Por Tiago J.B. Paqueliua
O recente desmantelamento de uma rede de tráfico humano na cidade de Maputo, pelo Serviço Nacional de Investigação Criminal (SERNIC), expôs novamente uma ferida profunda na estrutura social moçambicana. Seis jovens vietnamitas, com idades entre 25 e 35 anos, foram encontradas em cativeiro numa residência onde eram forçadas à exploração sexual, após dois anos sob efeito de substâncias psicotrópicas.
Segundo o porta-voz do SERNIC, os traficantes — também vietnamitas — aliciaram as vítimas com promessas de emprego em Moçambique, mas ao chegarem ao país foram privadas de documentos e liberdade.
Este não é um caso isolado, mas um reflexo de um ambiente permissivo à exploração humana, em particular de mulheres e crianças. A realidade é que Moçambique se tornou terreno fértil para redes de tráfico que se aproveitam da pobreza, da fragilidade institucional e da indiferença social. Menores são frequentemente enviadas pelas próprias famílias para zonas urbanas ou países vizinhos — como África do Sul, Zâmbia, Suazilândia, Malâwi e Tanzânia — sob a promessa de emprego, apenas para serem empurradas para o comércio informal ou prostituição (DEUTSCHE WELLE, 2020; RFI, 2017).
Em Maputo, locais como a Praça da Juventude, o terminal da CMC e o Mercado do Bairro George Dimitrov tornaram-se epicentros visíveis da prostituição. Fora da capital, destacam-se o Hotel Madrinha (Chimoio), Kwachena, Cabinde e Cruzamento de Matema (Tete), Agricom (Quelimane) e Mwachinene (Nampula). A presença destas zonas de exploração sexual não é segredo: a população vê, os jornalistas, a sociedade civil e os dirigentes sabem e vêem, até demais, mas o poder público permanece inerte.
Segundo relatório do Departamento de Estado dos EUA, o tráfico sexual infantil é uma preocupação crescente em várias províncias moçambicanas, com vítimas submetidas a abusos sistemáticos (DEUTSCHE WELLE, 2021).
A ONU também lançou, em 2024, o primeiro Plano Nacional de Ação contra o Tráfico de Pessoas, alertando que uma em cada três vítimas no mundo é uma criança (ONU, 2024). Contudo, iniciativas institucionais não são suficientes quando não há responsabilização local nem políticas públicas eficazes.
A Procuradoria-Geral da República confirmou, em julho de 2025, a abertura de cinco novos processos de tráfico humano em Maputo, Tete, Niassa e Sofala (CLUB OF MOZAMBIQUE, 2025). Mas quantos casos passam despercebidos? Quantas vítimas seguem invisíveis, ignoradas por uma sociedade que se habituou ao escândalo?
Não basta denunciar estrangeiros apenas — é urgente agir com imparcialidade e implacabilidade. A persistência do tráfico de pessoas em Moçambique é resultado direto da nossa tolerância social e do silêncio das instituições. Enquanto continuarmos a tratar estes casos como exceções e não como sintomas de um sistema falhado, estaremos todos — como cidadãos, jornalistas, académicos ou agentes públicos — a compactuar com este crime.
Referências
1. CLUB OF MOZAMBIQUE. Five cases of human trafficking recorded over first semester. 29 jul. 2025. Disponível em: https://clubofmozambique.com/news/mozambique-five-cases-of-human-trafficking-recorded-over-first-semester-288036/. Acesso em: 01 ago. 2025.
2. DEUTSCHE WELLE. O corredor do tráfico de pessoas em Moçambique. 27 jul. 2020. Disponível em: https://www.dw.com/pt-002/o-corredor-do-tr%C3%A1fico-de-seres-humanos-em-mo%C3%A7ambique/a-54378420. Acesso em: 01 ago. 2025.
3. DEUTSCHE WELLE. EUA alertam para tráfico humano em Angola e Moçambique. 02 jul. 2021. Disponível em: https://www.dw.com/pt-002/eua-alertam-para-tr%C3%A1fico-de-seres-humanos-em-angola-e-mo%C3%A7ambique/a-58133225.
