Por: Mui Woothaceria
Há um facto que, como jornalista moçambicano, continuo a tentar compreender sem encontrar respostas claras: por que razão alguns dirigentes públicos encaram o acto de informar como um favor pessoal ao jornalista, e não como uma obrigação inerente ao cargo que ocupam?
Vivemos num Estado que se diz democrático, onde os servidores públicos são, em última instância, servidores do povo. Informar sobre a gestão da coisa pública não é um gesto de boa vontade, nem um hobby de fim de semana, é um dever institucional, ético e moral. No entanto, na prática, observa-se um comportamento preocupante por parte de alguns dirigentes, que tratam o jornalista como alguém que pede um favor, e não como um profissional no exercício legítimo da sua função.
Não é raro ouvir frases como: “liga-me no domingo”, “procura-me quando eu estiver livre” ou pelos acessores “o chefe está ocupado”. Estas respostas, para além de revelarem desrespeito pelo trabalho jornalístico, configuram uma clara banalização do direito à informação. O que poderia ser uma declaração simples e rápida transforma-se, muitas vezes, num processo moroso que dura semanas ou até meses, comprometendo a actualidade, a relevância e o interesse público da informação.
É importante sublinhar: o dirigente público não está a fazer nenhum favor ao conceder uma entrevista. Está, isso sim, a cumprir um dever legal e democrático. A informação pública pertence ao povo, e o jornalista é apenas o mediador entre o Estado e o cidadão, o eleitor, o contribuinte.
Outro aspecto igualmente preocupante é a forma como a juventude de muitos jornalistas influencia negativamente essa relação. Pelo facto de grande parte dos profissionais da comunicação social serem jovens, alguns dirigentes mais velhos optam por um tratamento informal e paternalista, chamando-os de “sobrinho” ou “irmãozinho”. À primeira vista, pode parecer um gesto de proximidade cultural, mas, na prática, esse tipo de intimidade forçada mina o profissionalismo e compromete a independência jornalística.
Quando o jornalista é tratado como “da família”, cria-se a expectativa implícita de complacência, de silêncio ou de autocensura. O dirigente passa a acreditar que, por haver essa suposta intimidade, o profissional não irá questionar, investigar ou publicar informações que possam ser incómodas. Trata-se de uma visão perigosa, que enfraquece o papel fiscalizador da imprensa e distorce a essência do jornalismo.
É preciso dizer, de forma clara e sem rodeios: respeitar o jornalista é respeitar o direito do cidadão à informação. Desvalorizar o trabalho da imprensa é desvalorizar a democracia. Um dirigente que foge às perguntas, que adia sistematicamente declarações ou que escolhe quando e como informar, age contra os princípios da transparência e da boa governação.
Esta reflexão não é um ataque pessoal, mas um apelo à consciência cívica e institucional. Moçambique precisa de dirigentes que compreendam que a comunicação social não é inimiga do Estado, mas um pilar fundamental da democracia. E precisa, igualmente, de jornalistas firmes, conscientes do seu papel e dispostos a defender a dignidade da profissão, independentemente da idade ou da posição de quem está do outro lado do microfone.
Informar não é favor. É dever. E respeitar o jornalismo é respeitar o povo.
