Sociedade

NGD estima mais de 1,2 milhão de deslocados em Cabo Delgado e alerta para desafios na assistência humanitária

Por Quinton Nicuete

 

O Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres (INGD) revelou que a crise humanitária em Cabo Delgado continua a exigir respostas robustas, face ao elevado número de pessoas deslocadas pela violência armada que assola a província desde 2017. Os dados foram apresentados na quinta-feira passada, pelo delegado provincial do INGD, Marques Naba, durante a V Reunião do Comité de Coordenação Provincial para a Implementação do Plano de Reconstrução de Cabo Delgado.

Segundo o responsável, estima-se que cerca de 1,2 milhão de pessoas tenham sido forçadas a abandonar as suas zonas de origem devido às incursões terroristas, o que corresponde a 54.366 famílias afetadas. Do total de deslocados, 661.801 pessoas já regressaram voluntariamente às suas comunidades, enquanto 428.945 continuam a viver em centros de deslocamento, distribuídos por 57 centros de reassentamento existentes na província.

De acordo com os resultados da Ronda 22 da Avaliação de Mobilidade de Deslocados, conduzida pelo Governo em coordenação com parceiros humanitários, o cenário continua a ser marcado por movimentos constantes da população, influenciados pela instabilidade da segurança em vários distritos.

Marques Naba alertou ainda para o surgimento de novos deslocamentos internos, registados desde junho último, em resultado de ataques esporádicos. Nesse período, 179.971 pessoas foram obrigadas a deslocar-se novamente, com maior incidência nos distritos de Chiúre, Mecúfi e Mueda, onde muitas famílias permanecem em locais provisórios desde julho.

Face a este contexto, o Governo, em coordenação com parceiros humanitários, desencadeou ações de assistência emergencial, incluindo visitas de monitoria no terreno, como a realizada no posto administrativo de Murebu, em Mecúfi, envolvendo equipas do INGD e parceiros locais.

No que diz respeito às perspetivas de retorno, o INGD projeta que até junho de 2026 cerca de 200 mil pessoas possam regressar às suas zonas de origem. Contudo, o delegado provincial sublinhou que este processo dependerá essencialmente da melhoria das condições de segurança, reforçando que o retorno deve ser voluntário, seguro e digno.

O plano de resposta humanitária prevê necessidades significativas nas áreas de abrigo, insumos agrícolas e assistência alimentar. Só para garantir apoio alimentar e agrícola durante um período de 90 dias, o INGD estima a necessidade de 1,7 mil milhões de meticais, valor considerado crucial para responder à atual vaga de deslocamentos.

Entre os principais desafios identificados estão a mobilização insuficiente de recursos, a falta de infraestruturas e serviços sociais básicos nas zonas de reassentamento e a necessidade de reforçar os meios de subsistência para reduzir a dependência da ajuda humanitária e promover a criação de emprego.

Reagindo aos dados apresentados, o governador de Cabo Delgado, Valige Tauabo, reconheceu a dimensão dos desafios e garantiu que o Executivo provincial encara 2026 com uma visão de ações concretas para o desenvolvimento, sem negligenciar a assistência humanitária. O governante destacou a pressão causada pelo aumento de deslocados internos, sobretudo na zona sul e costeira da província, incluindo Pemba e Chiúre, assegurando que estão a ser criadas condições mínimas enquanto se trabalha para o regresso seguro às aldeias.

Por sua vez, o secretário de Estado na província, Fernando Bemane, afirmou que, apesar das dificuldades, o plano de reconstrução está a ser implementado. Segundo ele, muitos constrangimentos podem ser resolvidos localmente, desde que haja maior articulação entre os governos distritais e o nível provincial. Bemane defendeu soluções rápidas para evitar a destruição adicional de infraestruturas e garantir respostas mais eficazes às populações afetadas.

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