Economia

EDM Sob Pressão: Fenómenos Climáticos Custam 5 Milhões de Dólares Por Ano à Empresa

Texto: Alfredo Ubisse

Em Moçambique, os choques climáticos já se tornaram um custo fixo para o sector da energia. Ciclones e chuvas intensas continuam a destruir infra-estruturas em várias regiões do País, forçando a Electricidade de Moçambique (EDM) a gastar, ano após ano, cerca de 5 milhões de dólares em reposição de activos. A este valor somam-se ainda perdas directas de receitas estimadas em cerca de 3,8 milhões de dólares.

Apesar dos esforços em curso, a resposta continua aquém da dimensão do problema. A EDM estima que sejam necessários 103 milhões de dólares até 2029 para reforçar a resiliência da rede, mas, até ao momento, apenas cerca de 4 milhões de dólares foram mobilizados, uma lacuna que expõe claramente o risco de continuidade deste ciclo de destruição e reparação.

É neste cenário que a empresa tem vindo a ajustar a sua estratégia, apostando em infra-estruturas mais robustas, tecnologias inteligentes e novos mecanismos de gestão de risco, ao mesmo tempo que enfrenta limitações estruturais, como um modelo tarifário que ainda não cobre investimentos preventivos.

Em entrevista ao Diário Económico, a EDM detalhou os custos reais dos eventos climáticos, acrescentando que os projectos em curso já ultrapassam os 600 milhões de dólares, e apontou desafios concretos para financiar uma rede eléctrica robusta e preparada para um clima cada vez mais imprevisível.

Qual foi o custo total suportado pela Electricidade de Moçambique com as épocas chuvosas e ciclónicas nos últimos cinco anos, incluindo reparações, reposição de infra-estruturas e perdas de receita?

 

A EDM gasta em média 5 milhões de dólares por ano para a reposição das infra-estruturas eléctricas danificadas pelas chuvas e ciclones, contabilizados desde o ciclone IDAI em 2019. Por outro lado, registámos, nos últimos anos, perdas directas de receita na ordem dos 3,8 milhões de dólares.

Considerando o apoio da Noruega para o reforço da resiliência eléctrica, qual é o défice de financiamento ainda existente para assegurar uma rede estruturalmente mais resiliente no curto e médio prazo?

Precisamos de mobilizar 103 milhões de dólares até 2019. Até ao momento, foram disponibilizados apenas 4 milhões de dólares, tendo em conta que o projecto de “Fundo de Resiliência e Resposta a Desastres Naturais” se encontra na fase preliminar.

Trata-se de um programa gerido por uma equipa especializada da EDM, destinado a garantir o acesso da população à electricidade num contexto em que os efeitos das alterações climáticas no País são cada vez mais frequentes e severos.

Que estratégias técnicas e operacionais estão actualmente a ser implementadas pela EDM para reduzir a vulnerabilidade da rede a fenómenos climáticos extremos?

Com apoio do Banco Mundial, estão a ser desenvolvidas especificações técnicas e normas de construção mais robustas, com base nas quais as novas infra-estruturas serão erguidas. Paralelamente, estão em curso levantamentos de infra-estruturas consideradas de risco para a sua inclusão no mecanismo de adaptação, visando conferir maior robustez. A aposta da EDM para a rede de distribuição, que é a mais extensa, são os postes de betão armado e metálicos, incluindo a execução de postos de transformação em maciços de betão e não mais suspensos por travessas metálicas.

“Precisamos de mobilizar 103 milhões de dólares até 2019. Até ao momento, foram disponibilizados apenas 4 milhões de dólares, tendo em conta que o projecto se encontra na fase preliminar”

Qual é o volume total de investimento alocado a programas de modernização, como postes reforçados, cabos subterrâneos e tecnologias inteligentes, e quais são os projectos em andamento?

Ao nível dos sistemas de transporte e distribuição, estão em curso actividades de modernização, com destaque para a recém-construída linha de alta tensão de 400 kV Chimuara-Alto Molocué, a nova linha de 110 kV Lamego-Guaraguara, bem como a reposição das infra-estruturas eléctricas danificadas pelo ciclone Freddy e outros eventos, num valor aproximado de 600 milhões de dólares.

Nos sistemas comerciais, a EDM investiu mais de 6,25 milhões de dólares na modernização dos sistemas de pré-pagamento e do Sistema de Gestão Comercial (CMS, para clientes pós-pagamento), tendo ainda desenvolvido uma aplicação própria de venda de energia pré-paga (Credelec).

Seguem-se alguns projectos estruturantes:

  • Projecto HYOSUNG FASE I e II – reforço e modernização de nove subestações de alta tensão actualmente a operar em condições críticas ao longo da Rede Nacional de Transporte de Energia Eléctrica;
  • Projecto de implementação de rede MS-OTN e Smart Grid, Fases I, II e III;
  • Projecto de substituição de 300 mil contadores integrados por split meter nas regiões da cidade de Maputo, Sul, Centro e Norte. A substituição de contadores obsoletos contribui significativamente para o aumento das receitas;
  • Implementação de um sistema de segurança na empresa, em resultado da consultoria para o levantamento do risco dos activos da EDM, no sentido de reduzir os custos com os serviços de segurança estática;
  • Projecto de implementação do centro nacional de despacho.

 

Que alterações concretas foram introduzidas no planeamento financeiro e na gestão de risco para incorporar o impacto económico recorrente de eventos climáticos extremos?

