Oil & Gás

GNL de A a Z: Como Funciona o Mercado de Gás Natural Liquefeito (GNL)?

Texto Celso Chambisso • Fotografia D.R.

 

 

Por detrás dos grandes projectos, dos números bilionários e das rotas marítimas globais, existe uma cadeia complexa de ciência, decisões políticas, contratos, riscos ambientais e escolhas estratégicas. A E&M segue o percurso do gás natural, desde a origem à liquefacção que permite o seu transporte pelo mar.

Analisamos os detalhes de um mercado que envolve riscos climáticos, com foco em Moçambique. Uma leitura essencial para compreender o que não aparece nos comunicados oficiais, mas define o futuro do País enquanto potência energética com ambições globais, há muito adiadas.

O gás natural e a sua forma liquefeita (GNL) têm feito manchetes, em Moçambique, na última década, por causa dos megaprojectos de exploração, em que os maiores ainda aguardam por concretização. No entanto, a história do gás natural é muito mais antiga. Trata-se de um recurso natural formado a partir dos restos de minúsculos organismos, transformados ao longo de centenas de milhões de anos por calor e pressão, muito antes de os primeiros primatas existirem. A sua formação obedece a escalas de tempo geológicas, muito anteriores à história humana. Hoje, ocupa um lugar ambíguo: há quem o considere estratégico por ser menos poluente que outros combustíveis fósseis, mas é penalizado por, ainda assim, contribuir para o aquecimento global.

Este enquadramento é consensual entre instituições científicas e energéticas de referência. A U.S. Energy Information Administration (EIA), agência estatística oficial da administração norte-americana para a energia, explica, de forma detalhada, a origem, composição e usos do gás natural. Já a Agência Internacional de Energia (AIE), organismo intergovernamental que acompanha políticas energéticas globais, contextualiza o gás no equilíbrio delicado entre segurança energética e descarbonização.

No campo científico, obras clássicas como Petroleum Formation and Occurrence, de Béla Tissot e Dietmar Welte, continuam a ser referência sobre a formação geológica dos hidrocarbonetos. No caso moçambicano, dados técnicos e enquadramentos institucionais são fornecidos pelo Instituto Nacional de Petróleo (INP) e pelos operadores internacionais que actuam na Bacia do Rovuma.

De onde vem o gás?

A ideia de que o gás natural resulta de “dinossauros esmagados” é um mito popular, cientificamente incorrecto. A matéria orgânica que deu origem ao gás depositou-se em períodos em que os dinossauros ainda existiam, sim, mas tem origem diversa e a sua transformação em petróleo e gás ocorreu milhões de anos mais tarde, devido ao soterramento e ao aumento de temperatura.

Embora a combustão do gás natural emita menos CO₂, o metano, antes de ser queimado, é muito mais prejudicial para o aquecimento global, no curto prazo

Esta explicação é clarificada por organizações como a Union of Concerned Scientists (UCS), uma associação de divulgação científica norte-americana, sem fins lucrativos. Segundo a UCS, o gás natural tem origem sobretudo em microorganismos – fitoplâncton, algas, plantas e outra matéria orgânica microscópica. Quando esses organismos morreram, foram sendo soterrados ou acumularam-se no fundo de mares e lagos, misturados com sedimentos, em ambientes pobres em oxigénio, condição essencial para preservar a matéria orgânica.

Com o passar do tempo, o soterramento progressivo desses sedimentos aumentou a pressão e a temperatura, desencadeando um processo conhecido como catagénese. Foi nesse “cozimento lento” que a matéria orgânica se transformou em hidrocarbonetos – gás (sobretudo metano) e petróleo – dependendo da profundidade, da temperatura atingida e do tempo de exposição. Este é o princípio fundamental da chamada geologia do petróleo e do gás, aceite de forma transversal pela comunidade científica.

