Sociedade

CABO DELGADO: A FARSA DE UMA GUERRA SANTA E O NEGÓCIO DA VIOLÊNCIA

 

Por Tiago J.B. Paqueliua

Resumo

A partir de testemunhos diretos de civis que vivem no epicentro do conflito em Cabo Delgado, esta crónica denuncia a encenação de uma guerra alegadamente religiosa, que serve interesses económicos e geoestratégicos. Trata-se de uma desconstrução da narrativa oficial sobre a “insurgência jihadista”, revelando a perversa transformação do terror em negócio e a cumplicidade silenciosa da comunidade internacional.

Palavras-chave

Cabo Delgado, jihadismo, terrorismo, negócios de guerra, Islão, recursos naturais, violência armada, silêncio internacional, justiça retributiva, Macomia, Moçambique.

Introdução

Cabo Delgado tornou-se, nos últimos anos, o palco de uma das mais brutais violências armadas no continente africano. Enquanto se atribuem os actos à insurgência islamista, os que realmente vivem sob o fogo cruzado lançam dúvidas profundas sobre essa versão. É a partir da boca de um residente de Macomia — uma das regiões mais atingidas — que emerge uma das críticas mais lúcidas e devastadoras ao teatro de guerra em curso.

Testemunho de um Popular de Macomia

“É a mais pura verdade. Aqui, não só a mentira é a linguagem dominante, como também é fonte de enriquecimento para vários indivíduos. E, mais grave ainda, existem instituições internacionais que estão a apoiar incondicionalmente essas mentiras — e a participar na divisão dos lucros.”

Este é o grito de quem já não tem a quem recorrer e ciente de que quem tanto fala — segundo o próprio entrevistado, acaba morrendo impiedosamente. A indignação não se dirige apenas aos grupos armados, mas também à indiferença ou cumplicidade de instituições estatais e internacionais.

Religião ou Negócio?

Questionado sobre a base religiosa dos ataques — se os mesmos têm apoio no Alcorão ou nos ensinamentos do Profeta Maomé — o cidadão é claro:

“Não. Isso é um negócio mascarado de religião.”

E acrescenta, com conhecimento doutrinal:

“A jihad é uma luta interior pela fé — não uma licença para matar. O Alcorão proíbe a morte de inocentes e até do próprio suicídio. Que jihad é esta que mata civis indefesos? Isso não é Islão. Eu sou muçulmano, e o Alcorão é claro:

“Quem matar uma pessoa — sem que ela tenha cometido homicídio ou corrupção na Terra — será como se tivesse morto toda a humanidade.’ (Surata 5:32)”

A Inércia Estatal e a Circulação Fluida dos Atacantes

“É inacreditável como uma força de defesa nacional leva dois dias a reagir numa zona onde a população está a ser dizimada. E os tais terroristas passeiam-se sem qualquer receio, como se fossem senhores do território.”

A constatação revela a suspeita de que existe, no mínimo, uma tolerância institucional à presença dos grupos armados. Em cenários de guerra verdadeira, a resposta militar é imediata. Em Cabo Delgado, o que se assiste é uma permissividade suspeita — uma teatralização do conflito brindada sempre com as palavras cínicas: “Está sob o controle, a calmia está a voltar”.

Um “Business” em Nome de Deus

“Isso tudo é um autêntico business.” — diz o entrevistado.

Por trás destas palavras secas esconde-se uma realidade brutal: o terror converteu-se numa economia. Grupos armados, elites políticas, agentes internacionais, empresas de segurança privada, ONG fictícias e intermediários locais alimentam-se da instabilidade. O sofrimento da população tornou-se um recurso explorável.

Denúncia direta ao Ciclo de Impunidade como solução política pós-conflito:

Chegou a vez de escutar os sofredores — e não agendar futuros encontros de luxo com os seus algozes, apenas para depois serem amnistiados semanalmente, desarmados sem transparência, desmobilizados “para inglês ver” e reintegrados no status quo político e económico sem qualquer consulta às vítimas, nem aplicação da justiça retributiva.

Este modelo de “DDR” (Desarmamento, Desmobilização e Reintegração) — implementado sem justiça nem verdade — apenas incentiva o surgimento contínuo de grupos armados. A mensagem é clara: o crime de guerra compensa em Moçambique, um país que ignora sistematicamente o Estatuto de Roma, apesar de fingir protagonismo no Conselho de Segurança da ONU.

Conclusão

A guerra em Cabo Delgado não é santa. É suja, lucrativa e altamente conveniente para certos setores. Esta crónica é um apelo para que a imprensa internacional, os organismos multilaterais e os cidadãos do mundo escutem Macomia — não como estatística, mas como consciência.

É tempo de questionar os lucros da violência, o silêncio institucional e a anestesia moral do mundo diante de mais uma tragédia que serve de palco para os interesses de sempre.

Glossário

Jihad: No Islão clássico, significa esforço espiritual ou físico em prol da fé. Não implica terrorismo.

Surata 5:32: Versículo do Alcorão que condena a violência injustificada contra inocentes.

DDR: Processo político-militar de Desarmamento, Desmobilização e Reintegração, muitas vezes criticado pela sua superficialidade.

Macomia: Distrito da província de Cabo Delgado, um dos mais violentamente atingidos pelo conflito armado.

Estatuto de Roma: Tratado que instituiu o Tribunal Penal Internacional (TPI), responsável por julgar crimes de guerra, genocídio e crimes contra a humanidade.

Referências Contextuais

1.⁠ ⁠ACNUR (2025). Declaração sobre o deslocamento forçado em Cabo Delgado.

2.⁠ ⁠Amnistia Internacional (2023-2024). Relatórios sobre abusos cometidos por todas as partes envolvidas.

3.⁠ ⁠Relatório da Human Rights Watch (2022). “What I Saw Is Death”: War Crimes in Mozambique’s Forgotten War.

4.⁠ ⁠Alcorão Sagrado. Tradução e interpretação contextual da Surata 5:32.

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