Por: Castro Cleiton
Moçambique é um Estado soberano. Tem Constituição, leis, instituições, língua oficial e cidadãos capazes de pensar, decidir e trabalhar pelo próprio país. Mas há uma pergunta que merece ser feita sem medo e sem reverência: até que ponto a presença prolongada de actores humanitários estrangeiros em Cabo Delgado continua a ser uma resposta de emergência e em que momento começa a transformar-se numa espécie de administração paralela da nossa própria realidade?
Desde o início da guerra que devastou Cabo Delgado, muitos trabalhadores de agências das Nações Unidas e de organizações não-governamentais internacionais chegaram à província para responder à emergência. Alguns estão aqui há cinco, seis, sete ou quase dez anos. Conhecem relatórios, mecanismos de financiamento, procedimentos institucionais, indicadores e metodologias. Mas há uma contradição difícil de ignorar: alguns continuam sem dominar sequer o básico da língua oficial do país onde trabalham diariamente. E, em muitos casos, trabalham precisamente com comunidades onde o português é pouco ou nada utilizado.
Eu sou jornalista, nascido em Cabo Delgado e Makua. Por necessidade profissional, tive de aprender o básico de Shimakonde, Kimwani e Kiswahili, porque não se pode fazer jornalismo sério numa sociedade que não se consegue compreender linguisticamente. Não significa que um jornalista tenha de falar perfeitamente todas as línguas da província. Significa reconhecer que a língua é uma ferramenta de acesso à realidade. Se quero ouvir uma comunidade, compreender uma denúncia, interpretar uma preocupação ou perceber aquilo que não está escrito num relatório, preciso de conseguir comunicar com as pessoas.
Então, como pode alguém permanecer durante anos numa comunidade, trabalhar directamente com populações vulneráveis e continuar distante linguisticamente dessa mesma população?
É verdade que as organizações humanitárias utilizam intérpretes e recorrem a parceiros locais. Mas isso também levanta outra questão: até que ponto uma organização consegue compreender directamente os seus beneficiários quando quase toda a comunicação passa por intermediários? O intérprete pode traduzir palavras, mas dificilmente consegue traduzir integralmente contexto, cultura, ironia, medo, desconfiança, relações de poder ou aquilo que uma comunidade prefere não dizer diante de um estrangeiro.
E talvez aqui esteja uma das razões pelas quais grande parte da ajuda humanitária acaba por ser implementada através de organizações nacionais e locais. Os fundos internacionais chegam a grandes organizações, que contratam parceiros locais, que por sua vez contratam equipas comunitárias. Em cada camada existem custos administrativos, estruturas, salários, auditorias, procedimentos e gestão. No final, surge uma pergunta legítima — quanto do dinheiro destinado à comunidade chega efectivamente à comunidade e quanto fica pelo caminho para manter a própria arquitectura da ajuda?
Não se trata de negar a importância da assistência humanitária internacional. Cabo Delgado enfrentou e continua a enfrentar uma crise grave, e muitas organizações desempenham um papel relevante na protecção de pessoas deslocadas, segurança alimentar, saúde, educação, água e saneamento e recuperação das comunidades. Também existem profissionais estrangeiros que fazem um trabalho sério, aprendem sobre o contexto e procuram respeitar as comunidades onde actuam.
A questão é outra: uma emergência que dura quase uma década não pode continuar eternamente a ser tratada como se tivesse começado ontem.
Depois de tantos anos, seria razoável esperar uma transformação progressiva da presença internacional: mais liderança moçambicana, maior transferência de competências, mais investimento em instituições locais e maior domínio das realidades culturais e linguísticas da população. Não apenas porque é politicamente correcto falar de “localização”, mas porque quem vive a realidade deve ter cada vez mais capacidade de definir como essa realidade é respondida.
Cabo Delgado não é apenas um território onde organizações internacionais executam projectos. É a terra de pessoas com história, línguas, culturas, autoridades comunitárias, jornalistas, académicos, organizações locais e profissionais que conhecem profundamente a região.
Não podemos aceitar que a pobreza, a guerra ou a vulnerabilidade transformem uma população inteira numa espécie de objecto permanente de intervenção externa. As comunidades precisam de ajuda, mas também precisam de voz, autonomia e dignidade.
E talvez seja precisamente aqui que devamos começar a fazer perguntas mais incómodas: quem define as prioridades? Quem decide o que uma comunidade precisa? Quem mede se a intervenção funcionou? Quem escuta directamente os beneficiários? Quanto tempo permanecerão os especialistas internacionais? E, sobretudo, quando é que os moçambicanos deixarão de ser apenas beneficiários, parceiros de implementação ou intérpretes e passarão a ocupar o centro das decisões sobre o seu próprio território?
A solidariedade internacional é bem-vinda. A dependência permanente, porém, merece ser discutida.
Porque ajudar um povo não deveria significar falar por ele, decidir por ele ou permanecer indefinidamente no lugar daqueles que deveriam, progressivamente, adquirir capacidade para conduzir a própria resposta.
Cabo Delgado precisa de parceiros internacionais. Mas, acima de tudo, precisa de deixar de ser tratado como se não tivesse capacidade própria para compreender, decidir e reconstruir o seu futuro. (Moz24h)

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