Por Edwin Hounnou
Trata-se de uma questão transversal e dolorosa que deixa muita gente atónita e o exemplo das dívidas ocultas transmite a ideia de que o combate à corrupção é um discurso para divertir o público. Isso concorre para aguçar o apetite à prática da corrupção por saberem que a sua punição se limita a passar um lencinho macio e leve por cima dos “atletas deste desporto”.
Aqueles que são levados à barra dos tribunais e, se forem condenados, não passa de um simples gesto e nunca de castrar a quem tiver praticado a corrupção.
É impossível extirpar a corrupção, na nossa terra, porque ela não é, efectivamente, combatida com vigor e de modo enérgico para desmotivar os que, também, se pretendiam enveredar pelo mesmo caminho. Não há o sinal de luta para travar a progressão da corrupção.
A ver o estilo de vida daqueles que roubaram milhões de dólares das dívidas ocultas, depois de uns anos na cadeia/hotel do Língamo, na Matola, deixa qualquer um muito encorajado a, também, enveredar-se pelo mesmo caminho.
As medidas de dissuasão, isto é, o tempo em que se permanece em reclusão e condições, são, de todo, encorajadoras à prática do crime.
Informações abundantes sugerem que os detentos saiam, aos fins-de-semana, para estarem com seus parentes com regularidade. Os festins eram recorrentes. Girava muita “mola” roubada de dívidas que estamos a pagar com o ranger de dentes.
Como um indivíduo que roubou oito a trinta milhões de dólares, depois de uns anitos de reclusão esteja a passar a sua classe perante o olhar impassível daqueles a quem ele jogou na mais nojenta sarjeta da pobreza?
Os detentos das dívidas ocultas enquanto presos, dão festas de arromba. Hoje, movimentam grandes negócios, viajam pelo mundo fora a gerirem seus negócios “paridos” com base em dinheiro roubado. Concedem grandes entrevistas à imprensa e cospem na cara do povo. Assim, é impossível vencer a corrupção.
O discurso da luta contra a corrupção assemelha-se a uma música para a malta se divertir e nada mais que isso. Depois de roubar tanto dinheiro do povo, sujeita-se a uma aparente ausência aos olhos do grande público, em suposta cadeia.
De facto, nessa cadeia, rasteja-se na alcatifa, entre festas e bebidas. Sim, a corrupção, a ladroagem, a gatunagem, o calote, na verdade, compensam e muito bem.
A corrupção, na nossa terra, não se combate com boas intenções ou com discursos vibrantes, mas com acções bem concretas de prevenção que se traduzem em educação cívica, medidas rigorosas de punição a quem pisar a linha contínua que separa o bem do mal.
Enquanto as leis de combate à corrupção forem tão brandas quanto suaves, como as que hoje existem, a prática da corrupção não será desencorajada. Os praticantes da corrupção devem ter medo daqueles que não fazem a corrupção.
Os corruptos devem temer e fugir dos que não fazem a corrupção tal como o diabo foge da cruz por serem seres antagónicos. Não podem conviver no mesmo espaço.
A corrupção próspera onde as medidas do seu combate são brandas. As leis do combate à corrupção são demasiado “amistosas” e brandas.
A coisa fica mais complicada quando os que deveriam se transformar em soldados do combate, por possuírem o poder instituído, se transformam em seus zelosos praticantes.
Todo o discurso de combate à corrupção fica diluído em águas turvas e serve para perturbar as mentes e agravado por ausência de medidas drásticas de combate ao mal.
O atraso socioeconómico por que o país vem passando não se deve apenas à falta de recursos, mas, fundamentalmente, à impunidade das práticas constantes da corrupção.
Um país pode possuir tantos recursos, como é o nosso caso, mas continuar na pobreza devido à corrupção.
A corrupção compara-se a um furacão que tudo arrasa e destrói. Faz atrasar o desenvolvimento socioeconómico dos países e povos. O povo conhece os seus efeitos no quotidiano. Vive na pele os efeitos da corrupção.
A corrupção compensa? – Os factos que vemos desmentem que a corrupção esteja a ser combatida. Sim, a corrupção, em Moçambique, compensa muito bem.

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