Por Tiago J.B. Paqueliua
“Enquanto Jesus não voltar pela segunda vez e com uma Ordem Celestial de Despejo, a cadeira [política] é da FRELIMO, e ninguém a tirará.”
— Henriques Naweka, Secretário Provincial da ACLIN, em Nampula
Com esta afirmação delirante e teologicamente sacrílega, proferida por Henriques Naweka, dirigente da Associação dos Combatentes da Luta de Libertação Nacional (ACLIN), Moçambique mergulha numa perigosa simbiose entre o autoritarismo político e a idolatria religiosa. O episódio marca um novo ponto baixo da degradação moral do espaço cívico e da fé pública em solo moçambicano.
1. Falsos Profetas da Eternidade Partidária
Henriques Naweka não é pioneiro na missão de ungir eternamente a FRELIMO. É herdeiro do falso vaticínio de Alberto Chipande, que declarou que o partido se manteria no poder durante cem anos. Naweka, agora, eleva essa blasfémia, proclamando que a FRELIMO não sairá do poder, a não ser mediante a escatológica Segunda Vinda de Jesus Cristo.
Esta frase ultrapassa os limites da alegoria ou da hipérbole política. Trata-se de uma usurpação do lugar de Deus, e da tentativa de divinizar um partido que se encontra cada vez mais distante da justiça e da verdade. Teologicamente, é heresia. Espiritualmente, é idolatria. Politicamente, é propaganda enganosa.
2. O Evangelho não É Bandeira de Partido
Cristo nunca fundou partidos, nunca ocupou tronos humanos e nunca abençoou impérios. Pelo contrário, afirmou claramente:
“O meu Reino não é deste mundo.” (João 18:36)
Na tradição bíblica e teológica séria, nenhum poder terreno é eterno, e todos estão sob o escrutínio divino. Quando os governantes pervertem a justiça, exploram os pobres e manipulam a religião, os verdadeiros profetas denunciam — não aplaudem.
A idolatria de Estado que se manifesta em frases como a de Naweka é estranha à fé cristã e merece repúdio completo.
3. A Tradição Teológica Denuncia a Tirania
Desde Jesus Cristo até aos nossos dias, grandes pensadores da fé denunciaram a corrupção da autoridade civil e o abuso espiritual das massas. Entre os que sustentam esta crítica à idolatria estatal estão:
Da Igreja Primitiva e Medieval:
1. Jesus Cristo – que desafiou a corrupção religiosa e a opressão imperial com a autoridade da verdade.
2. Paulo de Tarso – que ensinou que todas as autoridades são julgadas por Deus (Rm 13), e devem promover o bem, não a injustiça.
3. Agostinho de Hipona – que declarou que um Estado sem justiça é apenas um bando de ladrões com bandeira.
4. Tomás de Aquino – que justificou a resistência contra a tirania como acto legítimo de consciência.
Da Reforma Protestante:
5. Martinho Lutero – que confrontou o absolutismo religioso e político com base na Escritura.
6. João Calvino – que ensinou que magistrados são servos de Deus para o bem do povo.
7. Francisco Suárez – que argumentou que o povo tem o direito de rejeitar governos injustos.
8. François Turrentini (Turretin) – que sistematizou o dever cristão de discernir a legitimidade das autoridades.
Da Tradição Reformada Moderna:
9. Hendrik de Cock – que rompeu com a igreja estatal corrompida, fundando um movimento de renovação.
10. Gordon Haddon Clark – que defendia o racionalismo bíblico contra toda forma de poder anti-escritural.
11. Arthur W. Pink – que denunciou os ídolos nacionalistas e religiosos do seu tempo.
12. John Gresham Machen – defensor da separação entre o Estado e a consciência religiosa.
13. Vincent Cheung – que defende uma teologia que não se curva a políticos nem à cultura.
14. Joel Beeke – que alerta que os líderes devem ser servos e não senhores do povo.
15. David Engelsma – que afirma que toda autoridade deve ser julgada pela Palavra de Deus.
16. Herman Hanko – que combateu o liberalismo e a submissão da fé à política.
17. Herman Hoeksema – que proclamou a soberania exclusiva de Cristo sobre a igreja e a sociedade.
18. R.C. Sproul – que ensinou que o Estado torna-se ilegítimo quando desafia a Lei de Deus.
19. Dietrich Bonhoeffer – mártir luterano, que resistiu teologicamente a Hitler.
20. Karl Barth – autor da Declaração de Barmen contra a instrumentalização do cristianismo pelo regime nazi.
21. Cornelius Van Til – que apelou à submissão total a Deus em todas as esferas da vida.
22. Abraham Kuyper – que via Cristo como soberano absoluto sobre tudo, mas jamais fundível com partidos.
23. Os Guinness – que alerta contra a religião do Estado e a traição da consciência cristã.
24. Augustus Nicodemus Lopes – que denuncia o falso evangelho que serve interesses seculares.
4. Escatologia ao Serviço da Corrupção
A Segunda Vinda de Cristo não se destina a despejar partidos da cadeira do poder, mas sim a julgar as nações, restaurar todas as coisas e implantar o Reino eterno de justiça.
Reduzir a Parousia a um evento eleitoral moçambicano é perversão doutrinária grave.
“O Senhor reina eternamente; preparou o seu trono para o juízo.” (Salmo 9:7)
Cristo não virá proteger a FRELIMO. Ele virá julgar os sistemas que traíram a justiça, violaram a dignidade humana e profanaram o seu nome por interesses políticos.
ADVERTÊNCIA FINAL AOS USURPADORES DOS PÚLPITOS
Com temor e zelo pelas coisas santas, advertimos solenemente todos os que se atrevem a subir a púlpitos ou a invocar o nome de Cristo em vão, sem viverem sob a autoridade das Escrituras nem se comprometerem com a verdade e a justiça.
“Não vos torneis muitos mestres, sabendo que receberemos mais duro juízo.”
(Tiago 3:1)
“Ai dos que profetizam mentiras em meu nome, dizendo: ‘O Senhor disse’, sem que eu os tenha enviado.”
(Jeremias 14:14)
O púlpito não é palanque, a Bíblia não é panfleto, e o nome de Deus não é slogan.
Quem insiste em ocupar espaços sagrados para legitimar tronos corruptos, sem temor de Deus, atrai sobre si e sobre a nação a ira do Altíssimo.
CONCLUSÃO
Henriques Naweka, ao declarar que só Jesus pode tirar a FRELIMO do poder, coloca-se na linhagem dos falsos profetas condenados pelas Escrituras. Sua declaração não é uma expressão de fé, mas um acto de idolatria política e abuso da religião.
Que as igrejas, os cidadãos, os intelectuais, os juristas e todos os que amam a justiça denunciem este tipo de discurso como imoral, blasfemo e perigoso para o bem comum.
“E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” (João 8:32)
Se por ventura Naweka é membro duma Igreja cristã, que seja severamente disciplinado, e sua Igreja publique seu repúdio a este grave e vergonhoso pecado.
Cristo não voltará para proteger partidos.
Voltará para derrubar os ídolos e restaurar a justiça.
