Por Tiago J.B. Paqueliua
Resumo
Este ensaio propõe uma análise multidimensional sobre a emergente configuração global da chamada Segunda Guerra Fria.
O mundo contemporâneo encontra-se sob a pressão de escaladas bélicas localizadas e estruturadas por grandes potências, numa nova arquitectura de confronto onde o direito internacional é flagrantemente relativizado.
Neste contexto, a desordem mundial não é fruto de caos aleatório, mas de projectos bem delineados de hegemonia, contenção, sabotagem económica e militarização de esferas vitais da soberania dos Estados periféricos.
Este ensaio integra análises geopolíticas, antropossociológicas, jurídicas e cívico-morais, revelando as conexões subterrâneas entre guerras convencionais, terrorismo, instrumentalização de organizações multilaterais e o aprofundamento de desigualdades globais.
Capítulo 1: O Regresso da Guerra Fria sob Nova Forma: Multipolaridade e Conflito Sistemicamente Dirigido
O mundo pós-1991 vivenciou a ilusão de uma paz duradoura assente na supremacia norte-americana.
A dissolução da URSS, longe de consolidar uma “nova ordem mundial” pacífica, gerou um vácuo que, duas décadas depois, reacendeu tensões de cariz sistémico.
A China, com a sua ascensão tecnológica, económica e militar, tornou-se alvo de uma contenção estratégica liderada pelos EUA.
A Rússia, por sua vez, iniciou um processo de reconfiguração geoestratégica com a reintegração violenta de zonas da ex-URSS, provocando a reacção da NATO.
O conflito na Ucrânia, iniciado em 2014 e intensificado em 2022, é um reflexo directo desta disputa.
Detrás do conflito não está apenas a questão territorial, mas a tentativa dos EUA e da NATO de isolar a Rússia e redesenhar as fronteiras da sua influência, reacendendo o paradigma da Guerra Fria, agora com características assimétricas e ciberguerrilhas.
Capítulo 2: O Eixo EUA-Israel-OTAN e a Nova Arquitectura de Guerra no Médio Oriente
O médio oriente nunca deixou de ser o epicentro das disputas imperiais, daí que:
a) A guerra contra o Irão assume agora contornos de provocação calculada, através de ataques directos às suas milícias aliadas (como o Hezbollah e os Houthis) e sanções asfixiantes.
a) Israel, como ponta de lance e sob protecção total dos EUA, tem intensificado bombardeamentos a territórios como Gaza e Sul do Líbano, aproximando o risco de um conflito aberto regional.
c) A guerra entre Hamas e Israel é também uma guerra indirecta entre Teerão e Washington.
d) O assassinato selectivo de cientistas nucleares, sabotagens cibernéticas e manobras de bloqueio naval são expressões modernas de um conflito clássico: hegemonia contra resistência regional.
Neste quadro, a OTAN estende a sua lógica atlantista para o Golfo Pérsico, militarizando zonas não-europeias sob pretexto da segurança global.
Trata-se duma arquitectura de guerra preventiva que visa manter o status quo de poder e impedir a emergência de potências alternativas.
Capítulo 3: Moçambique e a África Lusófona na Nova Ordem Mundial: Entre a Invisibilidade Estratégica e a Subalternidade Geopolítica
Este capítulo analisa o papel da África lusófona na nova ordem mundial, destacando Moçambique como estudo de caso paradigmático.
Sustenta-se que, apesar da sua riqueza em recursos estratégicos, a região permanece na periferia geopolítica global, capturada por estruturas neocoloniais e elites locais cooptadas.
O foco recai sobre a guerra em Cabo Delgado, a presença de potências externas e, sobretudo, o abandono da exigência de reparações históricas à antiga metrópole colonial.
A decisão do Presidente moçambicano Daniel Francisco Chapo de prescindir de qualquer processo contra Portugal é interpretada como manobra frelimista para evitar responsabilização histórica.
Conclui-se propondo uma soberania africana epistemicamente descolonizada.
