Economia

Estradas que desabam, milhões que desaparecem: o paradoxo das obras públicas em Cabo Delgado

 

Governador questiona onde vai a “mola” das estradas enquanto população cobra respostas sobre obras que desabam em Cabo Delgado

Por Quinton Nicuete

 

Em Cabo Delgado, as estradas não apenas degradam, elas desmoronam diante dos olhos de quem governa, de quem executa e de quem diariamente depende delas para sobreviver. No centro desta crise está uma pergunta que ecoa entre automobilistas, analistas e cidadãos comuns: quem responde pela qualidade das obras públicas numa província onde o próprio governador questiona aquilo que deveria garantir?

Durante a sétima sessão ordinária do Conselho Executivo Provincial, o governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo,  manifestou preocupação com a rápida degradação das estradas. Falou de camadas de asfalto que se soltam em poucos meses, de bases frágeis que cedem à primeira chuva e de investimentos que não se traduzem em infraestruturas duráveis.

As declarações, no entanto, levantam uma contradição evidente. Sendo o chefe máximo do executivo provincial, responsável por supervisionar, articular e garantir a qualidade das obras, a quem se dirige exactamente o seu questionamento?

Uma rede viária em colapso

A realidade no terreno revela um cenário crítico. As estradas que ligam Pemba a Montepuez, Metoro-Chiúre e Macomia-Salaue, eixos essenciais a economia provincial, transformaram-se num percurso lento e arriscado. Buracos profundos, troços intransitáveis e erosões constantes prolongaram viagens que antes duravam menos de duas horas para até oito horas.

Dados da indicam que apenas 27 por cento da rede viária da província é asfaltada. O restante, composto por estradas não revestidas, torna-se praticamente inoperante durante a época chuvosa.

Mesmo as vias asfaltadas apresentam sinais precoces de degradação. A camada superior levanta-se com facilidade, expondo a base e acelerando a formação de crateras que comprometem a circulação.

Promessas antigas, resultados ausentes

As estradas que ligam sedes distritais como Namuno-Montepuez, Nacussa-Ancuabe, Muepane-Metuge, Pemba-Mecufi e também  que vão as vilas de Quissanga, Meluco, tornaram-se um símbolo da crise. Prometidas há vários anos, continuam sem uma solução definitiva. No troço de Mahurussi, viaturas ligeiras enfrentam enormes dificuldades, obrigando passageiros a interromper viagens e pagar até 500 meticais por trajecto, mais do que o dobro do valor anteriormente praticado.

Após pressão pública, houve tentativas de negociação com transportadores e uma redução pontual das tarifas. Ainda assim, no terreno, a situação permanece praticamente inalterada.

A questão que se impõe é simples e persistente: como pode uma estrada considerada prioritária continuar degradada apesar dos fundos anunciados ao longo dos anos?

O dinheiro existe, mas os resultados não aparecem

Nos últimos anos, foram anunciados investimentos na ordem dos 200 milhões de dólares para infraestruturas rodoviárias em Cabo Delgado. Apesar disso, a degradação mantém-se e, em muitos casos, repete-se nos mesmos troços já intervencionados.

A falta de transparência reforça as dúvidas. Em várias obras, não são divulgadas informações claras sobre empreiteiros, prazos de execução ou custos detalhados. A fiscalização, quando ocorre, raramente resulta em responsabilização visível.

Para o analista , a questão vai além da execução técnica. Governar implica garantir que os recursos públicos produzam resultados concretos e sustentáveis para a população.

A estrada como retrato do Estado

Enquanto milhões são anunciados em discursos oficiais, no terreno emerge uma realidade paralela.

Em vários pontos da província, crianças e jovens improvisam a manutenção das estradas, enchendo buracos com areia e pedras, na esperança de receber pequenas contribuições dos automobilistas.

Não se trata de um programa estruturado. Trata-se de sobrevivência.

Esta imagem tornou-se um retrato simbólico de fragilidade institucional, onde a ausência do Estado é preenchida por soluções improvisadas.

Riqueza que não se traduz em desenvolvimento

O contraste é ainda mais evidente quando se observa o potencial económico da região. Distritos como Ancuabe, Meluco, Quissanga, Metuge, Mecufi, Namuno e Montepuez concentram recursos florestais e minerais valiosos, incluindo ouro e rubis.

Apesar disso, as comunidades continuam a enfrentar estradas degradadas e custos elevados de transporte.

A legislação prevê que uma parte das receitas da exploração mineira reverta para as comunidades locais. No entanto, nas zonas afectadas, os impactos concretos dessas receitas são difíceis de identificar.

Responsabilidade difusa, impactos reais

Perante este cenário, o discurso institucional tende a distribuir responsabilidades entre vários intervenientes, desde empreiteiros até factores climáticos.

No entanto, a cadeia de decisão é conhecida e estruturada. Desde a adjudicação das obras até à sua fiscalização, existem mecanismos que deveriam garantir qualidade e durabilidade.

A questão central permanece: por que continuam a falhar?

Quando o governador levanta dúvidas sobre a qualidade das estradas, evidencia uma preocupação legítima, mas também expõe fragilidades no próprio sistema de governação.

Muito além do asfalto

Em Cabo Delgado, a degradação das estradas não é apenas um problema de infraestruturas. É uma limitação ao acesso a serviços básicos, ao comércio e à mobilidade das populações.

Num contexto já marcado por conflitos e deslocamentos, estradas degradadas aprofundam desigualdades e isolam comunidades.

Enquanto as crateras aumentam, cresce também a desconfiança pública.

E permanece a pergunta que atravessa toda a província, mais pesada do que qualquer carga transportada nas vias destruídas:

Quem constrói, quem fiscaliza e quem responde? (Moz24h)

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