Sociedade

Bispo de Pemba critica silêncio das autoridades perante ataques em Ancuabe

Foto: Estacio Valoi/Pemba City/Cabo Delgado
Foto: Estacio Valoi/Pemba City/Cabo Delgado

O bispo de Pemba, António Juliasse, criticou duramente o silêncio e a inação das autoridades moçambicanas na prevenção do mais recente ataque armado à localidade de Meza, no distrito de Ancuabe, província de Cabo Delgado, onde pelo menos 22 pessoas foram raptadas por alegados insurgentes.

O ataque ocorreu na tarde de 30 de abril, na sede da localidade de Minheuene, posto administrativo de Meza, deixando um rasto de destruição e pânico entre a população.
Segundo fontes locais, os insurgentes, munidos de explosivos, incendiaram mais de dez residências, destruíram infraestruturas da missão católica e reduziram a escombros a histórica paróquia de São Luís de Monfort, bem como a casa do padre.

Dados da Fundação Ajuda à Igreja que Sofre indicam que a igreja, existente desde 1946, foi completamente destruída durante o ataque.

Além da destruição, os atacantes saquearam produtos alimentares e bens diversos em estabelecimentos comerciais, vandalizaram o centro de saúde local, de onde retiraram medicamentos e equipamentos, e extorquiram civis, exigindo valores entre 15 e 20 mil meticais para libertação de pessoas capturadas.

O ataque provocou a fuga de residentes para zonas seguras e a paralisação de actividades económicas, incluindo operações mineiras da empresa GemRock, que evacuou a sua direcção e trabalhadores para a cidade de Pemba por receio de novos ataques.

Em declarações à Lusa, o bispo António Juliasse afirmou que o ataque era previsível, uma vez que insurgentes já tinham sido avistados em zonas próximas dias antes.
“Depois de eles atacarem uma zona perto daí, todos sabiam que iam para aqueles lados, mas não houve nenhuma intervenção. Fizeram toda a destruição em três, quatro horas, sem nenhum constrangimento do lado das nossas forças de segurança”, afirmou.

O prelado sublinhou ainda o sentimento de abandono vivido pelas comunidades locais, num contexto de conflito armado que já dura há quase nove anos.
“O povo sente-se largado”, lamentou, acrescentando que a população continua sem proteção efectiva, apesar da gravidade e recorrência dos ataques.

Segundo a agência Agência Ecclesia, os missionários da congregação presentes na comunidade não se encontravam no local no momento do ataque e estão a salvo. No entanto, civis terão sido capturados e forçados a assistir a discursos de propaganda dos insurgentes.

Apesar da gravidade da situação, as forças de defesa e segurança só se deslocaram ao local no dia seguinte, quando os atacantes já haviam abandonado a região. Testemunhas indicam que o grupo, composto por mais de 100 elementos, muitos dos quais crianças e adolescentes, seguiu em direcção ao distrito de Montepuez, possivelmente com o objectivo de alcançar zonas de exploração mineira em Namanhumbir.

Até ao momento, as autoridades ainda não apresentaram um balanço oficial detalhado dos danos humanos e materiais, enquanto a população continua a viver sob um clima de medo e incerteza.

Recorde-se que, dias antes, a 26 de abril, insurgentes já tinham atacado uma mina de pedras preciosas na localidade de Ravia, no distrito de Meluco, onde se apoderaram de bens e valores pertencentes a garimpeiros.

A repetição destes ataques, aliada ao silêncio das autoridades, levanta sérias preocupações sobre a capacidade de resposta do Estado e reforça a percepção de abandono entre as comunidades afectadas.

Num cenário onde a violência se torna cíclica e previsível, a ausência de acção preventiva continua a custar caro à população civil. (Moz24h)

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