Por Quinton Nicuete
O sol ainda mal despontava sobre o Índico quando os primeiros comboios de viaturas oficiais começaram a entrar no complexo industrial de Temane, em Inhambane. Do outro lado da estrada, trabalhadores de capacete amarelo interrompiam por instantes a rotina para assistir a um momento há muito prometido: a inauguração da Fábrica de Processamento Integrado de Hidrocarbonetos (IPF). Para muitos, não se tratava apenas de mais uma infraestrutura, mas do símbolo de uma viragem histórica, a promessa de que Moçambique começava, finalmente, a transformar os seus próprios recursos em desenvolvimento interno.
No centro da cerimónia, dois Presidentes lado a lado, Daniel Chapo, de Moçambique, e Cyril Ramaphosa, da África do Sul. A imagem, por si só, dizia muito. Não era apenas uma inauguração industrial, era a reafirmação de uma parceria energética que atravessa décadas e que agora ganha novos contornos estratégicos.
“Com esta fábrica, Moçambique deixa de importar o gás que as suas famílias usam todos os dias. Passamos a produzir, a transformar e a decidir”, declarou Daniel Chapo, num discurso que arrancou aplausos longos e carregados de expectativa. O Chefe do Estado falava de independência energética, mas também de soberania económica, de empregos, de dignidade produtiva.
A IPF foi desenhada para processar 23 milhões de Gigajoules de gás natural, parte do qual alimentará a Central Térmica de Temane, com capacidade para gerar 450 megawatts. Mas é na produção de 30 mil toneladas anuais de Gás de Petróleo Liquefeito (GPL), correspondente a cerca de 75% do consumo nacional , que muitos veem o impacto mais imediato no quotidiano das famílias moçambicanas. Menos importações, menos custos, mais previsibilidade.
Além disso, a unidade passa a processar diariamente cerca de 4 mil barris de petróleo leve para exportação. Um detalhe técnico, aparentemente distante, mas que se traduz em divisas para o Estado, receitas fiscais e maior capacidade de investimento público.
O projeto, avaliado em 760 milhões de dólares, foi implementado no âmbito do Acordo de Partilha de Produção com a Sasol. Nos bastidores, fontes ligadas ao sector energético confirmam que centenas de técnicos moçambicanos passaram por processos intensivos de formação durante a fase de construção, antecipando a transferência gradual de competências que o país tanto ambiciona.
Para Cyril Ramaphosa, Moçambique caminha passo a passo, mas com firmeza rumo à consolidação da sua base industrial. “A África do Sul continuará a ser parceira nesta jornada, não apenas como comprador de energia, mas como aliada no desenvolvimento”, declarou.
Mas Temane não foi o único palco da semana. A mais de uma centena de quilómetros dali, a cidade costeira de Vilankulo transformou-se, por um dia, no epicentro da diplomacia económica regional. No mesmo embalo da nova infraestrutura energética, empresários moçambicanos e sul-africanos reuniram-se no Fórum de Negócios e Investimentos Moçambique–África do Sul.
Num dos corredores que acolheu o encontro, um empresário do sector logístico, de Maputo, dizia em tom confiante, “Com mais energia e menos custos, o país fica mais competitivo. Agora precisamos que os investimentos acompanhem este ritmo.” Ao seu lado, um investidor sul-africano analisava mapas de corredores regionais de transporte, imaginando novos fluxos comerciais.
O fórum não foi apenas um evento protocolar. Foram dezenas de reuniões bilaterais, apresentações de projetos, trocas de cartões, promessas de visitas técnicas e, no fim, a assinatura de vários acordos que deverão facilitar exportações, parcerias industriais e investimentos diretos.
Sectores como turismo, agricultura, indústria, energia e logística dominaram a agenda. Para os moçambicanos, a expectativa é clara: transformar as fronteiras, muitas vezes associadas a burocracia e dificuldades, em pontes reais de crescimento económico na África Austral.
A ligação entre os dois acontecimentos, a fábrica em Temane e o fórum em Vilankulo, não é casual. Energia é base de tudo: da indústria ao turismo, da agricultura à exportação. Sem eletricidade estável, sem gás acessível, nenhum plano de desenvolvimento se sustenta.
Nos bairros de Inhambane, longe dos discursos oficiais, a esperança também ganha forma simples. “Se o gás ficar mais barato, já é uma grande ajuda”, disse uma vendedora de comida, ao ouvido da reportagem. Pequenos gestos, grandes impactos.
O Governo reafirma a visão de Energia de Moçambique para Moçambique. Mas, na prática, o desafio vai muito além do slogan: passa pela boa gestão dos recursos, pela transparência, pela inclusão da mão-de-obra local, pela distribuição justa dos ganhos.
Enquanto o sol se punha sobre as águas calmas de Vilankulo, fechava-se uma semana que ficará marcada na narrativa económica do país. Entre tubos, turbinas, contratos, discursos e expectativas, Moçambique volta a olhar para o seu subsolo não apenas como riqueza bruta, mas como motor possível de transformação real.
O futuro, como sempre, ainda é promessa. Mas, desta vez, há energia suficiente para o alimentar. Moz24h
