Sociedade

CRÍTICA CIDADÃ À CARTA PÚBLICA DO PROF. DR. ADRIANO NUVUNGA

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

 

É em defesa da verdade histórica, da justiça às vítimas silenciadas e da descolonização da consciência nacional que, com todo o respeito que se deve à trajectória académica do Prof. Doutor Adriano Nuvunga — enquanto activista e académico interveniente, cumpre-nos, exercer o direito à crítica com fundamentos historiográficos, epistemológicos e ético-políticos — particularmente quando se trata da consagração pública de figuras, cuja memória permanece envolta num manto de contradições, violências e omissões deliberadas.

A carta que escreve em defesa da outorga do título de Doutor Honoris Causa postumamente a Samora Moisés Machel, ainda que revestida de retórica bem-intencionada, incorre numa tentativa preocupante de mitologização a histórica de uma figura cuja liderança política, longe de ser consensual ou imaculada, está prenhe de denúncias gravíssimas que não podem, sob nenhuma hermenêutica académica séria, serem ignoradas ou desconsideradas.

 

I. O Fútil Culto à Personalidade

Ao contrário do que sugere o Prof. Nuvunga, Samora Machel não vive em cada um de nós. Tal expressão é mais poética que realista, e revela um apego quase devocional a um personagem histórico que foi, de facto, chefe de Estado e comandante militar, mas cuja acção concreta violou sistematicamente princípios de justiça, liberdade e pluralismo — pilares que, aliás, deveriam sustentar qualquer academia digna do nome.

Não se trata de negar a sua relevância política no processo de independência, mas de recusar a canonização de lideranças autoritárias, como se a independência fosse uma conquista de um homem só, quando foi, na verdade, um processo coletivo, plural e até mesmo traído por práticas sectárias e eliminatórias.

II. A Operação Produção e o Silêncio das Valas

Nenhuma homenagem pública a Samora Moisés Machel pode ser moral ou intelectualmente legítima se não confrontar o legado sinistro da Operação Produção (1982–1985) — uma das maiores atrocidades cometidas pelo Estado moçambicano pós-independência contra a sua própria população civil.

Sob o pretexto de combater a ociosidade e o “parasitismo urbano”, o regime samoriano deportou forçosamente milhares de cidadãos, incluindo desempregados, jovens marginalizados e mães solteiras, para zonas remotas como Mavago, Namacambale, Mussawize, Unango e outras áreas de difícil sobrevivência da província de Niassa. Famílias inteiras foram desestruturadas, crianças separadas dos pais, e muitos deportados desapareceram para sempre — sem qualquer tipo de registo oficial, sepultura ou responsabilização do Estado.

Outros foram levados à exaustão, à morte por fome, ou ao desespero que os levou a engrossar as fileiras da RENAMO como única saída. Há relatos documentados de indivíduos atacados por feras selvagens, de execuções sumárias por desobediência, e de violações sistemáticas da dignidade humana — em nome de um projecto político autoritário que confundia ordem com repressão, e progresso com expurgo social.

Quem celebra Samora, sem evocar estas tragédias, cala sobre um genocídio social.

III. Algumas Questões Sonegadas Pela Historiografia Oficial

Há perguntas que a sua carta omite, caro Prof. Doutor Nuvunga, e que são fundamentais para qualquer outorga de reconhecimento académico:

1.⁠ ⁠Está Samora Machel isento de responsabilidade sobre os assassinatos de nacionalistas dissidentes, nomeadamente em M’telela (Majune), cuja captura foi lhe auxiliada pela PIDE/DGS portuguesa?

2.⁠ ⁠Está ilibado da acusação de instrumentalizar tribalismos e exclusões regionais no seio da luta armada, em benefício de um grupo político minoritário, enquanto se marginalizavam verdadeiros nacionalistas?

3.⁠ ⁠Samora foi ou não responsável político pelas operações militares sob o comando provincial do general Lagos Lidimo e comando da força aérea do general Hama Thai, que bombardearam populações civis, igrejas e mesquitas em zonas como Pebane, Luabo e Tacuane?

4.⁠ ⁠Não foi ele promotor de uma independência negociada nas costas do povo, reduzida a uma transferência simbólica de poder — bandeira, hino e rosto — enquanto se mantinha intacta a lógica de repressão e exclusão colonial?

5.⁠ ⁠Foi ou não responsável pela estratificação social ao estabelecerojas para ministros com tido de bom, e cooperativas de consumo vazias de alimentos mas com apenas as fotografias de Samora Machel, Eduardo Mondlane e Marcelino dos Santos?

6.⁠ ⁠Quem desterrou nossos concidadãos para Carico em Milange, e Chire em Morrumbala, na província da Zambézia, só porquê eram da Seita Testemunhas de Jeová, havendo muitos deles morrido por ataque de feras e outros se refugiado em Malâwi, não foi Samora?

Estes factos não são meras suposições nem produto de revisionismo barato. São elementos documentados por vozes silenciadas da resistência, por testemunhos de vítimas, por memórias que vivem nos corações da maioria dos moçambicanos atentos, incluindo os que estão na diáspora. Ignorá-los seria pactuar com o branqueamento histórico, próprio de bajuladores.

IV. A UEM e o Equívoco da Transformação Social

Ao afirmar que a UEM está ao serviço da transformação social, e que Samora dignificou a instituição, o senhor incorre num anacronismo ideológico. Durante décadas, a Universidade Eduardo Mondlane foi instrumentalizada como aparelho ideológico do Estado-Partido, onde o pensamento livre foi reprimido, a pluralidade banida e o culto à personalidade elevado à doutrina.

Foi ali mesmo que se censurou a memória crítica. Foi da UEM que muitos se calaram, foram silenciados, exilados ou mortos. Falar em transformação social, sem reconhecer as estruturas totalitárias que a própria universidade legitimou, é escamotear a verdade.

V. Contra a Estátua de Sal na História

Não se trata de ódio, mas de rigor. Não é desrespeito à história, mas sua redenção. A outorga do título de Doutor Honoris Causa a Samora Moisés Machel, sob a alegação de que seria maior que a UEM, configura não um acto de justiça académica, mas de bajulação institucional.

A Universidade, se deseja reencontrar-se com a missão de verdade e liberdade, deve começar por honrar as vítimas de Samora. Deve abrir os arquivos, promover debates livres, devolver dignidade aos que foram difamados, perseguidos ou mortos sem julgamento. Deve, sobretudo, descolonizar a sua consciência histórica.

Conclusão

Com todo o respeito devido ao seu estatuto, Prof. Doutor Nuvunga, o senhor traiu a expectativa dos que o viam como voz crítica no espaço público. Ao abdicar da lucidez crítica e aderir à mitologia institucionalizada, perde a oportunidade de defender não o legado de Samora, mas a memória dos que ele próprio silenciou.

A história é tribunal sem juízes, mas com testemunhas. E estas ainda falam — nas valas comuns, nas viúvas, nos exilados, nos estudantes calados, nos deportados desaparecidos, nos mártires sem nome. Honrá-los é negar o título a quem deles se fez carrasco.

Samora Machel não é digno de Doutor Honoris Causa. É, na melhor das hipóteses, matéria de estudo crítico. E, na pior, réu moral de uma história que teima em não ser esquecida.

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