Tirei o dia de hoje para reflectir. Não sabia exactamente o que escrever, mas a avalanche de elogios que recebi, e que vi multiplicarem-se nas páginas de dirigentes e de instituições públicas e partidárias, acabou por me conduzir a uma conclusão inevitável de que este é, acima de tudo, um dia marcado por um profundo CINISMO.
As mensagens são, à primeira vista, de boa fé. Dirigentes políticos, partidos, tanto do poder como da oposição, enaltecem o papel do jornalista, exaltam a sua coragem, reconhecem os desafios conjunturais e reiteram, com palavras bonitas, o compromisso com a liberdade de imprensa. No papel, tudo soa correcto. No discurso, todos parecem alinhados com os mais nobres valores democráticos.
Mas a realidade do dia-a-dia desmente, de forma brutal, esse discurso. Hoje, em Moçambique, o jornalista transformou-se num verdadeiro campo de batalha política.
Já não é apenas um mediador da informação é alvo, é instrumento e, muitas vezes, é vítima. Quando procura exercer a profissão com equilíbrio, criticando tanto QUEM GOVERNA como quem se apresenta como ALTERNATIVA, é rapidamente rotulado, atacado e insultado por militantes de ocasião, esses “guardiões” improvisados da verdade que confundem jornalismo com propaganda e imparcialidade com conveniência.
Mais grave ainda: aqueles que se autoproclamam campeões da liberdade e da democracia são, não raras vezes, os primeiros a hostilizar o trabalho jornalístico quando este não serve os seus interesses imediatos. Combatem ferozmente reportagens incómodas, pressionam, descredibilizam e, assim, contribuem activamente para o estreitamento do espaço das liberdades. A liberdade de imprensa, que tanto evocam nos discursos, torna-se relativa e válida apenas quando lhes convém.
Criou-se, assim, uma cultura perigosa de celebrar o jornalista no discurso oficial e de o perseguir na prática quotidiana. Uma cultura onde elogiar é fácil, mas respeitar é difícil. Onde se fala de coragem, mas se pune, se ataca ou se assassina quem ousa exercê-la. Onde se reconhecem os desafios, mas se alimentam, deliberadamente, as condições que os agravam.
É por isso que estas mensagens, aparentemente nobres, soam vazias porque não basta reconhecer o papel do jornalista, é preciso defendê-lo, na prática, mesmo quando o seu trabalho incomoda. Não basta prometer liberdade de imprensa, é necessário criar condições reais para que ela exista sem medo, sem pressões e sem represálias.
No fim das contas, todos falam da liberdade de imprensa, da coragem e dos desafios. Mas poucos, estão verdadeiramente interessados em ver florescer uma imprensa livre, crítica e independente. Porque uma imprensa assim não serve agendas, serve apenas o público, a verdade. E isso, para muitos, continua a ser um problema.
Feliz dia a todos colegas!

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