3.1. A África Lusófona e a Segunda Guerra Fria: O Espaço da Subalternidade
O ressurgimento das tensões globais entre grandes potências – EUA e OTAN contra Rússia e China – criou múltiplas frentes de guerra por procuração, reposicionando zonas tradicionalmente periféricas como tabuleiros estratégicos.
A África lusófona, longe de emergir como agente autónomo, viu-se absorvida por uma lógica de fragmentação e instrumentalização, agravada por estruturas pós-coloniais internas e dependência externa crónica.
Em vez de neutralidade assertiva, os países lusófonos alinham-se conforme os interesses das potências que garantem financiamento, protecção militar ou legitimidade diplomática. Esta posição subalternizada é visível tanto na passividade da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), como na política externa bilateral de Angola, Guiné-Bissau ou Moçambique.
3.2. Moçambique: Gás, Guerra e Soberania Minada
No campo económico, Moçambique foi e continua a ser palco de sucessivos projectos de engenharia financeira disfarçados de desenvolvimento, como os célebres elefantes brancos do SUSTENTA, FDA, PROAGRI, PARPA 1, PARPA 2, concebidos e financiados sob a bandeira da redução da pobreza e do crescimento rural, mas acabaram por funcionar como instrumentos de acumulação predatória para as elites frelimistas e suas redes de clientelismo.
A ausência de resultados mensuráveis e o desvio de fundos tem vindo a ser amplamente denunciados por auditorias nacionais e internacionais, mas os responsáveis sempre se mantêm impunes.
Mais recentemente, o Presidente Daniel Francisco Chapo apresentou um novo projecto económico nacional de revitalização agrária e inclusão financeira, denominado PESAN III – Política e Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional, que está a ser criticado por especialistas e sectores da sociedade civil, como mais uma manobra de endividamento sem sustentabilidade nem transparência. A sua arquitectura institucional repete os vícios do passado: centralização excessiva, ausência de mecanismos de controlo, clientelismo partidário e opacidade orçamental.
No caso moçambicano, o impacto geoestratégico da Segunda Guerra Fria manifesta-se na militarização do Norte do país, sobretudo na província de Cabo Delgado.
A descoberta de enormes jazidas de gás natural na Bacia do Rovuma transformou Moçambique num foco de interesse de múltiplos actores internacionais: TotalEnergies, ENI, ExxonMobil, tropas ruandesas, forças da União Europeia e até segurança privada de matriz sul-africana e britânica.
Este interesse coincide com uma guerra dita “contra o terrorismo”, cujos contornos reais apontam para conflitos por recursos, exclusão social e manipulação política do islão marginalizado. A soberania moçambicana, neste quadro, é funcionalmente anulada em favor de uma lógica de tutela securitária e extractivista.
3.3. O Recuo das Reparações e a Estratégia Frelimista de Ocultação Histórica
A questão da reparação colonial ganhou fôlego com os debates internacionais sobre justiça histórica, sobretudo a partir de pressões vindas da antiga Organização da Unidade Africana (OUA). Nos anos pós independência, Moçambique ponderou acionar Portugal judicialmente pela espoliação colonial. No entanto, essa possibilidade foi abandonada oficialmente.
O actual Presidente Daniel Francisco Chapo declarou publicamente que Moçambique não pretendia seguir por esse caminho, justificando que “as relações entre Moçambique e Portugal são óptimas, pelo que não se justifica insistir em iniciativas que nos afastem do presente”.
Este gesto foi interpretado por sectores oficiais como diplomacia de boa vizinhança, mas, na realidade, inscreve-se numa estratégia frelimista de autoprotecção, que visa impedir que um eventual processo por crimes coloniais venha a trazer à luz os próprios crimes cometidos pela FRELIMO:
a) Expurgos e fuzilamentos sumários nas “zonas libertadas” antes de 1975;
b) Centros de reeducação com detenções arbitrárias e tortura entre 1977 e 1990;
c) Expropriações e perseguições de adversários ideológicos;
c) Queima de arquivos históricos e apagamento institucional da memória dissidente.