Origem e importância do metano

O metano é o principal componente do gás natural. A investigação académica reunida em bases como a SpringerLink – plataforma digital da editora científica internacional Springer Nature, que agrega livros e artigos revistos por pares nas áreas de geociências e energia – distingue duas grandes origens para o metano que hoje exploramos economicamente:

1. Metano termogénico: formado em grandes profundidades, sob temperaturas elevadas, a partir da decomposição térmica da matéria orgânica soterrada. É este tipo de gás que está associado aos grandes reservatórios convencionais e “off-shore”, incluindo os campos gigantes descobertos na Bacia do Rovuma, em Moçambique.

2. Metano biogénico: também chamado microbiano, produzido por microrganismos em ambientes mais frios e pouco profundos. Estes ambientes incluem pântanos, zonas alagadas,
reservatórios de lodo e bacias sedimentares rasas.

É interessante notar que os mesmos processos geológicos podem originar produtos diferentes. Conforme a chamada “janela térmica” (intervalo de temperatura a que a rocha-fonte é exposta), a matéria orgânica pode gerar gás seco (quase exclusivamente metano), gás húmido (com propano, butano e outros líquidos associados) ou petróleo. Esta diferenciação é explicada de forma detalhada pela EIA, que utiliza estes critérios para classificar reservatórios e estimar o seu potencial económico.

GNL e a transição energética: quais os efeitos no planeta?

O gás como “energia de transição”: promessas e contradições

Desde o início do século XXI, o gás natural tem sido apresentado por organismos multilaterais, governos e grandes empresas como uma “energia de transição”, um combustível capaz de reduzir emissões no curto e médio prazo enquanto as economias se deslocam, de forma gradual, para sistemas baseados em fontes renováveis. A lógica é simples: por cada unidade de energia produzida, o gás natural emite menos dióxido de carbono (CO₂) do que o carvão e o petróleo, sobretudo na produção de electricidade.

Relatórios da Agência Internacional de Energia (EIA) e avaliações do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) reconhecem que, em países fortemente dependentes do carvão, como China, Índia, África do Sul ou Alemanha, a substituição de centrais a carvão por centrais a gás contribuiu para reduções imediatas das emissões. Foi este argumento que sustentou, por exemplo, a “viragem para o gás” nos Estados Unidos, ou a expansão na Europa, nos anos que se seguiram à liberalização dos mercados energéticos.

No entanto, esta narrativa tem vindo a ser crescentemente questionada. A principal contradição reside no próprio metano. Embora a combustão do gás natural emita menos CO₂, o metano, antes de ser queimado, é muito mais prejudicial para o aquecimento global, no curto prazo. Segundo o IPCC, num horizonte de 20 anos, uma molécula de metano pode ter um impacto climático mais de 80 vezes superior ao do CO₂. Isto significa que pequenas fugas ao longo da cadeia – na produção, no processamento, nos gasodutos, nos terminais de GNL ou durante o transporte marítimo – podem anular, ou mesmo inverter, os benefícios climáticos da substituição do carvão.

Estudos independentes conduzidos por universidades norte-americanas, bem como avaliações do Environmental Defense Fund e da própria IEA, mostram que, nalguns campos de produção e em infra-estruturas antigas, as taxas reais de fuga de metano são significativamente superiores às oficialmente reportadas. Este dado é particularmente relevante em países com sistemas regulatórios frágeis ou com infra-estruturas herdadas, onde o controlo de emissões é limitado.

A contradição torna-se ainda mais evidente quando se observa o horizonte temporal dos investimentos. Projectos de gás e GNL exigem infra-estruturas com ciclos de vida de 30 a 40 anos (gasodutos, fábricas de liquefacção, terminais portuários e frotas de navios metaneiros). Ao mesmo tempo, os cenários compatíveis com a meta de 1,5 °C do Acordo de Paris implicam uma redução acentuada do consumo global de combustíveis fósseis já na próxima década. O resultado é um paradoxo: o gás é promovido como solução temporária, mas financiado como aposta estrutural de longo prazo. (DE)

 

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