Na preparação dos seus planos de actividade, orçamento e projecção dos fluxos financeiros, a EDM prioriza a alocação de recursos a projectos que utilizem técnicas e materiais resilientes, bem como tecnologias inteligentes. Esta estratégia, embora implique um esforço adicional em termos de desembolso inicial, apresenta ganhos futuros, dado que a empresa passa a despender menos recursos na reposição de infra-estruturas danificadas por eventos climáticos, beneficiando ainda de ganhos de produtividade pelo uso de tecnologias inteligentes e da melhoria da qualidade da prestação de serviços.

Relativamente à gestão de risco, a EDM dispõe de um departamento específico afecto ao Gabinete de Auditoria e Risco, responsável pelo processo de gestão de riscos da empresa, que tem identificado e mapeado as ameaças climáticas nas matrizes globais da organização.

Adicionalmente, tendo em conta a complexidade e a imprevisibilidade dos desastres, a EDM criou em 2025 uma unidade específica dedicada à gestão de riscos e desastres climáticos sobre as suas infra-estruturas, afecta à Direcção de Electrificação e Projectos. A iniciativa tem duas principais linhas de actuação:

  • Contribuir para a rápida recuperação após a ocorrência de um desastre, através da aquisição e alocação de materiais e reconstrução das infra-estruturas afectadas. Para o efeito, estão sendo lançados concursos públicos internacionais para a aquisição atempada dos materiais que serão armazenados em locais estrategicamente seleccionados nas regiões Sul, Centro e Norte. Esta acção reduzirá significativamente o tempo de reposição e os custos de aquisição em regime de emergência, que podem ser 50 a 100% superiores aos de um processo contratação normal, que representava um peso grande na tesouraria da empresa.
  • Construir infra-estruturas resilientes, através da implementação de especificações técnicas adaptadas a eventos extremos, que a longo prazo reduzirão significativamente a quantidade das infra-estruturas destruídas e as interrupções do fornecimento de energia em casos de desastre, com consequência directa nas finanças da EDM e na satisfação dos consumidores.

 

O objectivo destas medidas é reduzir vulnerabilidades, optimizar a capacidade de resposta a desastres e garantir uma maior resiliência organizacional e financeira perante os desafios das alterações climáticas.

O actual modelo tarifário permite financiar investimentos preventivos e mitigação de risco climático, ou cobre apenas custos operacionais e de reparação?

O modelo tarifário em uso foi estabelecido pelo Decreto n.º 80/2022, de 30 de Dezembro, revogando o anterior Decreto n.º 29/2003, de 23 de Junho. O novo modelo define a receita requerida para um período de quatro anos, estabelecendo por essa via um nível tarifário que deve remunerar os activos e investimentos feitos em toda a cadeia de valor da EDM — produção, transporte, distribuição e comercialização —, bem como cobrir os custos de operação e manutenção dos sistemas eléctricos. No entanto, este modelo tarifário não permite ainda cobrir o financiamento de investimentos preventivos e a mitigação dos riscos climáticos.

Por outro lado, apesar da existência deste novo sistema tarifário, a EDM ainda não aplica uma tarifa que reflicta os custos reais e que cubra integralmente os seus custos de operação e manutenção.

Como planeia a EDM assegurar o acesso universal à energia até 2030, considerando os retrocessos e perdas provocados por fenómenos climáticos extremos nas últimas épocas chuvosas e ciclónicas?

A Electricidade de Moçambqiue tem vindo a implementar um conjunto de medidas estruturais para assegurar o acesso universal à energia até 2030, mesmo face aos desafios decorrentes de fenómenos climáticos extremos que têm afectado o País nos últimos anos.

Em primeiro lugar, a empresa continua a expandir a rede eléctrica nacional através de programas estruturantes de electrificação, com destaque para o Programa ProEnergia, que visa aumentar significativamente o número de novas ligações, sobretudo em zonas rurais e periurbanas, permitindo levar energia a famílias moçambicanas pela primeira vez.

Em paralelo, a EDM tem reforçado a resiliência das infra-estruturas eléctricas face aos impactos das alterações climáticas, através da adopção de critérios de engenharia mais robustos no dimensionamento e construção das redes, da reabilitação de infra-estruturas vulneráveis e da implementação de planos de resposta rápida após eventos extremos, como ciclones e cheias.

A EDM gasta, em média, 5 milhões de dólares por ano para repor infra-estruturas eléctricas danificadas pelas chuvas e ciclones, contabilizados desde o ciclone IDAI em 2019

Adicionalmente, está em curso a criação da Unidade de Gestão de Risco para a Adaptação e Resposta a Desastres, financiada pela NORAD, com o objectivo de identificar pontos vulneráveis da rede eléctrica, priorizar investimentos em adaptação climática e definir necessidades de reforço estrutural da Rede Nacional.

Moçambique atravessa a época chuvosa, um período marcado por alertas de chuvas e ventos fortes, principalmente nas zonas Centro e Sul do País, com as autoridades a activarem acções de antecipação às cheias e inundações.

O País é considerado um dos mais severamente atingidos pelas alterações climáticas, enfrentando ciclicamente cheias e ciclones tropicais. Nas últimas chuvas, entre 2024 e 2025, Moçambique foi atingido pelos ciclones Chido, Dikeledi e Jude, que causaram a morte de pelo menos 313 pessoas, feriram 1255 e afectaram mais de 1,8 milhões.

Os eventos extremos provocaram pelo menos 1016 mortos em Moçambique entre 2019 e 2023, afectando cerca de 4,9 milhões de pessoas, segundo dados do Instituto Nacional de Estatística. (DR)

 

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