A renúncia à justiça histórica torna-se, assim, instrumento de impunidade retroactiva, a diplomacia converte-se em escudo de silêncio, e a narrativa da paz esconde uma paz sem reconciliação, sem justiça e sem verdade.
3.4. A Lusofonia e a Sua Inoperância Estratégica
A CPLP ilustra o fracasso da África lusófona em articular um espaço de solidariedade geoestratégica. Tratou e trata com indiferença protocolar a guerra em Cabo Delgado; as eleições manipuladas em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique não geraram rupturas; a questão das reparações jamais figurou nas cimeiras lusófonas como prioridade.
Esta inércia faz da lusofonia um instrumento decorativo de portugalidade diplomática, mas desprovido de capacidade de defesa colectiva, solidariedade económica ou coordenação geopolítica.
Há vozes moçambicanas clamando por uma soberania africana anticolonial, pós-frelimista e epistemicamente descolonizada, que entende que o atual lugar da África lusófona na nova desordem mundial evidencia o fracasso das independências como projectos emancipatórios.
A Segunda Guerra Fria repõe o colonialismo por vias financeiras, securitárias e cognitivas. Moçambique tornou-se um exemplo cruel: vassalo em paz, saqueado em guerra.
A recusa da reparação não é um gesto de reconciliação, mas de amnésia estratégica.
A manutenção da FRELIMO no poder – herdeira de uma luta de libertação que transformou em dominação perpétua – impede qualquer possibilidade de justiça integral.
Como advertiu Fanon, “cada geração deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la”. A geração actual em Moçambique enfrenta o desafio de romper não apenas com o colonialismo português, mas com o colonialismo interno de um partido que recusa o passado para garantir a eternização da sua impunidade.
Capítulo 4: A África como Fronteira Global da Recolonização Económica e Militar
Neste novo xadrez global, o continente africano ressurge não como parceiro igualitário no concerto das nações, mas como alvo de uma nova forma de recolonização: através de dívidas insustentáveis, controlo de recursos, bases militares americanas, da França ou da UE e captura tecnológica.
Potências ocidentais, asiáticas e orientais transformam a cooperação em chantagem, e a ajuda internacional em dependência institucionalizada.
Projectos de extrativismo selvagem e militarização de regiões vulneráveis, coincidem com uma ofensiva cultural que neutraliza epistemologias locais e transforma elites africanas em serviçais modernos de interesses externos.
A guerra não é mais declarada por armas apenas, mas por códigos, tratados e diplomacias de compadrio.
Conclusão
Por constituir colapso da Ordem Internacional, a Segunda Guerra Fria exige a urgência de uma soberania emancipadora, e mais desafiador ainda, o facto dela
não ser um evento, mas um processo de reengenharia mundial, onde a guerra deixa de ser excepção para se tornar dispositivo de organização global.
A Nova Guerra Fria é um tempo onde as instituições internacionais sucumbem à geoestratégia, e onde os valores universais são relativizados por interesses regionais.
Num mundo à beira do colapso, o papel dos povos subalternizados é resgatar a própria voz, repensar o conceito de soberania, e refundar o sentido da liberdade.
A paz não virá de cimeiras diplomáticas entre impérios. Virá da consciência insurgente das margens.
Como dizia Frantz Fanon: “Cada geração, numa relativa opacidade, deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la.” A missão é clara: resistir à nova ordem colonial sob disfarce de civilização, e erguer um mundo onde viver com dignidade seja mais que uma promessa, fulminando impiedosamente todos os elefantes brancos como SUSTENTA, FDA, PROAGRI, PARPA 1, PARPA 2 e outros como a PESAN III – Política e Estratégia de Segurança Alimentar e Nutricional – uma encarnação do SUSTENTA, que não são senão a manutenção do clientelismo frelimista e perpetuação de endividamento improdutivo e insustentável.
