Por Tiago J.B. Paqueliua
Resumo
Este artigo denuncia o controlo absoluto da informação sobre a guerra em Cabo Delgado por parte do regime moçambicano, desvelando o papel das instituições estatais de comunicação social como instrumentos de propaganda e desinformação. A repressão sistemática contra jornalistas independentes, incluindo perseguições, desaparecimentos forçados, envenenamentos e homicídios, expõe o custo humano da ocultação da verdade. Como resultado da ausência do Estado e da percepção de cumplicidade com os criminosos, populações locais tomam a justiça nas próprias mãos, como evidenciado nos episódios sangrentos ocorridos em Ocua e Chiúre-Velho.
1. O Monopólio da Informação
Desde o início da insurgência armada em Cabo Delgado, a Televisão de Moçambique (TVM), a Rádio Moçambique (RM) e o jornal Notícias têm atuado como braços propagandísticos do regime, moldando narrativas que obscurecem a realidade do conflito. Essas instituições reproduzem exclusivamente a versão oficial do governo e das Forças de Defesa e Segurança (FDS), silenciando denúncias de violações dos direitos humanos cometidas tanto pelos insurgentes como pelas forças estatais.

Como apontado pelo jornalista e investigador Estácio Valoi, “há uma censura encapotada que define o que se pode ou não relatar sobre Cabo Delgado”, o que torna invisível a dor de milhares de deslocados e vítimas de abusos
[Fonte: Estácio Valoi, entrevistas à DW e à Carta de Moçambique].
Organizações internacionais como o Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), Repórteres sem Fronteiras (RSF) e a Amnistia Internacional têm documentado casos de intimidação, repressão e censura, incluindo o desaparecimento forçado do jornalista Ibrahimo Mbaruco, da Rádio Comunitária de Palma, cujo paradeiro permanece desconhecido desde abril de 2020 [CPJ, 2020].
Em 2021, Estácio Valoi e Ernesto Gove, jornalistas investigativos, foram perseguidos por autoridades sob alegações infundadas de colaboração com grupos armados — acusações denunciadas por entidades como a Human Rights Watch e a Amnistia Internacional.
2. A Linguagem do Poder: Narrativas Oficiais como Mecanismo de Manipulação
A guerra em Cabo Delgado é travada também no campo das palavras. A retórica oficial do Estado moçambicano está imbuída de termos estrategicamente escolhidos como “terroristas”, “criminosos estrangeiros”, “vitórias sucessivas das FDS” e “estabilização progressiva”. Essas expressões são repetidamente veiculadas pelos órgãos públicos e pelos líderes políticos para fabricar uma aparência de controlo, ocultando falhas operacionais, abusos sistemáticos e a persistência da crise humanitária.

O Presidente Filipe Nyusi, em vários pronunciamentos oficiais (ex. 25 de setembro de 2021, 25 de junho de 2023), afirmou que “o inimigo está a ser desmantelado” e que “a normalidade está a regressar às comunidades”. Entretanto, tais declarações contrastam brutalmente com os relatos de deslocamentos em massa, massacres e ausência total de segurança no terreno.
Estes discursos não só falseiam a realidade como legitimam o silenciamento da imprensa crítica, apresentando-a como antipatriótica ou colaboradora do inimigo. O resultado é um clima de medo que paralisa o jornalismo investigativo e marginaliza o sofrimento das vítimas.
3. Guerra de Propaganda e o Silenciamento das Vítimas
A imprensa independente é sistematicamente impedida de aceder às zonas de conflito. Os poucos jornalistas que ousam fazê-lo enfrentam intimidações, ameaças e atentados físicos. O Canal de Moçambique e a Carta de Moçambique foram alvos de incêndios criminosos e ameaças de morte — ações amplamente denunciadas por Matias Guente, diretor executivo do Canal de Moçambique.
Casos como o assassinato misterioso do jornalista Armando Mahumane e tentativas de envenenamento de outros membros da imprensa alternativa seguem impunes. A justiça, cooptada pelo sistema, protege os agressores e pune os que denunciam.
4. A Justiça pelas Próprias Mãos como Consequência da Desinformação e Abandono
O ambiente de desinformação e manipulação gerado pelo monopólio estatal da informação contribuiu para a erosão total da confiança entre a população e o Estado. O silêncio oficial perante a violência insurgente e os abusos das próprias FDS gerou uma ruptura profunda na relação entre governados e governantes.
Como resultado, formas de justiça popular emergem em contextos onde o Estado se mostra ausente ou cúmplice.
Em Ocua, distrito de Chiúre, um homem suspeito de colaborar com os insurgentes foi linchado por populares.
Em Chiúre-Velho, dois indivíduos foram brutalmente assassinados em praça pública. Fontes não oficiais afirmam que seriam agentes das FDS da especialidade de reconhecimento, um deles com a patente de capitão.
Estes episódios, documentados por correspondentes locais e testemunhas protegidas por organizações da sociedade civil, revelam o colapso do aparato estatal e a frustração generalizada das comunidades diante da impunidade.
5. Conclusão
A guerra em Cabo Delgado não é apenas uma guerra de balas — é, sobretudo, uma guerra de narrativas. O vocabulário oficial — construído para ocultar fracassos e silenciar dores — é tão letal quanto as armas no terreno. A censura e perseguição à imprensa crítica, simbolizada por nomes como Estácio Valoi, Matias Guente, Ibrahimo Mbaruco e tantos outros silenciados, constituem uma tentativa desesperada de maquilhar o fracasso do Estado.
Enquanto o discurso do poder insiste na “vitória contra o terrorismo”, a realidade sangra. A verdade, hoje, é a principal vítima desta guerra. E sem verdade, não há reconstrução possível, nem paz duradoura.
As populações, cansadas da impunidade e da propaganda, avançam para a justiça pelas próprias mãos. Mas este caminho, embora compreensível, aprofunda o ciclo de violência e acelera a erosão do Estado de Direito.
O fim da guerra passa, necessariamente, pelo fim da mentira institucionalizada.
Referências
1. Comité para a Proteção dos Jornalistas (CPJ). “Missing journalist in Mozambique”. Abril 2020.
2. Amnistia Internacional. Relatório sobre repressão à liberdade de imprensa em Moçambique, 2021.
3. Human Rights Watch. “Mozambique: Free Journalists, Respect Media Freedom”, 2021.
4. Repórteres sem Fronteiras (RSF). “Mozambique – Country Report”, 2022.
5. Carta de Moçambique e Canal de Moçambique, diversas edições entre 2020 e 2023.
6. Estácio Valoi, entrevistas e reportagens publicadas em DW África, The Guardian, ZAM Magazine e Mail & Guardian entre 2018 e 2023.
7. DW África: “Dois mortos em linchamento em Chiúre: Indivíduos acusados de colaborar com insurgentes”. 2024.
8. Testemunhos locais recolhidos por organizações da sociedade civil, com identidades preservadas por questões de segurança.
9. Entrevistas anónimas a residentes de Chiúre-Velho e Ocua, via correspondentes locais.
10. Discursos oficiais do Presidente da República e Ministérios da Defesa, entre 2020 e 2024 [acessível via Portal do Governo de Moçambique].
11. Jornal “Notícias”, TVM e Rádio Moçambique: coberturas entre 2019 e 2024.
