar uma desvalorização gradual, como resposta à acentuada escassez de reservas em moeda externa e à sobrevalorização cambial que tem marcado os últimos anos.
Na altura, a instituição afirmou que a correcção cambial no País poderia ser uma das condições exigidas no âmbito das negociações para um novo acordo de financiamento com o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Neste sentido, os economistas ouvidos pelo DE destacaram que, numa economia fortemente dependente de importações — especialmente de combustíveis, alimentos e bens intermédios —, a desvalorização do metical tende a encarecer produtos importados e pressionar os preços no mercado interno. “A depreciação cambial pode aumentar o custo do serviço da dívida externa, agravando as restrições fiscais e aumentando a percepção de risco dos investidores”, frisaram.
Gás natural pode melhorar perspectivas
Apesar dos riscos apontados, os economistas reconhecem que o potencial do gás natural pode alterar significativamente as perspectivas económicas do País nos próximos anos, destacando que os projectos de exploração no Rovuma têm potencial para aumentar as exportações, gerar receitas fiscais significativas e reforçar as reservas internacionais, contribuindo para melhorar a balança de pagamentos.
Moisés Nhanombe recordou que o País ainda enfrenta desafios como baixa diversificação produtiva, dependência de megaprojectos, fragilidades na gestão da dívida pública e vulnerabilidade a choques externos, frisando igualmente que existe também o risco da chamada “doença holandesa”, quando a abundância de recursos naturais pode prejudicar outros sectores produtivos.
“O impacto positivo dependerá da qualidade da gestão económica e institucional, o gás natural pode melhorar a percepção de risco no médio e longo prazo, mas não elimina por si só os desafios estruturais da economia”, elucidou.
Reformas estruturais continuam urgentes
Perante este cenário, os economistas defendem que o País precisa de acelerar reformas estruturais para reduzir a percepção de risco e reforçar a confiança dos investidores. Entre as medidas consideradas prioritárias estão o reforço da disciplina fiscal, maior transparência na gestão da dívida pública, melhoria do ambiente de negócios e diversificação da base produtiva.
Foia destacou que o fortalecimento das instituições públicas e a estabilidade política são igualmente fundamentais para melhorar a credibilidade económica do País, acrescentando que os investidores procuram por ambientes estáveis e fortes que promovam o crescimento sustentável.
Por sua vez, Moisés Nhanombe considerou ser fundamental, em primeiro lugar, reforçar a disciplina fiscal e a gestão da dívida pública, garantindo maior transparência nas finanças públicas, controlo do endividamento e melhor eficiência da despesa, de modo a restaurar a confiança de credores internacionais, incluindo o FMI.

Além disso, é necessário diversificar a economia, reduzindo a dependência de megaprojectos e de poucos produtos de exportação. O fortalecimento da agricultura, da indústria transformadora e das Pequenas e Médias Empresas pode ampliar a base produtiva e aumentar a resiliência económica.
“O Governo tem um papel central na recuperação da credibilidade económica, através da promoção de reformas institucionais que fortaleçam a governação económica, com maior enfoque para o combate à corrupção, melhoria da qualidade regulatória e reforço das instituições de controlo, factores essenciais para aumentar a confiança dos investidores”, sublinhou.
Os especialistas defenderam também que é importante implementar políticas económicas previsíveis que garantam estabilidade cambial, controlo da inflação e sustentabilidade fiscal. “A gestão transparente das receitas do gás natural pode transformar esses recursos em investimentos produtivos, promovendo diversificação económica e crescimento sustentável”, concluíram.
“Infelizmente, antevemos que a economia de Moçambique vá enfrentar mais um ano difícil em 2026”, escreveram os analistas da consultora num comentário divulgado na segunda-feira, 2 de Março, sobre os dados do Produto Interno Bruto (PIB) referentes ao último trimestre de 2025.
(DE)

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