Por Quinton Nicuete
Há mais de quatro anos, um cheiro nauseabundo proveniente do perímetro do grupo Renco tem afectado diariamente o ambiente escolar no bairro de Alto-Gingone, na cidade de Pemba. As duas instituições de ensino que fazem limite com as instalações da empresa, a Escola Básica Amizade Moçambique-China e a Escola Secundária Maria Mazzarello, enfrentam uma situação descrita como grave, contínua e perigosa para alunos, professores e moradores.
A direcção da Escola Básica Amizade Moçambique-China afirma que o odor intenso, comparado a cheiro de esgoto, invade salas de aula, o bloco administrativo e até o espaço onde vendedores ambulantes comercializam lanche para crianças. “Periga a saúde das nossas crianças. Mesmo no meu escritório sinto o cheiro,” disse a directora Cacilda Rafael, que garante ter alertado a empresa várias vezes, sem resultados satisfatórios. A responsável acrescenta que o problema ameaça não só o ambiente escolar, mas também a vida de munícipes que passam pelo local diariamente.
Moradores reforçam o desespero. Joana Mário, vendedora de lanche a poucos metros do esgoto, afirma que a situação está a atingir “contornos alarmantes”, descrevendo o cenário como insuportável. “Todos os dias sentimos cheiro de cocó que vem da fossa da Renco,” lamentou.
Apesar das evidências e das queixas apresentadas ao longo dos anos, a empresa inicialmente negava responsabilidade e alegava desconhecer a origem do problema. Em contactos feitos pelo Moz24h, membros do departamento de Recursos Humanos chegaram mesmo a tentar impedir a publicação desta reportagem oferecendo ao repórter um suborno de 10 mil meticais, oferta prontamente recusada.
Meses depois, a Renco finalmente reagiu. Durante uma visita de grupo do conteúdo local, no dia 21 de Novembro, às suas instalações Base logística ou melhor no Porto de atracagem de navios de Pemba, ao serviço da TotalEnergies em Afungi, o representante da empresa, Sebastião Samboco, admitiu que a zona onde a Renco está instalada é uma área de “convergência de águas”, factor que, segundo ele, contribui significativamente para o problema. “As águas de chuva que vêm de cima passam pelo nosso terreno e não podemos fechar o curso natural delas. A nossa infelicidade é ter as fossas próximas de onde essas águas seguem o seu caminho,” explicou.
Confrontado com relatos de que o odor persiste mesmo fora da época chuvosa e de que há alunos que chegam a abandonar salas por causa da intensidade do cheiro, Samboco afirmou não ter conhecimento desses casos. Ainda assim, reconheceu que as operações da empresa têm impacto ambiental, acrescentando que a Renco está a trabalhar para melhorar. Numa das declarações mais polémicas, afirmou que “agora não é momento de pensar nos efeitos, mas sim de pensar na solução”.
O representante anunciou que a Renco está em plano de instalar uma planta de tratamento de águas negras dentro das suas instalações, considerando que o equipamento poderá reduzir o impacto sobre as escolas e a comunidade. “Essa planta vai beneficiar todos porque vai resolver directamente o problema das águas que afectam os nossos depósitos e o solo,” disse.
Apesar das promessas, pais, professores e moradores afirmam que o problema é antigo e que exige medidas concretas e imediatas. O cheiro, que se intensifica em determinados períodos do dia, é descrito como sufocante e incompatível com um ambiente escolar saudável. As direcções das duas escolas esperam que, desta vez, as garantias da empresa se traduzam em acções reais, depois de anos de reclamações ignoradas, explicações vagas e até tentativas de silenciar o assunto.
Enquanto nada muda, milhares de crianças continuam a estudar a poucos metros de um odor tóxico que compromete a saúde, o bem-estar e o direito a um ambiente escolar seguro. Moz24h
