Por Quinton Nicuete
A escassez de combustível voltou a atingir a cidade de Pemba, capital da província de Cabo Delgado, levando ao regresso da venda informal de gasolina e gasóleo nas ruas, prática conhecida localmente como “candonga”. A situação está a afectar sobretudo mototaxistas, transportadores semicolectivos e automobilistas, que passam horas nas filas das bombas sem garantia de conseguirem abastecer.
Os relatos recolhidos pelo Moz24h mostram um cenário de incerteza. Em várias bombas de combustível, os utentes chegam ainda de madrugada, mas muitos regressam a casa de depósitos vazios.
Benjamim António, mototaxista, conta que a situação voltou a agravar-se depois de um breve período de normalidade.
“Pode-se dormir na bomba e mesmo assim não conseguir combustível. Nós não sabemos o que está a acontecer. Nas bombas dizem que não há combustível, mas nós dependemos da moto para sustentar as nossas famílias.”
Segundo o mototaxista, sempre que surge informação de que uma bomba recebeu combustível, dezenas de condutores dirigem-se rapidamente ao local. No entanto, muitas vezes o produto esgota antes de conseguirem abastecer.
Sem alternativa, muitos recorrem ao mercado paralelo, onde o preço da gasolina é várias vezes superior ao praticado nas bombas.
“Na rua há combustível, mas um meio litro chega a custar 200 meticais. Há pessoas que conseguem comprar nas bombas e depois revendem na rua. Enquanto isso, nós ficamos horas na fila sem conseguir abastecer”, lamenta.
As suspeitas de favorecimento no abastecimento também são recorrentes entre os utentes. Alguns afirmam que determinados revendedores conseguem adquirir combustível em galões, apesar das restrições impostas nas bombas, alimentando o mercado informal.
Outro mototaxista, Burahimo Tomás, afirma que o problema voltou na semana passada e está a comprometer seriamente o rendimento de centenas de famílias.
“Chegamos às sete da manhã e podemos passar o dia inteiro sem abastecer. Em Pemba existem várias bombas, mas muitas funcionam por escala e isso aumenta ainda mais as filas.”
Burahimo explica que comprar combustível no mercado paralelo praticamente elimina o lucro obtido com o transporte de passageiros.
“Na rua um meio litro custa entre 150 e 200 meticais. Um cliente paga 100 ou 150 meticais por uma viagem e esse valor acaba por ser gasto apenas na compra do combustível. Assim, é impossível trabalhar.”
A crise também afecta o transporte interurbano. Crisanto Abel, motorista da rota Pemba–Montepuez, relata que é obrigado a permanecer dias nas filas para conseguir combustível suficiente para realizar uma única viagem.
“Chegamos às bombas e encontramos filas enormes. Há quem passe a noite inteira à espera. Muitas vezes abastecemos apenas uma pequena quantidade e somos obrigados a voltar para outra fila.”
Segundo o transportador, a limitação da quantidade abastecida impede que muitos operadores completem o combustível necessário para viajar, atrasando a circulação de passageiros e mercadorias entre Pemba e os distritos do interior.
Perante este cenário, os transportadores apelam às autoridades para reforçarem o abastecimento em todas as bombas da cidade e garantirem maior fiscalização, de modo a travar o desvio de combustível para o mercado paralelo.
A nova escassez surge numa altura em que Cabo Delgado continua a enfrentar elevados desafios económicos e humanitários, agravando o custo de vida e afectando milhares de famílias que dependem diariamente do transporte para garantir o seu sustento. (Moz24h)

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