Opiniao

DAR ESPAÇO AO OUTRO NAS NOSSAS VIDAS COMO MESÓCLISE DE UMA FRASE

Servo inútil,
Pe. Kwiriwi, CP

 

A vida é tão bela que muitas vezes pode ser construída como uma frase com o uso do pronome “me”. Para esta reflexão, com uma breve viagem na gramática de língua portuguesa, sugerimos que nossa convivência com os outros seja de paz, buscando construir o tecido social ferido pelos males provocados pela ganância e vaidades.

A nossa relação com os familiares, os amigos, os conhecidos, os vizinhos e os colegas deve ser de muito respeito e cuidado; que saibamos dar-lhes espaço nas nossas vidas como uma frase que usa mesóclise corretamente. Na frase dessa natureza, o pronome localiza-se no meio do verbo, por exemplo, “calar-me-ei somente se cada pessoa tiver sua vida respeitada; calar-me-ei quando o meu povo alcançar a liberdade; calar-me-ei quando os direitos do meu povo forem respeitados; calar-me-ei quando o ser independente refletir no desenvolvimento do capital humano”.

Muitas vezes colocamos os outros depois das demais prioridades como em uma ênclise, isto é, quando o pronome vem depois do verbo: “eu calei-me quando o povo não quis compreender que ‘a luta pela paz continua’; eu calei-me para olhar um povo que nunca clama por um mundo melhor; eu calei-me para escutar quem atende o choro das crianças abandonadas e desnutridas”. Nesses exemplos, o perigo está na forma como lidamos com cada caso, exagerando a negligência ou a covardia. Não deve haver sossego onde a vida é ameaçada.

Outras vezes a frase aparece com próclise, quando o pronome vem antes do verbo. Por exemplo: “eu não me calei apesar das ameaças e perseguições daqueles que lutam pela democracia; eu não me calei embora as cidades estejam invadidas pelos esquadrões da morte que intimidam as vozes dos críticos; eu não me calei quando soube que minha vida estava em perigo porque meu amor ao povo é imenso”.

Como a proposta é seguir costurando o tecido social ferido pelas guerras e violências, o uso de mesóclise é importante porque assim teremos consciência da nossa batalha sem trégua para alcançarmos a paz, a justiça e a liberdade ou liberdades. Quando cruzamos os braços diante das injustiças nos declaramos coniventes. Por isso, deve haver manifestação pacífica para a justiça social seja feita. Entretanto, deve evitar-se a prática da justiça pelas próprias mãos.

Como na mesóclise, o epicentro nessa ação que consiste em construir o tecido social é a pessoa humana, é a vida, é o outro, especialmente, aquele que cuja vida está ameaçada. Aprendamos a valorizar a vida humana. O direito fundamental à vida não deve ser negociado nem negligenciado. Ninguém deve ser morto como se se tratasse de uma galinha.

Eu calei-me quando soube que o povo está no centro de debates dos atores sociais e políticos; eu calei-me quando soube que aqueles que devem assumir a responsabilidade de resolver os problemas do povo se converteram. Estas frases utópicas devem ser transformadas em um desejo de todos ou melhor da maioria porque seria um equívoco pensar que todos estarão na luta. No entanto, temos que continuar a ser sonhadores porque o sonho por um mundo melhor não deve ser apagado nas nossas mentes e das dos povos.

Para a construção do tecido social ferido como numa frase com o uso de mesóclise, inicialmente, deve surgir iniciativas inclusivas e ousadas que adentram no cerne do problema que a sociedade enfrenta. O que hoje apoquenta o povo? Qual é a maior preocupação de cada sociedade? Não vamos discutir, por exemplo, de um investimento para a construção de uma estrada numa determinada região que se encontra sob ameaçada da guerra. Quem irá usar essa estrada se quase toda população se encontra na diáspora? Neste caso, a prioridade será a paz e a segurança para depois pensar daquilo que o povo desenvolverá nesse clima de paz e tranquilidade.

A construção do tecido social, como numa frase com o uso de mesóclise, passa pela identificação do tamanho do remendo que, por exemplo, a camisa irá precisar; o tamanho do buraco que a estrada tem para se repor o alcatrão; das situações mais degradadas para um reparo eficiente. Enfim, não se pode comprar uma aspirina sabendo que o paciente tem diarreia, pois significaria o uso errado do pronome “me” apesar da insistência do professor. Cada remédio trata uma específica dor como cada frase tem estrutura própria para que a comunicação flua devidamente.

Não se pode dar prioridade na compra de carteiras escolares se o problema é a falta de um edifício escolar. Haveria o perigo de usar as carteiras debaixo do sol ou da sombra de uma mangueira e as carteiras não resistiriam do sol, da poeira e da chuva. Mais uma vez, seria usar erradamente o pronome “me”.

O que temos acompanhado e que nos deixa inquietos, é ver uma sociedade com tendência minimalista. Uma sociedade que se prende em casos secundários, não obstante à gravidade da miséria, da guerra, da exclusão social, da intolerância política, do desemprego e da desigualdade social. Temos que tomar coragem para enfrentarmos o problema sem jogá-lo para debaixo do tapete. Da mesma forma que aprendemos a usar corretamente o pronome e tornar a frase compreensível, os nossos problemas devem ser encarados com cabeça erguida. Deve haver vontade de envolver todos. Isso se chama inclusão social e política, quando abro espaço para todos com vista e encontrar soluções dos problemas do povo.

O exemplo de casos secundários numa família é querer que os filhos saibam dançar enquanto ainda não sabem ler nem escrever. Não se pode substituir o lugar da educação formal por uma simples dança a não ser que seja um ambiente de escola de dança com a vista a profissionalização dos dançarinos ou bailarinos.

Para terminarmos a nossa reflexão, inspirados pela utilização da frase com uso de mesóclise em que o pronome “me” está bem situado no meio, exortamos que haja consciência do perigo de isolar os povos que deveriam ser bem governados, servidos e impulsionados a construir com suas próprias mãos o tecido social ferido. Não se deve ignorar o perigo da exclusão social, das desigualdades sociais, pois seria ignorar o uso correto do pronome “me”.
Aliás, a missão deve ser de despertar a competência do povo na construção do tecido social, mas também na manutenção da paz, da justiça e da responsabilidade que cada um tem para o bem-estar de todos.

 

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